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Inquérito da Semana: 23 a 29 Mai 2012 - Com que idade teve o seu 1º relacionamento sexual com uma pessoa do sexo oposto?
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Resposta a Artigo de Opinião do DN - Para lá do bem e do mal



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[o que é isto?]
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Biografia
Publicada na revista Recursos Humanos Magazine

João César das Neves

Economista
Professor Universidade Católica

É professor extraordinário com agregação da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da UCP. De 1991 a 1995, foi Assessor Económico do Primeiro Ministro Cavaco Silva e de 1990 a 1991, Assessor do Ministro das Finanças. Foi ainda, de 1990 a 1991 e de 1995 a 1997, investigador do Banco de Portugal.

É doutorado e licenciado em Economia pela Universidade Católica Portuguesa, mestre em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, meste em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas pela Universidade Técnica de Lisboa Tem publicada uma dezena de obras na área da Economia (Neves, J.C. e S.Rebelo (2001) O Desenvolvimento Económico em Portugal, Bertrand Editora; (1998) Nobel da Economia - as primeiras três décadas, Principia, Lisboa; (1994) The Portuguese Economy, Universidade Católica Editora, Lisboa; (1992) Introdução à Economia, Editorial Verbo, Lisboa; Cavaco Silva, A. e J.C.Neves (1992) Finanças Públicas e Política Macroeconómica, Universidade Nova de Lisboa, 2ª edição, Lisboa) e uma série de artigos em algumas prestigiadas revistas internacionais (History of Political Economy; The Journal of European Economic History; European Economic Review; International Review of Applied Economics; European Economic Review).

É autor da crónica “Não há almoços grátis” que se publica semanalmente no Diário de Notícias

A Coerência da Esquerda
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 13 de Janeiro de 2003

A extrema-esquerda vive uma fase paradoxal. De facto, a sua acção política, centrada em dois temas, segue uma linha inversa em cada um deles. No clássico campo económico, apesar das novas realidades, mantém a tradicional orientação restritiva, regulamentar e dirigista. Mas no campo dos costumes, onde agora entrou em força, apregoa uma atitude libertária, anárquica e des- controlada. Ouvimos esses activistas, por vezes no mesmo fôlego, exigir restrições a actividades legítimas, como a compra de acções ou contratações, enquanto intimam a liberdade total para actos criminosos, como a compra de droga ou o aborto. Saltitam assim entre o estatismo mais férreo e o individualismo mais extremo. Será incoerência?

Os ataques à lógica da esquerda são antigos, como se vê por exemplo numa das linhas mais influentes. O modelo original de Karl Marx foi acusado de infirmar da chamada «grande contradição», a que só deu solução póstuma no volume III de O Capital. Lenine sofreu críticas por fazer a revolução na Rússia agrícola e tradicional, em violação clara das teses do materialismo histórico. Estaline atingiu o máximo da incoerência no pacto germano-soviético, enquanto vários líderes posteriores tiveram de «meter o socialismo na gaveta». Mas estes casos, justificáveis no pragmatismo, são menos graves que a actual dicotomia dirigista/liberal do pós-guerra fria. Só que essa incongruência é apenas aparente.

Para compreender a situação actual, é preciso ir ao fundo da posição da Esquerda. Aquilo que sempre a caracterizou, dos antigos populistas aos modernos ecologistas, é a luta contra a opressão. O propósito é emancipar escravos, reais ou imaginários. Foi isso que levou os maçons contra a Igreja, os jacobinos contra o Antigo Regime, os republicanos contra a monarquia, os comunistas contra o capitalismo. Em todos os casos é a quebra das cadeias que os motiva.

No século XX, o grande teatro de opressão foi a empresa. O mecanismo económico, considerado tão degradante quanto a escravatura, atraiu todos os seus ataques. A luta trouxe avanços notáveis, dos sindicados às leis da concorrência, mas o veredicto último foi negativo. A empresa capitalista é afinal a grande força impulsionadora do desenvolvimento e a extrema-esquerda viu-se do lado errado da dinâmica histórica. O combate mantém-se, motivado pela infame globalização, mas a esquerda caiu na famigerada crise.

Compreendeu, porém, que se podia reinventar ao replicar a velha lógica noutra instituição, a família.. Esta é a sua novíssima linha política. Assumindo a família como a grande entidade opressora de hoje, usou contra ela as práticas de sempre. Os paralelos entre o velho combate contra a opressão patronal e o novo contra a opressão paternal são evidentes. Em vez da «luta de classes», existe o «conflito de gerações» e a «guerra dos sexos». A «ditadura do proletariado» foi substituída pelo liberdade sexual absoluta. Em lugar das soluções empresariais revolucionárias (kolkhoz e sovkhoz), defendem as uniões de facto e homossexuais. Até os resultados sangrentos se repetem, com o Gulag trocado pelas «salas de chuto», o aborto e a eutanásia.

A esquerda segue uma rígida coerência em novos campos. Esta lógica, levada às últimas consequências, destruirá a nossa vida íntima e social, como destruiu a economia na URSS. Porque a esquerda sempre pôs a coerência acima das pessoas.

João César das Neves

Associações de malfeitores
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 9 de Dezembro de 2002

Numa época em que a televisão é uma toxicodependência tornam-se normais os casos de overdose. Portugal nas últimas semanas viveu um episódio destes, em que obsessão noticiosa leva o País a viver uma alucinação colectiva durante semanas. Isto é feito por simples inversão, com a informação a manipular a vida e a vida a desaparecer na informação. O mais incrível é a facilidade com que se dá o passe de prestidigitação.

A imprensa anunciou ter descoberto uma rede de malfeitores para a exploração sexual das crianças e jovens da Casa Pia de Lisboa. Tendo ignorado o caso durante décadas, apesar de queixas e relatos, os jornais só o notaram quando o crime já acabou e a notícia deixou de existir. Se isto é perspicácia noticiosa, não se vê o que possa ser incompetência. Apesar disso, a imprensa congratulou-se efusivamente a si mesma pela descoberta e acusou todos de a terem omitido.

O tratamento jornalístico começou por ser atabalhoado, para acabar numa infâmia quase equivalente ao crime original. O fenómeno foi cuidadosamente mascarado de «pedofilia». De facto, trata-se de algo muito pior, com repetidas violações homossexuais de crianças em situação de fragilidade e dependência, entregues por isso mesmo ao cuidado do Estado. Trata-se de uma barbaridade gravíssima. Mas como a opinião politicamente correcta já só repudia severamente a pedofilia, assim teve de ser classificado.

Seguiram-se exemplos do pior tipo de reportagem, sôfrega, incompetente, desonesta. Baseada em boatos, rumores, opiniões, foram lançadas suspeitas sobre multidões. Falou-se em décadas, em centenas, em redes. Insinuou-se sem provas, perseguiu-se sem bases. Os réus eram identificados por profissões, por cargos, conspurcando toda a classe. Pior que tudo, a imprensa trapalhona lançou a vergonha sobre todas as crianças da Casa Pia, envolvidas no caso sem distinções, sem rigor, sem dignidade.

Daí foi fácil descer à depravação. Rapidamente as reportagens deixaram de ser informação para se tornarem em ... pedofilia. Os mesmos jovens que tinham sido explorados voltaram a sê-lo, desta vez pelas câmaras e em nome das audiências. Os telejornais foram pornografia, com os apresentadores a anunciar em tom alarve o choque ao público. Não havia qualquer conteúdo a noticiar, era mesmo só devassidão. A imprensa constituiu-se numa segunda rede de malfeitores, agredindo com requintes de violência as mesmas vítimas e os espectadores.

Esta foi a visão do transe da toxicodependência, a parte visível do passe de mágica. Ao mesmo tempo, dava-se o truque de desaparição. Desapareceram um Orçamento de Estado, uma greve geral, até dois atentados terroristas. Mas, mais significativo, foi escondida uma terceira rede de malfeitores.

No meio do fragor, quase ninguém reparou que o Ministério da Educação renovou por mais um ano o protocolo de cooperação com a Associação para o Planeamento da Família (APF), sobre educação sexual nas escolas (ver DN de 26 de Novembro). Os actuais responsáveis ministeriais, fiéis à sua estratégia de declarar políticas meritórias para depois recuar à última hora, entregaram de novo à APF o dinheiro dos nossos impostos e, pior, as nossas escolas (alegadamente cerca de mil).

Dias antes, involuntariamente, o presidente da APF revelava o grau da aleivosia. Declarou-se preocupado (ver Público de 15 de Novembro) por a educação sexual nos Estados Unidos defender «a abstinência e o adiamento das relações sexuais para depois do casamento». «Esperemos que haja o bom senso para que o modelo não se alastre em Portugal», afirmou. Na educação sexual, o professor «não deve emitir uma opinião, mas agir no sentido de debater, porque existem diferentes posições morais», disse.

Assim se vê como a APF ataca directamente a imensa beleza e valor da sexualidade humana, vivida num amor perene. Felizmente que o tal «modelo americano», que a APF repudia, «alastrou» e alastra há milénios em Portugal e no mundo. Os pais e educadores conscientes é isso mesmo que ensinam aos adolescentes.

Contra isso milita a suposta educação sexual imposta pelo ministério.

Ela não passa de um relativismo demissionário e antiquado, recusado nas sociedades mais avançadas. Debaixo da aparente neutralidade, defende-se um facilitismo cobarde, que promove a irresponsabilidade e o deboche com todos os seus males, que diz combater.

Mas a APF tem razão: existem aqui diferentes posições morais. Debaixo da sua influência, dominarão as «posições morais» da pedofilia e da pornografia.

As últimas semanas manifestaram em Portugal a acção de três associações de malfeitores. A primeira foi denunciada, mas não está identificada, nem se sabe se será castigada. A segunda goza de impunidade e beneficiou de audiências acrescidas. A terceira até foi premiada com dinheiros públicos. Num país em que a informação é toxicodependência, não admira que os traficantes prosperem à nossa custa.

João César das Neves

Obscurantismo
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 18 de Novembro de 2002

Quase 30 anos depois do 25 de Abril, é estranho ver em Portugal hoje alguém a clamar por uma liberdade fundamental.

A nossa sociedade está longe de ser perfeita, mas orgulhamo-nos justamente de termos garantidos todos os direitos cívicos.

Todos, menos um: não há liberdade educativa. O encontro do Fórum para a Liberdade de Educação, realizado este fim-de-semana em Lisboa, chamou dramaticamente a atenção para esta grave falha democrática do nosso sistema.

Mas o problema não é apenas de direitos.

A falta desta liberdade, como antes das outras, também se está a traduzir em sérios prejuízos para o desenvolvimento do País.

O desastre da educação é, sem dúvida, a mais preocupante das nossas dificuldades. Os testes internacionais mostram bem que aí Portugal não está na cauda da Europa. Está mesmo no meio de África.

Gerações de estudantes perdem o seu tempo nas escolas para saírem sem os conhecimentos mínimos. A maioria chega aos empregos e universidades com fortes vícios de raciocínio e lacunas graves de conhecimento e metodologia. Não sabem pensar, calcular, escrever; não conseguem trabalhar, analisar situações, resolver problemas. São antes especialistas em matérias abstrusas e minúcias pedagógicas. Os nossos estudantes são vítimas do obscurantismo.

A causa desta situação é simples e evidente: Portugal adoptou um sistema de ensino estalinista. Naturalmente que os resultados são soviéticos.

Vivemos num modelo de programa único, de pedagogia única, de exame único, de ensino único. Só não temos livro único porque é preciso mudar todos os anos para alimentar autores e editoras. Os professores adoram o conforto do funcionalismo. O ministério delicia-se com o poder do gigantismo. Os custos explodem. Os resultados estão à vista. Os mais desastrosos sentem-se nas línguas, sobretudo o Português, e na Matemática. Mas os mais patentes e prejudiciais registam-se no campo da moral.

A escola tem um papel essencial na formação humana dos seus estudantes. Isso é verdade em todos os graus de ensino, mas vital no básico. Neste tema, o modelo estalinista do Ministério da Educação embate contra a evidência: só é possível fazer educação moral dentro de um quadro cultural específico. Não existe uma ética geral e abstracta. Fora dos princípios genéricos (quase) consensuais, toda a aplicação da moral se faz dentro de uma atitude vivencial particular. Há uma ética cristã e uma ética muçulmana, uma ética marxista e uma ética liberal, uma ética positivista e uma ética burguesa.

Como nas viagens, o caminho é determinado pelo destino. Mas o Estado quer ser neutro, laico, imparcial.

Que fazer?

A solução passa por um método simples: a fraude.

O Estado assume explicitamente que a formação ética tem de ser específica e pede a colaboração da sociedade nessa leccionação.

Mas tem usado dois tipos de embuste na resposta a este problema. O primeiro, utilizado por exemplo na célebre disciplina de Educação Sexual, é o de impor um quadro cultural particular sob a aparência de neutralidade. O ministério adjudicou discretamente a leccionação dessas matérias à Associação para o Planeamento da Família. Esta, afirmando ensinar resultados científicos e informações rigorosas, está de facto a canalisar modelos de comportamento e opiniões muito particulares.

O programa previsto finge tratar de temas sanitários e regras higiénicas, mas é a condenação da castidade, da fidelidade, da temperança, da elevação do amor e a promoção declarada da promiscuidade, do adultério, da homossexualidade, do aborto.

A segunda fraude, ainda mais atrevida e infame, foi utilizada na questão da Educação Moral e Religiosa.

Aí, a instituição contactada às claras foi a Igreja Católica. Naturalmente, o ministério não pode impor a obrigatoriedade da versão católica.

Isso é liberdade de educação. Mas depois não consegue arranjar alternativas para os outros alunos do básico (de facto uma pequena minoria). Isto é falta de liberdade de educação.

Perante esta sua fragorosa incompetência, o ministério envereda pelo paroxismo do ridículo: retira a Educação Moral das horas normais de ensino. Com um desplante cândido, os nossos pedagogos assumem que a moral passa a ser optativa, que a ética não pertence ao programa lectivo, que os valores são actividade circum-escolar. Dizem isto sem pestanejar! Anunciam uma tal aleivosia sem corar de vergonha! Promulgam uma coisa destas sem serem castigados!

Estes são apenas dois exemplos entre mil. Por isso é tão importante que se compreenda que a luta por esta liberdade cultural é tão candente e decisiva como os antigos combates pela libertação política. Tal como então, uma clique de iluminados, em nome de um modelo arcaico, está hoje apostada no obscurantismo e no atraso do País.

É fundamental que saiam frutos de iniciativas como o Fórum para a Liberdade de Educação. A nossa democracia e o nosso desenvolvimento dependem disso.

João César das Neves
Professor UCP

> Este artigo mereceu resposta por parte da APF.

«Tornar este mundo mais belo»
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 4 de Novembro de 2002

AHumanidade nos últimos séculos foi dominada pelo sonho mais maravilhoso e estimulante da História: a busca de um mundo novo. A plausibilidade deste mito primordial fez nascer as maiores grandezas e as maiores misérias. Hoje, somos herdeiros do sonho, mas também da desilusão. O nosso desânimo sistémico nasce da sensação de termos experimentado tudo, sem atingir o sucesso prometido. Hoje já ninguém acredita. Mas agora alguém vem dizer que ainda há um caminho para o ideal.

O Ocidente viveu empolgado pelas tentativas de chegar a um mundo livre e justo que, em vários âmbitos e de múltiplas formas, pareceu possível realizar. Quase podemos relacionar cada um dos séculos com um dos seis campos dessa demanda: o espaço, a religião, a ciência, a economia, a política e a família.

O mundo moderno nasceu no século XV, quando as caravelas levaram a Europa a mundos realmente novos. Os Descobrimentos abriram perspectivas exóticas e inesperadas. Após milénios de miséria, opressão e labuta, nascia o sonho de abandonar a terra velha e começar tudo de novo, livre dos arcaicos erros, azares e conflitos. O europeu de Quatrocentos gritou por liberdade e sonhou com uma sociedade nova.

No século seguinte, a demanda da novidade foi aplicada à mais determinante das realidades, a religião. A Reforma de Lutero e Calvino representa a mesma busca das caravelas, mas no campo eclesial. Só que, se no âmbito geográfico essa ânsia se revelou pacífica e proveitosa, na área doutrinal a luta foi sumamente perturbadora e feroz. As «guerras religiosas» ensanguentaram o continente por mais de cem anos. As cicatrizes duram ainda hoje.

No século XVII a busca passou para o campo científico. O tempo de Galileu e Newton abriu novos mundos intelectuais e experimentais, cujo valor ainda não se esgotou. Seguiu-se, no século XVIII, o campo económico. A «revolução industrial» aplicou as ideias da ciência e rasgou oportunidades inesperadas na prosperidade e no conforto. Estes foram os sucessos mais duráveis da busca multissecular.

Então, o século XIX orientou-se para o campo político. E voltou o sangue e a turbulência. As novas ideologias e sistemas derrubaram velhos privilégios e disparidades arcaicas. Mas também geraram revoluções e lutas, que a ciência e a economia ajudaram a tornar destruidoras. Quando a essas se juntaram as conquistas geográficas, as guerras foram mundiais.

Finalmente, o século XX, herdeiro dos avanços na distância, na teologia, na natureza, na riqueza e no poder, tentou revolucionar a mais íntima das dimensões, a família. Generalizaram-se realidades como a promiscuidade, o adultério, o divórcio, a homossexualidade, o aborto, a pedofilia. Os ganhos face à família opressiva foram muitos, mas o sofrimento é enorme. E mais profundo e surdo que nunca, por se situar na própria identidade pessoal.

É difícil descrever o entusiasmo apaixonado com que em cada época, navegantes, reformadores, estudiosos, empresários, revolucionários, hippies e tantos outros, se empenharam em cada uma destas buscas. O ser humano acreditou sempre a fundo e jogou tudo no mundo novo que se abria. O novo milénio nasce repousando na apoteose desses ganhos: a aldeia planetária e o diálogo de religiões, a hegemonia científica e a globalização económica, o ideal democrático e a liberdade sexual. Mas o ser humano não está mais feliz. Sente-se mais perdido que nunca.

Afinal, o tal mundo novo nunca chegou. E o abandono das antigas referências criou um vazio e uma confusão avassaladoras, sobretudo na fé, na ideologia e na intimidade. Sente-se uma ânsia de valores, de orientação, a que ninguém dá resposta. Temos mais do que nunca e sentimo-nos os menores de sempre. Já tentámos tudo. Só falta mesmo o ideal prometido.

Há dias, um dos poucos homens que ainda fala com autoridade ao mundo, apontou um caminho para a vida perfeita. A sua solução situa a busca num plano diferente das anteriores: dentro do ser humano, não fora. O papa João Paulo II, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae sugere uma via surpreendente para o mundo novo: rezar o terço todos os dias.

Trata-se de uma oração singela e vetusta, quase ingénua. Mas a sua finalidade é a mesma das grandiosas demandas dos últimos séculos: «Como se poderia fixar os olhos na glória de Cristo ressuscitado e em Maria coroada rainha, sem desejar tornar este mundo mais belo, mais justo, mais conforme ao desígnio de Deus? (...) Longe de constituir uma fuga dos problemas do mundo, o rosário leva-nos assim a vê-los com olhar responsável e generoso, e alcança-nos a força de voltar para eles com a certeza da ajuda de Deus e o firme propósito de testemunhar em todas as circunstâncias «a caridade, que é o vínculo da perfeição» (Col 3, 14).» (op. cit. 40). Ao mundo desorientado, o papa aponta este «caminho de contemplação» (op. cit. 5), que leva, de facto, ao mundo novo: rezar o terço todos os dias. Após tantos esforços, por que não tentar?

João César das Neves

"Só tu!"
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 13 de Maio de 2002

Muito se tem falado dos escândalos sexuais de padres americanos. Como de costume nestes casos, levantam-se problemas candentes, mas de forma distorcida e parcial. E, acima de tudo, o mais importante fica sempre por dizer.

A gravidade da situação é indiscutível. Trata-se de crimes abomináveis, praticados por aqueles que maior responsabilidade e exigência tinham. Esses actos devem ser repudiados e condenados sem contemplações. Mas há muito mais envolvido.

Aliás, o drama horrível das vítimas rapidamente deixou de ser o assunto. A ponto de quase ninguém se lembrar da pergunta óbvia: se isto é assim com sacerdotes, que aspiram à santidade e temem o Inferno, como será com os demais? Todos preferiram a segurança ingénua de dizer que os padres é que são perversos e maus, deixando de olhar para outros grupos. Os dados disponíveis indicam que o problema é muito mais sério fora do clero.

Mesmo assim, a atenção foi muito positiva. Ver todo o mundo a repudiar a pedofilia é um sinal admirável. Esse é o mesmo mundo que ainda há pouco abominava o adultério, a pornografia, a homossexualidade e o aborto e hoje já os considera como aceitáveis e até recomendáveis. Por enquanto, ainda despreza ruidosamente a pedofilia. Isso é bom.

Para lá do problema concreto, tornou-se evidente o empolamento e o aproveitamento da situação, com evidentes objectivos ideológicos. A finalidade foi, simplesmente, retomar o tradicional e violento ataque à Igreja e ao que ela representa. Condenou-se uma fé e uma multidão, pelos actos de um punhado de criminosos. Aplicaram-se critérios de exigência e severidade que não são invocados com mais ninguém. Qualquer outra instituição, do exército à escola, dos partidos ao jornalismo, se fosse escrutinada da mesma forma severa e impiedosa como a Igreja tem sido, revelar-se-ia muito pior. Mais uma vez, a maioria dos comentadores mostrou a habitual clamorosa ignorância sobre os princípios e o funcionamento da Igreja. Os disparates inconscientes são tantos que chegam a ser comoventes. Como era de prever, a questão em breve se resumiu ao esforço usual de fazer com que a Igreja Católica funcione como uma das confissões protestantes. Como se o alívio da disciplina fosse a solução para crimes horrendos e evidentemente doentios. O raciocínio é tão tonto que se torna patético.

Mas tudo isto é compreensível. Os comentadores e repórteres, como os antigos perseguidores, não se sujeitam aos mandamentos da justiça e da caridade dos cristãos. Não compreendem a regra do argueiro e da trave, não precisam de estar sem pecado para atirar a primeira pedra, nem entendem as exigências do perdão. Até o mal disfarçado deleite com que tratam esta situação é normal. Quando as pombas caem na lama, os porcos sentem-se mais limpos.

No entanto, todos estes aspectos, apesar de importantes, passam ao lado do essencial. O que esta lamentável situação recomenda, de maneira evidente, é a mais cristã das virtudes, a humildade. O que este caso horrível manifesta, de forma enviesada, é a certeza fundamental da fé cristã, como de outras: "Ninguém é bom senão Deus" (Mc 10, 18). Logo a seguir ao esplendoroso Jubileu, este caso, tal como ele, aponta para o essencial. Ver a evidência do nosso pecado, mesmo nos mais eminentes, afirma radicalmente a nossa profunda humildade e leva-nos a glorificar o Senhor do universo.

Ao afirmarmos que só Deus é santo, não esquecemos o extraordinário tesouro de santidade que a Igreja constitui no mundo, em todos os séculos e em todos os lugares. Com Nossa Senhora e todos os bem-aventurados, famosos ou anónimos, a Igreja é uma presença sem par na História. Os cristãos orgulham-se justamente desses feitos, mas também sempre souberam que essa santidade não vem deles, mas de Jesus Cristo. Eles bem se lembram como eram antes de O encontrarem e como caem quando O abandonam. Este é o próprio mistério da Igreja, santa e pecadora. Ela é a portadora da realidade mais maravilhosa do universo, da notícia mais extraordinária, a "Boa Nova da Salvação". Mas isso é feito através de uma vida humana, frágil, modesta e comum. "Trazemos este tesouro em vasos de barro" (2 Co 4, 7). Este paradoxo tremendo define o Cristianismo e revela-se quer no esplendor da celebração comunitária, quer na miséria do crime pessoal.

Os apóstolos mudaram o Império Romano, como os monges transformaram a Europa e os missionários converteram o mundo, mas não passavam de pescadores ignorantes, pessoas rudes, pobres insignificantes, que nada indicava para essa missão. Prostitutas, ladrões, traidores, cobardes, ligados à videira que é Cristo fazem coisas assombrosas que espantam e movem a humanidade. Separados dela, caem numa miséria tão grande como os demais. Ou ainda maior, como agora se viu.

Na nossa grandeza como na nossa miséria, uma só certeza nos levanta. Por isso, repetimos continuamente, com profunda humildade: "Só tu, Senhor, és santo" (Ap 15, 4).

João César das Neves

Mãe Coragem
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 5 de Maio de 2002

Ontem, foi Dia da Mãe. Todos, da criança oferecendo um trabalho escolar até à avozinha viúva, se lembraram daquela que primeiro soube de nós, que nos amou sem nos conhecer, a primeira pessoa que vimos e nos mostrou o mundo num sorriso.

Este é o dia em que se afirma a dívida que nunca poderemos pagar.

Mas, por incrível que pareça, esta velha tradição está a mudar.

É difícil compreender, mas vivemos no tempo em que o Dia da Mãe não é data celebrativa, como o Natal. Passou a ser uma jornada de combate, como o 1.º de Maio. De facto, a nossa sociedade é a primeira que pôs em causa a sua figura mais central e fundante. Mantém-se algum do folclore exterior e permanece o sentimento profundo, mas a prática quotidiana e as instituições viraram-se contra aquela que todas as culturas sempre respeitaram.

As filosofias individualista e colectivista, bases da suposta cultura moderna, não gostam das mães. De facto, a maternidade manifesta, pela sua simples existência, a incongruência lógica de posições que vêem o fundamento da vida humana no esplendor do herói isolado ou da estrutura social. O super-homem de Nietzsche e o partido de Lenine não têm mãe, como Charlot, Mickey Mouse, 007, os Beatles, ou Che Guevara. Também Marilyn Monroe, Miss Marple, Barbie e Janis Joplin não pensam ser mães. Às vezes, a moda muda e as famosas posam grávidas nas revistas, a pensar na carreira, não na criança.

Igualmente a ciência moderna se dá mal com as mães. Para Darwin, são meros veículos da selecção natural, enquanto Freud as considera fontes de recalcamentos e paranóias. Mais que a vida, as mães deram-nos os complexos de Édipo e Electra. Pior: a era científica desprezou o sentimento subjectivo, impondo o cálculo concreto e material como único critério razoável. Assim, a mulher é analisada numa unidade político-social, presa em teias de relações de poder. Sob este ponto de vista, empalidece o vínculo maternal, tomado como mera conexão socioeconómica.

Daqui nasce o feminismo, o mais terrível ataque histórico à identidade feminina. Bem-intencionado, pretende melhorar a injusta situação política, financeira e profissional da mulher. Mas fá-lo reduzindo-a a um homem oprimido. Se os únicos critérios valorativos são os da vida civil e produtiva, perdem-se de vista todos os elementos da profunda influência da mulher em todas as culturas, masculinizando-a fatalmente. Não admira que, sem compreender a realidade, se defenda a tese insólita e incrível da eterna opressão da mulher. Como resultado, a identidade maternal é radicalmente desprezada logo pelas filosofias que alegam defender o feminino.

O ataque moderno à pessoa da mãe atingiu hoje já a forma de combate aberto. Multiplicam-se os atentados à maternidade, por defeito ou por excesso. A vasta campanha a favor do aborto livre chegou ao paroxismo delirante. As mulheres que decidam rejeitar o filho concebido são heroínas públicas, enquanto as que o vêem nascer são meras contribuintes. Em toda a questão desapareceu a outra figura essencial do processo, o pai.

Além disso, os exageros no direito à maternidade criam as suas perversões. Os tratamentos de fertilidade multiplicam-se, com o rosário de partos anormais, mortes e deficiências graves ou o horror silencioso dos embriões congelados. Aumentam as paródias à maternidade, com as barrigas de aluguer, as adopções por homossexuais e a suprema infâmia da clonagem.

Os ataques geraram a defesa com o surgimento de meritórias instituições de apoio à maternidade. Como símbolo de uma miríade, lembre-se hoje aquela cujo título é mais adequado ao dia, a "Ajuda de Mãe" (com a linha

S. O. S.-Grávida - 213 952 143). Estas excelentes instituições são novas. Sempre houve esforços de ajuda materno-infantil, mas dirigiam-se à pobreza, não à maternidade. Pela primeira vez na história, a cultura reduziu a mãe à categoria da tuberculose, droga ou migração.

Os insólitos ataques à família têm mesmo consequências ridículas. Note-se, por exemplo, que o sentido etimológico de "proletário" vem da paternidade e maternidade ligada à prole numerosa. Mas, hoje, entre nós, quem defende os proletários é a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (apfn@netcabo.pt). E temos a situação curiosa de os partidos de esquerda se oporem aos proletários.

A base doutrinal de tudo isto é a incongruente tese dos "vários tipos de família", que, como todas as armadilhas ideológicas, nasce da recusa da evidência. Um grupo de amigos e uma ligação passageira nunca foram família, em lugar nenhum do mundo. Também há vários tipos de alimentação, mas ninguém come pedras.

Porque se dirigem à realidade mais determinante da nossa humanidade, estes ataques têm um dramatismo horrendo e arriscam-se a destruir o muito de bom que a nossa civilização conseguiu.

Devemos ter esperança, porém, que os beijos e presentes que ontem foram trocados sejam suficientes para nos salvar a nós e às mães do futuro.

João César das Neves

Por acaso, até nem funciona...
Artigo de opinião publicado no Diário de Notícias de 11 de Março de 2002

As eleições do próximo domingo são dominadas pela difícil conjuntura, além das habituais escaramuças menores. Mas isso deixa na sombra uma outra opção, muito mais importante e radical. Vale a pena ponderar bem ambas, na escolha influente que vamos fazer. Não restam dúvidas de que o País está mesmo numa crise que, não sendo catastrófica, é difícil e delicada. O Governo queria o bem, mas, por acaso, até nem funcionou. Em termos financeiros, estamos muito endividados e sem controlo nas contas públicas. Em termos sociais, fomos paralisados por grupos de pressão violentos e arrogantes. Em termos económicos, atrasamo-nos, num momento de intensa evolução europeia e mundial. Em termos estratégicos, andamos a olhar para o umbigo, quando o mundo está alvoroçado. Em termos diplomáticos, fomos censurados, dentro da nossa aliança capital, a UE. A situação não é ainda desesperada, mas quase.

Tais fragilidades recomendam um governo estável, forte e sensato. O Executivo vai precisar de todo o apoio, se quiser enfrentar os interesses instalados à mesa do Orçamento, libertar a economia do excesso de regulamentação, recuperar a imagem nacional interna e externa, traçar novos rumos, numa delicada conjuntura mundial. O pior seria o poder continuar dominado por intrigas de bastidores e chantagens de baronetes.

Para obter estabilidade, o sistema, por acaso, até nem funciona. O mecanismo eleitoral está montado para dificultar as maiorias absolutas. O legislador preferiu a pulverização do Parlamento e o equilibrismo governamental. É verdade que a presente crise levou os dois maiores partidos a disporem-se a coligações com os extremos anexos, tornando, assim, matematicamente inevitável um governo de maioria à direita, ou à esquerda. Mas até isso, de facto, não parece funcionar. O nosso aparelho partidário é avesso a coligações e nunca a nossa democracia viu um governo multicolor cumprir uma legislatura. Intrigas de bastidores e chantagens de baronetes sempre foram mais fortes que os acordos de governo. Só uma votação forte num partido parece permitir um executivo de estabilidade, para lidar com a crise.

Estas crises temporárias não devem, porém, fazer esquecer uma outra, muito mais importante. De facto, o último ciclo governativo trouxe uma novidade perturbadora ao nosso quadro institucional. Tornou-se habitual introduzir na vida política quotidiana a discussão de questões constitucionais de fundo. Passou a ser normal que o debate corrente se ocupe de aspectos essenciais, estruturantes e vitais.

A causa evidente desta mudança é a crise conceptual das esquerdas. Os partidos de esquerda, que, aliás, criaram a actual crise conjuntural, estão também a passar por um longo processo de redefinição de identidade e reorientação ideológica, após a derrota do seu modelo económico, nos anos 80. Perdido o sistema socialista, era preciso encontrar um novo caminho. Continuam a achar que são os únicos que se preocupam com os pobres, assim insultando todos os outros, mas o que de facto distingue a esquerda das outras forças não é essa pretensão presunçosa, mas a defesa de um sistema particular que, por acaso, até nem beneficia os pobres.

É preciso encontrar novas causas para a tão necessária militância ruidosa. A solução ecológica serviu durante um tempo, mas diluiu-se, quando toda a sociedade aderiu. Alguns pensam que a chave está na luta contra a família, a cultura e a identidade nacional. Alegando a defesa da liberdade sexual, a democracia descentralizada e a emancipação dos costumes, as forças de esquerda empenham-se em novas questões. Esquecendo-se os operários, passou-se a fingir tomar como "explorados pelo sistema" as mulheres, autarquias, uniões de facto, homossexuais, drogados, jovens, artistas, etc. Manipulam estas causas específicas, para defender um sistema que, por acaso, até nem as favorece.

Direitos fundamentais, como no aborto, elementos de integridade nacional, como na regionalização, opções sociais básicas, como na liberalização da droga, os temas mais vitais caíram na rua e foram postos em causa de qualquer maneira e por toda a gente. A nossa vida política passou a assumir que não há nada sagrado. Como os dirigentes sérios dessa área se mostraram incapazes de resistir à demagogia da esquerda irresponsável, foi de repente possível, numa votação simples ou num despacho corriqueiro, alterar princípios muito mais influentes que os da Constituição.

A votação de domingo tem de ter em conta as duas crises, sob pena de o País se perder, sem ninguém dar por isso. Tudo na situação política nos sugere que as coisas, por acaso, até nem vão funcionar. Mas também há dados positivos. Primeiro, o País solucionou as anteriores crises financeiras com governos minoritários ou de coligação. Depois, boa parte dos loucos ataques aos valores fundamentais acabou derrotada pelo povo. A única coisa que funciona é o bom senso dos portugueses.

João César das Neves

Também se recomenda a leitura de: artigo de opinião de 15 de Abril de 2002 (onde JCN demonstra o seu grande egocentrismo) e artigo de opinião de 14 de Outubro de 2002 (que poderia aplicar-se facilmente à falta de visibilidade do movimento GLBT)

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