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Quinta-feira, 26 Maio 2005 00:59

SIDA
Processado médico que quer tratar HIV com vitaminas na África do Sul



Mathias Rath é um médico alemão que acredita que se consegue combater o vírus da sida com choques vitamínicos e que tem levado a cabo campanhas intensivas de propaganda na África do Sul contra a terapia anti-retroviral. Manto Tshabalala Msimang é a ministra da Saúde que, com o consentimento do Presidente Thabo Mbeki, tem apoiado a campanha de Rath. O povo, na sua maioria pobre e ignorante sobre a doença que mata 600 sul-africanos por dia, sente-se confuso.


Os activistas da luta contra a sida acusam Rath e o Governo de terem as mãos sujas de sangue de inocentes. Hoje o médico vai, sozinho, a tribunal. Não por ter jogado com a vida dos doentes que tratou, mas por ter feito publicidade a uma teoria sem provas científicas.

Mathias Rath iniciou carreira ao lado de Linus Pauling, o químico californiano que foi Nobel da Química em 1954, Nobel da paz em 1962 pela sua luta anti-nuclear, e que acabou os seus dias a defender os benefícios da vitamina C como panaceia para todas as doenças.

Pauling morreu em 1994. Mathias Rath sempre defendeu os benefícios dos choques vitamínicos e atacou as terapias contra a sida. Com escritório nos Estados Unidos e na Holanda, o médico acabou por fundar uma empresa de produção e comercialização de vitaminas.

Rath poderia ser encarado apenas como um dissidente da comunidade médica que investiga e trata o HIV. Ou como um louco que acredita numa causa duvidosa. Mas o facto de a sua empresa comercializar as vitaminas milagrosas que apregoa como a única terapia eficaz contra a sida faz com que seja, aos olhos dos sul-africanos que sofrem na pele as consequências da doença, e aos olhos dos activistas da luta contra a sida, um assassino maquiavélico.

Mathias Rath defende-se atacando. E o ataque é dirigido contra aquilo a que chama o cartel dos medicamentos. Rath inclui nas suas críticas o Presidente norte-americano George W. Bush, o primeiro-ministro britânico Tony Blair e a farmacêutica Glaxo SmithKline, uma das produtoras de medicamentos usados nas terapias anti-retrovirais contra a sida. Rath defende que estas terapias arrasam com as células que as vitaminas, por sua vez, protegem.

Com base nas acusações feitas pelo médico às terapias anti-retrovirais, que diz serem um puro veneno, os activistas da Treatment Action Campaign, uma associação de luta contra a sida, decidiram interpor uma acção em tribunal com base na falta de provas que fundamentem as acusações de Rath.

Ainda este mês, saíram à rua milhares de pessoas numa manifestação organizada pela organização contra as teorias de Rath, mas sobretudo contra a conivência do Governo sul-africano com o que o médico advoga.

A estes activistas, que apelam ao acesso dos cinco milhões de infectados de África do Sul às terapias anti-retrovirais, os medicamentos comprovadamente mais eficazes para retardar o avanço da doença, juntaram-se em apoio médicos e investigadores de todo o mundo, e ainda as Nações Unidas e os Médicos sem Fronteiras, que têm desenvolvido um longo trabalho de campo no tratamento de doentes com sida em África do sul.

Os activistas dizem que não perdoam a protecção que o Governo sul africano dá às ideias de Rath. E também não perdoam o facto de Mbeki ter dito aos jornais, em 2003, que não conhecia ninguém com sida, nem tão pouco seropositivo. A África do Sul é o país mais flagelado do mundo pela doença, que atinge 25 por cento da população activa, entre os 15 e os 50 anos.

Em Março, a Advertising Standards Authority, a autoridade para a publicidade da África do Sul, mandou retirar 11 anúncios que o médico tinha pago na comunicação social porque a informação que veiculava não estava cientificamente comprovada.

Mas o médico continuou a apregoar a sua teoria dos benefícios das vitaminas nos jornais internacionais, entre os quais nos prestigiados The New York Times e International Herald Tribune. "Aviso aos povos e aos governos do mundo. Parem com o genocídio da sida às mãos do cartel da droga", diziam alguns dos anúncios. Outros publicitam estudos piloto com grupos de doentes de sida, assegurando que melhoraram após quatro semanas de tratamento à base de suplementos vitamínicos.

Nem as recomendações contra as teorias de Rath, feitas por parte da Food and Drug Administration, responsável nos EUA pelo controlo dos medicamentos, por uma associação suíça que promove alternativas terapêuticas contra o cancro, ou da Associação Médica Britânica, amenizaram a campanha.

Mathias Rath encontrou na África do sul o terreno mais fértil para plantar a sua teoria, visto tratar-se de um país em que as medicinas tradicionais são muito apoiadas pela população. A Organização dos Curandeiros Tradicionais juntou-se a Rath, defendendo que os medicamentos contra a sida fornecidos pelas autoridades de saúde são tóxicos e que são essas autoridades que estão a vedar o acesso dos doentes às curas tradicionais em que sempre acreditaram.

O jornal britânico The Guardian conta uma história entre tantas que ilustra bem a influência que as medicinas tradicionais exercem na sociedade sul africana.

É a história de Patrícia Masinga, de 36 anos, que soube que tinha sida quando tinha apenas dez anos. Patrícia trabalhava para uma instituição de luta contra a sida, por isso estava no local certo para se informar e sempre seguiu as terapias anti-retrovirais. Mas, quando a discussão em torno da eficácia destas terapias se apoderou de África do Sul, ela abandonou os tratamentos e decidiu experimentar um regime natural, uma dieta à base de alho e sumo de limão. Morreu há um mês.

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