Resposta a Artigo de Opinião do DN - Para lá do bem e do mal (PortugalGay.pt)
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Resposta a Artigo de Opinião do DN - Para lá do bem e do mal



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Esta página actualizada em 4 Março 2003

Os textos aqui listados são os ORIGINAIS enviados para o Diário de Notícias (excepto artigos de opinião devidamente assinalados) podendo, no caso de publicação, ter sido adaptados/reduzidos na versão apresentada no Diário de Notícias.


A origem da tragédia
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 24 de Fevereiro de 2003

Chocou muita gente a afirmação de que vivemos uma campanha de promoção da pedofilia. Mas a surpresa vem do esquecimento de um princípio básico: a eliminação das regras impõe sempre a vontade do mais forte.

Na ausência de leis domina a lei da selva. Vivemos numa sociedade que sabe bem que a liberdade precisa do amparo da legalidade e do civismo para se defender. No campo económico, por exemplo, toda a gente sente que, se forem eliminadas ou enfraquecidas as leis que regulam as empresas, os patrões, mais fortes, explorarão os trabalhadores. Mas, apesar desta evidência esmagadora, no campo íntimo e privado o nosso tempo luta para a mais completa eliminação de regras, hábitos e costumes. Aí deve vigorar a liberdade mais absoluta, isenta de tabus, inibições, limites. Este princípio foi mesmo erigido em valor sagrado. O resultado, naturalmente, é abrir espaço ao domínio do predador.

A realidade desta tragédia é esmagadora. O caso mais evidente está na condição feminina. No campo socioeconómico, com fortes leis e civismo, o nosso tempo conseguiu avanços únicos na libertação da mulher. Mas no campo pessoal e familiar, ao impor a eliminação de tabus, nunca a opressão feminina foi tão profunda. A pornografia, a prostituição, a promiscuidade, a precariedade familiar, a traição, o divórcio, a solidão, fenómenos de sempre, atingem hoje o paroxismo. Até o preservativo e a pílula libertaram das responsabilidades, não a mulher, mas o homem. A actual situação da mulher é, pois, paradoxal, com larga liberdade económica e crescente exploração pessoal.

Mas os fracos são também os embriões, crianças, idosos, doentes, deficientes. São eles as vítimas do aborto e clonagem, da promiscuidade e divórcio, da solidão de lares e hospitais, do suicídio e eutanásia. A obsessão pelo prazer dos poderosos leva sempre ao abuso dos mais fracos.

Nos media o processo é o mesmo. Vivemos num tempo que pensa dever fazer a exposição e acusação pública de todos os crimes e injustiças, contribuindo para a sua solução. Isso, quando se seguem as regras, é muito bom. Daí a importância indiscutível dos media na nossa sociedade e o seu sucesso no combate ao mal. Mas a utilidade da divulgação tem os seus limites. O actual frenesim mediático, sem lei, mostra crescentemente o abuso dos mais fortes. Há cada vez mais casos onde a notícia comete o agravo ou a violação do segredo da investigação perverte a justiça.

Além disso, a fama incita o psicótico. Quando a maldade vem de pessoas evidentemente desequilibradas, a publicitação dos vícios não só não previne mas até promove. Está mais que documentado por sociólogos e psicólogos que o alarde das reportagens sobre maus tratos a crianças, violência familiar, assassínios em série e outras depravações é catalisador desses mesmo males. Sendo resultado de perversões paranóicas, que se excitam com a notoriedade, em geral a publicidade incita essas práticas.

Deste modo, não há muitas dúvidas de que a orgia recente de detalhes sobre pedofilia é prejudicial. Depois do mérito excelente e insubstituível da denúncia inicial, a imprensa agora complica a tarefa da polícia e agrava a situação das pobres vítimas, nada fazendo para as aliviar e libertar.

Na falta dos costumes civilizados, domina a opressão e loucura das profundezas de Dionísio. É esta, disse Nietzsche já em 1872, A Origem da Tragédia.

João César das Neves
naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

Para lá do bem e do mal
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 10 de Fevereiro de 2003

A campanha nacional para a promoção da pedofilia desenrola-se normalmente. A primeira fase, agora terminada, até foi mais longe que o previsto. Não só se banalizou o horror, como pretendido, mas passou mesmo a assunto central das discussões. Já começou a segunda fase, revelando algumas personalidades respeitáveis ligadas à prática. Não falta muito que alguém faça a pergunta sacramental: «Qual é o mal?», iniciando-se então fase decisiva.

O fenómeno segue as regras estabelecidas. Ainda há anos realizou-se um processo equivalente à volta do aborto, logo a seguir ao mais bem sucedido de todos, com o preservativo. Junto com a homossexualidade, estes já atingiram a fase final, a consagração nos programas escolares. Era tempo de passar a outros campos. Por isso há muito eram evidentes os preparativos para nova campanha nacional. A única dúvida era no tema escolhido, que tanto podia ser o estupro como a pedofilia. As tentativas iniciais, centradas à volta do assédio sexual, pareciam indicar o primeiro. Mas, de facto, começar pela pedofilia permitirá melhor: depois passar para os outros tipos de violência.

Se a alguns ainda choca pensar que daqui a uns anos será banal considerar o horror das práticas pedófilas, é porque esqueceram o passado. Há uns anos era com a mesma náusea que se considerava o aborto e a homossexualidade. Há umas décadas era com o mesmo asco que se via a pornografia e o preservativo. Há umas gerações era com a mesma aversão que se olhava para o adultério e as uniões de facto. Em todos estes casos, a campanha venceu. O repúdio natural passou a oposição violenta, evoluiu como aceitação contrariada e terminou em banalização neutra. Hoje quem manifestar (sempre humilde e respeitadoramente, claro) opinião contra o divórcio, a pílula ou a pornografia será queimado como herege.

Não se deve pensar que estas campanhas são planeadas por poderes ocultos e sinistros. Os piores movimentos da História resultam de impulsos triviais. O deboche nunca precisou de partidos clandestinos. A ele juntam-se forças laterais, visíveis e identificáveis, mas apenas coadjuvantes e secundárias. Os media querem vender, os políticos procuram brilhar e os burocratas gostam de regulamentar. Todos entenderam há muito que o escândalo compensa. Se a isto se juntar a arrogância de parlamentares e técnicos ministeriais, a hipocrisia e o seguidismo populares, a campanha está montada, mesmo na ausência de cérebro planeador. Terá o sucesso das anteriores.

Se a busca do prazer se sobrepõe ao pudor e à família, onde estão os seus limites? Se é aceitável matar crianças dentro do seio da mãe, porque não se pode abusar delas depois de nascerem? Esta é a intuição genial de Nietzsche logo em 1886, ao compreender que, abandonadas as referências espirituais, passámos «para lá do bem e do mal». Tudo é permitido e pode ser recomendado.

Para lá do bem e do mal vive a miragem da libertação e o império do mais forte. O resultado é a dor e o sangue. A lógica de liberdade absoluta aplicada à propriedade e à raça deu a «ditadura do proletariado» e o «holocausto», tendências que estão a reaparecer. Aplicada à vida quotidiana dá ciúme, divórcio, promiscuidade, droga, a violência nos media, a clonagem, a inseminação artificial, as novas armas, o terrorismo e, claro, guerra. É o resultado de abandonar a árvore do conhecimento do bem e do mal.

João César das Neves
naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

> Outros artigos de opinião homofóbicos de João César das Neves

Algumas das respostas enviadas ao jornal em relação a estes artigos e repostas a estes artigos

Resposta publicada na secção Cartas do Diário de Notícias em 1 de Março de 2003:

Não prolongar uma velha discriminação

A carta ao director de Edmundo Freitas intitulada Legislação bastante permissiva ofende os homossexuais e deturpa a verdade ao associar uma suposta «legislação da pedofilia» a propostas do BE e do PCP que retirariam o art.º 175.º (actos homossexuais com adolescentes) do Código Penal. Ofende porque, mais uma vez, e novamente com a aparente concordância do director (que atende a publicar a carta, sem qualquer reparo seu), estabelece uma relação directa entre uma suposta descriminalização de um crime, a pedofilia, e uma suposta descriminalização de outro crime, a prática não consentida de actos homossexuais com menores.

Ao não esclarecer os leitores de que o crime em causa é o da idade de consentimento inadequada e não o dos actos homossexuais em si, mais uma vez se associa o crime da pedofilia à homossexualidade. A homossexualidade não é crime. A prática de actos homossexuais e heterossexuais com menores sem o seu consentimento é crime.

Desvirtua a verdade ao não informar que a revogação deste artigo é há muitos anos recomendada por inúmeros relatórios internacionais de Direitos Humanos (nomeadamente o relatório anual de Direitos Humanos do Parlamento Europeu), visto a sua existência consagrar uma diferença não admissível entre a idade de consentimento para actos homossexuais e para actos heterossexuais.

A revogação do artigo em causa não implica portanto que os actos homossexuais com menores sem o seu consentimento deixam de ser crime, coisa que ninguém deseja.

Esses actos, e bem, continuam a ser criminalizados por um artigo comum aos actos homossexuais e heterossexuais.

A proposta deste artigo comum acaba com uma discriminação que envergonha Portugal em termos de Direitos Humanos.

António Serzedelo
Lisboa

Na qualidade de homossexual, de jornalista, mas acima de tudo de ser humano inteligente insurjo-me contra estas atitudes generalizadas que continuam a ter voz no Portugal dos Pequeninos que continuamos a ser e que nos trazem ecos de um passado não muito distante do famoso "orgulhosamente sós".

A celeuma em torno da pedofilia que tem vindo a inundar todo o mundo nos passados tempos, concordará qualquer um com o Sr. João César das Neves, que não é nada de novo... concordaremos também que é um acto (que para além de criminoso) é moralmente inclassificável, repugnante e merecedor da nossa maior e mais séria atenção.

Triste é que no furor do demasiado zelo e apreço com que o autor escreve acerca do assunto, a sua integridade jornalística, objectividade e competência literária sejam sofredoras de metáforas forçadas, injustas e incoerentes, pondo em risco a justa causa que queria defender e roubando a peça em questão de qualquer tipo de valor que poderia ter tido.

O autor esquece que se destituírmos a pedofilia do vómito que nos provoca, ficamos apenas com os factos puros e simples que a fazem crime: o consentimento de ambas as partes é inexistente. Independentemente das emoções e das modas morais a que o autor se refere, isto nunca há-de mudar...

Sob esta luz, qualquer tipo de comparação com actos (sexuais ou não) em que não existe vítima é ridículo e por si só uma violação do pensamento lógico e racional a que a justiça nos obriga.

Por outras palavras, desde o momento em que a expressão de consentimento e vontade por parte dos dois ou mais indivíduos envolvidos (partindo do princípio que estes são de idade suficiente para que a Lei reconheça a expressão deste mesmo consentimento) seja clara e não infringida a qualquer momento durante o acto, a comparação é desinteligente (outro eufemismo).

Relembrando o Sr. João César das Neves (e o Director do DN) de que uma das regras que qualquer bom Jornalista aprende na Faculdade é que, mesmo num artigo de opinião, a objectividade deve prevalecer no texto final, e na qualidade de conselho entre "colegas" opino que uma análise racional e objectiva do escrito é uma excelente prova dos noves.

Preocupado com o bem estar do autor, e pondo de lado as ofensas provocadas, talvez a reconsideração dos motivos pelos quais posições visceralmente tão intensas em relação à homossexualidade são demostradas tragam uma resposta válida para tamanha falta de profissionalismo, trilhando o caminho Socrático do "Conhece-te a ti mesmo".

Onde há fumo há fogo!

Atenciosamente:
Jorge Balça
Jornalista / Encenador
Londres - UK

    Resposta de João César das Neves

    Agradeço a sua mensagem e a reflexão que me quis dirigir.

    É curioso como, apesar da seriedade que apresenta na sua argumentação, não deixa de cair no erro de tanta gente, que é ler o que no artigo não está.

    O meu texto queria dizer uma coisa muito simples: temos assistido a uma cavalgada imparável de mudança nas atitudes face ao sexo (penso que ninguém nega isto). Como escrevi, "o repúdio natural passou a oposição violenta, evoluiu como aceitação contrariada e terminou em banalisação neutra.". Aquilo que horrizava os nossos avós é hoje apresentado nas escolas e nas televisões. Isto são factos evidentes que acho que ninguém contesta. Depois, simplesmente, faço uma extrapolação para o futuro, continuando na mesma linha. É uma extrapolação directa, simples, linear. Algumas pessoas parece que não gostam do que vêm nessa extrapolação, e zangam-se comigo. Eunão ataquei ninguém, não ofendi ninguém , não propuz que se castigasse ninguém ou se proibisse o que quer que fosse, como me acusam de fazer. Limitei-me a extrapolar uma tendência.

    Talvez seja bom que os que se horrorizam pensem bem na razão do seu horror, e não condenem o mensageiro por causa da carta. Respeitosamente

    João César das Neves

      Resposta à Resposta de João César das Neves

      Caro Sr. João César das Neves,

      Desde já o meu muito obrigado por tão célere resposta.

      Contudo, a necessidade de explicação de um texto jornalístico (que é essencialmente o que me enviou) é por si só a declaração da sua falta de qualidade formal (já que pelos vistos é incapaz, para não querer inferir que o faz conscientemente, de atingir as suas implicações de conteúdo). À luz desta mensagem, depois de uma nova leitura do texto original, o exercício mental é realmente simples, simplista mas não inofensivo. Se tantos leitores não entenderam o texto original desta forma (e acrescido da responsabilidade de difusão jornalística) talvez não tenha sido clara a forma como o escreveu resultando numa peça de fraca qualidade e de perigo de activismo social homofóbico. Entre os conceitos abstractos do mundo das ideias e as concretizações palpáveis (e por vezes ineficientes) das palavras, é responsabilidade do autor minimizar a perda de sentido e de razão motora no processo de comunicação. Se o texto produzido provocou tanta celeuma levando tantas pessoas a se manifestarem contra ele (quantas pessoas silenciosamente se terão também ofendido?) não creio que seja uma atitude correcta ignorar que estes grupos e indivíduos (independentemente da interpretação da sua saúde intelectual, moral, psicológica...) são uma valiosa parte do público para que escreve.

      Na qualidade de prestador de serviços a uma população, o jornalista dever-se-à sempre lembrar que "o cliente tem sempre razão"... Independentemente das razões que o levaram a escrever o texto, o simples facto de que este foi (supostamente) mal interpretado por tantos deverá por si só indicar-lhe que a mensagem que desejou passar foi ineficiente (ou pelo menos entrevada) no veículo que escolheu.

      Não posso deixar de notar também que um pedido de desculpas não se encontra em qualquer parte da sua mensagem, obrigação esta que poderia variar em teor e gradação na sua concretização. Se não achasse próprio reconhecer a infelicidade, o valor raccionário e o perigo das comparações escritas (o que é mais que óbvio, na minha humilde opinião), pelo menos a responsabilidade que tem, na qualidade de autor de uma peça jornalística, em certificar-se de que o seu público compreende o que está a tentar dizer (minimizando as possibilidades e probabilidades de interpretação errada do que está a tentar transmitir) deveria ter sido assumida. Neste caso, pelo menos uma desculpa por ter produzido um texto que permitiu que tantos leitores tenham (de novo, supostamente) interpretado de forma errada o que queria na realidade escrever seria encarada como de bom tom e como prova de consciência da responsabilidade de jornalista que lhe compete (para além do facto de que seria prova de boa educação, qualidade esta que infelizmente vende poucos jornais quando comparada com a má educação reaccionária).

      Esperando sinceramente que não interprete estas minhas mensagens como um insulto respondendo a outro, mas como uma ajuda grátis para que o seu trabalho possa evoluir e ganhar qualidade, desejo-lhe uma feliz, mais consciente e mais cautelosa continuação de carreira.

      E já agora, algo para reflectirmos todos juntos:

      * As condenáveis atitudes racistas supõem o conforto do indivíduo preconceituoso por poder controlar com quem procria e consequentemente a cor dos seus descendentes.

      * As atitudes (igualmente condenáveis) homofóbicas não oferecem este mesmo conforto por não existir forma de controlar a orientação sexual daqueles que nos são mais próximos. Neste caso, qualquer núcleo familiar tem potencialmente telhados de vidros, e a sabedoria popular aconselha-nos a ter cuidado com as pedras que atiramos.

      Atenciosamente:
      Jorge Balça
      Jornalista / Encenador
      Londres - UK

"Considera a Associação Obra Gay - Opus Gay que o artigo de César das Neves, "Para lá do bem e do mal", afecta a sua reputação e boa fama, mesmo que indirectamente, pela forma como:
1) lamenta que determinados adjectivos como "náusea" e, analogamente, "asco", "aversão" e "repúdio natural", tenham deixado de ser o sentimento dominante dos cidadãos face à homossexualidade na sociedade portuguesa;
2) compara com má fé a homossexualidade a um crime, a pedofilia, só porque em Portugal já não há censura e pode-se falar de uma coisa e de outra;
3) promove a violência e o ódio contra os homossexuais;
4) tenta diminuir todas as conquistas recentes nos Direitos Humanos das mulheres, jovens, homossexuais, considerando-as fruto de mera "campanha", mera propaganda, des-informação.

Neste sentido, vem esta associação exigir um pedido de desculpa público e impresso neste jornal, reconhecendo a gravidade das ofensas feitas e ainda afirmando que nunca deveriam ter sido publicadas, com o mesmo destaque que mereceu a dita crónica, das seguintes pessoas:
1) do autor da crónica;
2) do Director do DN, Mário Bettencourt Resendes, pelo que, de acordo com o Artº 20 nº 1, a), da Lei nº2/99, dita Lei de Imprensa, o Director é responsável pelo conteúdo da publicação, e deveria ter impedido a publicação de semelhantes ofensas.

A mera publicação deste direito de resposta não satisfaz os danos por nós sofridos, uma vez que este artigo é apenas a gota de água num copo de abusos que alguma comunicação social portuguesa tem perpretado contra a comunidade homossexual e que desejamos ver exemplarmente terminados. Assim sendo, a recusa de publicação destes dois pedidos de desculpa terá como consequência que a Associação Obra Gay - Opus Gay tentará obter por outros meios legais a compensação pelos danos sofridos.

Respeitosamente

Pela Direcção da Associação
António Serzedelo, Presidente"

Mensagem enviada ao Diário de Notícias ao abrigo da lei de Direito de Resposta.

À Direcção do DN:

Na boa tradição de recentes "responsáveis" da Igreja Católica Romana nos E.U.A., a propósito de casos de padres pedófilos (que Portugal também já conheceu), João César das Neves vem mais uma vez tentar aproveitar a discussão da pedofilia para promover uma agenda de ódio e discriminação contra homossexuais (sentimentos aliás completamente contrários aos ensinamentos fundamentais da religião que supostamente professa). Note-se que, curiosamente, ao sugerir que uma pessoa que pense como ele estará sob a ameaça de ser "queimado como herege", esquece, aliás - ou pretende, mais uma vez, fazer esquecer -, que essa prática punitiva está associada historicamente à mesma Igreja que tem, ainda hoje, posições semelhantes às de JCN.

Mas se mais uma (ana)crónica de JCN não mereceria por princípio a minha resposta, faço-o apenas porque sinto que, num momento em que finalmente se quebram silêncios e se percebe o horror desses silêncios impostos, é absolutamente fundamental deixar bem claro, e de uma vez por todas, que não há qualquer relação entre pedofilia e homossexualidade.

Precisamente porque a gravidade da prática pedófila é indiscutível, é extremamente importante que se alerte também para o facto de que a maioria dos casos de práticas pedófilas se verifica nas famílias, entre adultos do sexo masculino e crianças do sexo feminino. É que a denúncia deste claro e violento abuso de poder exige que este possa, em primeiro lugar, ser identificado. É, por isso, um dever de qualquer pessoa com acesso à comunicação social contribuir para esta identificação. JCN não só não o cumpre, como é suficientemente irresponsável para, num aproveitamento aliás absolutamente chocante dos casos que têm vindo a público, tentar "confundir" pedofilia e homossexualidade, promovendo assim o obscurantismo e perpetuando o tipo de ignorância e de silêncio que garantem a existência de práticas pedófilas.

Mais: porque valorizar o direito à autodeterminação sexual passa também por perceber que o exercício consensual da sexualidade entre dois adultos deve ser indiscutivelmente livre, a "confusão" de JCN atenta ainda contra este direito, ao contribuir, uma vez mais, para preconceitos com consequências graves nas vidas de muitas e muitos homossexuais. É que a homofobia, tal como o racismo, não é uma opinião inócua. Ao tentar atirar para o mesmo saco da "crise de valores" a pedofilia e a homossexualidade, JCN estimula um ambiente persecutório em relação à última - uma atitude que revela a ausência dos valores mais elementares da cidadania.

O mais grave é que tudo isto deveria ser evidente para JCN. Se não o é, há apenas duas justificações possíveis: a hipótese de subnutrição intelectual não será a mais credível, mas a alternativa é apenas a manipulação voluntária e calculada, ou seja, uma clara manifestação de desonestidade intelectual; seja qual for a causa, a realidade é que a irresponsabilidade desta 'opinião' atinge uma dimensão quase criminosa, por incitar a discriminação. Porque é JCN que não pode estar para além do bem e do mal, espero que o DN compreenda a gravidade dos seus comentários e tome as medidas adequadas.

Paulo Pamplona Côrte-Real
Docente Universitário

Resposta publicada na secção Cartas do Diário de Notícias em 16 de Fevereiro de 2003:

Não conheço o curriculum de João César das Neves, mas a sua crónica de 10 de Fevereiro de 2003 poderia ser considerada como o "melhor" contributo do ano para a promoção da intolerância e de um clima persecutório. O alvo do texto são as pessoas que têm, ao longo de muitos anos e com muitos sacrifícios, promovido os direitos daqueles e daquelas cujas vidas e identidades são esmagadas por uma maioria silenciosa sem nenhuma legitimidade para exercer a sua hegemonia. O alvo inclui a maioria das mulheres, as mulheres impedidas de escolherem livremente a maternidade, os homossexuais e muitas outras categorias discriminadas. Já seria suficientemente grave que JCN desprezasse ou fizesse pouco das aspirações dessas pessoas à cidadania plena. Mas ele vai mais longe, dizendo que as "campanhas" para promoção dos direitos daquelas terão como corolário lógico a promoção dos direitos (ou a normalização) dos comportamentos pedófilos. Gostaria que este truque argumentativo fosse mero exercício de mestria retórica. Mas as suas consequências são tão graves que só pode ser visto como desonestidade intelectual, por misturar o que não se pode misturar e, ao fazê-lo, prejudicar outrém.

Alguns esclarecimentos (mas será que JCN precisa que lho lembremos?): a grande linha divisória entre legitimidade e ilegitimidade nos comportamentos sexuais é a que separa o mútuo consentimento informado entre pessoas em idade legal, por um lado, do abuso sexual, por outro. Este abuso é agravado quando se trata da vitimização de crianças, como nos casos horríveis da Casa Pia e de tantas outras instituições e, sim, de famílias. Confundir isto com a homossexualidade é um implícito grave na "argumentação" de JCN. Em circunstâncias normais não comentaria sequer a crónica, por poder tratar-se de mera opinião. Mas nos tempos que correm - marcados por um revanchismo moralista que não pode ser justificado pelo compreensível repúdio dos actos pedófilos, pois não pretende atacar os culpados mas sim aproveitar o clima para impedir o acesso à cidadania de quem exerce a sua sexualidade no respeito pela liberdade dos outros - a falsificação ideológica a que JCN se dedica é inadmissível.

JCN está no centro do mundo: vive bem, é letrado, é homem, é branco, suponho que heterossexual, casado, católico, conservador. Isto dá-lhe todos os privilégios inimagináveis para a maioria das pessoas. Como se não bastasse, escreve contra os que estão nas margens, porque ameaçam simbolicamente o seu mundo. Alguém - talvez a direcção do jornal, uma vez que o limite da autonomia de opinião foi ultrapassado - poderá dizer-lhe que é mistificador, insultuoso, injusto e perigoso dizer que quem quer a aceitação plena dos homossexuais quer também a aceitação do abuso sexual? Na falta de alguém mais adequado, digo-o eu, enquanto homossexual e acérrimo defensor da punição dos abusos sexuais de crianças por todos os senhores "respeitáveis" (e de qualquer orientação sexual) que venham a ser apurados como culpados.

Miguel Vale de Almeida
Antropólogo, Investigador e Professor Universitário

Resposta publicada na secção Cartas do Diário de Notícias em 17 de Fevereiro de 2003:

Exmo Senhor Director do Diário de Notícias,

Venho junto de V. Exia protestar relativamente ao teor do último artigo de César das Neves. Entendo que a provocação de debate e de ideias tem seguramente um papel importante no campo democrático, mas julgo, também, que tal não pode ser feito a troco de tudo poder ser dito e provocado. Há conteúdos de provocação que não são senão claras manifestação de inconformidade quanto a alguns dos ganhos civilizatórios mais abnegadamente conquistados.

E por falar em conquistas, não seria tempo de o DN conquistar para este papel de lançamento de ideias e debates, outros que não têm palcos garantidos como aqueles que esse senhor já teve oportunidade de cativar, como por exemplo o dos púlpitos e dos seus seguidores-conservadores? Julgo que os leitores não ganham nada (e os jornais tambem não) com os lugares cativos que tais analistas ocupam (melhor, que lhes é permitido ocuparem). Ser leitor de jornais implica o dever de lidar pluralmente com a diferença, mas comporta também o direito de ser intransigente com a "pluralidade" que é aniquiladora dos principios basilares de convivência e respeito das sociedades onde nos movemos.

Dispensamos e ofendem-nos as considerações passadistas e desrespeitosas do Sr. César das Neves.

Fernanda Rodrigues
Porto

A Campanha
Artigo de opinião publicado no Jornal Público de 13 de Fevereiro de 2003

O texto de João César das Neves publicado no "Diário de Notícias" no dia 10 de Fevereiro não é apenas uma opinião discutível sobre um determinado tema. Sejamos claros: é um texto grave, por aquilo que insinua, e pelo modo como o formula. É um texto que compromete a credibilidade intelectual de um economista respeitável e que não pode ser passado em silêncio.

Intitula-se "Para além do bem e do mal", o que é, como facilmente se deduz, uma alusão a um título de Nietzsche, feita aqui em termos que revelam o mais total analfabetismo filosófico: significaria que "tudo é permitido e pode ser recomendado". Ora bolas, não seria melhor ler os livros?

Mas isto ainda é o menos. O primeiro ponto extremamente grave é a afirmação de que o actual escândalo da pedofilia é apenas uma forma encapotada para banalizar o tema e fazê-lo entrar no elenco das coisas aceitáveis. É isto que é dito, preto no branco: "A campanha nacional para a promoção da pedofilia desenrola-se normalmente. A primeira fase, agora terminada, até foi mais longe que o previsto. Não só se banalizou o horror, mas passou mesmo a assunto central das discussões. Já começou a segunda fase, revelando algumas personalidades respeitáveis ligadas à prática. Não falta muito que alguém faça a pergunta sacramental: 'Qual é o mal?', iniciando-se então a fase decisiva." Que um trabalho jornalístico de primeira qualidade (no qual devemos destacar Felícia Cabrita) e que uma investigação das autoridades que não tem respeitado tabus sejam reduzidos a uma campanha para normalizar a pedofilia é uma afirmação intolerável que nem mesmo a brincar seria admissível.

Mas continuemos. O segundo ponto desastroso deste texto é a amálgama de tudo aquilo que, seguindo os métodos agora evidenciados pela campanha sobre a pedofilia, apareceria como equiparável do ponto de vista moral à pedofilia. E aqui, naquela fúria niveladora, que nos leva a perguntar se João César das Neves é um menino de coro ou um mero provocador, vemos alinhados lado a lado o aborto, o uso de preservativo, a homossexualidade, a pílula, a pornografia ou o divórcio.

Leia-se para se acreditar: "Ainda há anos realizou-se um processo equivalente à volta do aborto, logo a seguir ao mais bem sucedido de todos, com o preservativo. Junto com a homossexualidade, estes já atingiram a fase final, a consagração nos programas escolares. Era tempo de passar a outros campos. Por isso eram há muito evidentes os preparativos para nova campanha nacional. A única dúvida era no tema escolhido, que tanto podia ser o estupro como a pedofilia. As tentativas iniciais, centradas à volta do assédio sexual, pareciam indicar o primeiro. Mas de facto começar pela pedofilia permitirá melhor: depois passar para outros tipos de violência."

Lê-se isto com um sentimento de repugnância., comiseração e náusea. É por isso melhor não comentar.

Por Eduardo Prado Coelho

P.S.: Escusado será dizer a importância da participação na manifestação contra a guerra no próximo sábado. Só posso lamentar a posição extremamente dúbia do PS.

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Email do Director (Mário Bettencourt Resendes)

Outros artigos de opinião homofóbicos de João César das Neves

 
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