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Mensagem, ILGA Portugal Maio 2001


Sábado, 19 de Maio de 2001
4ª Marcha em Memória e Solidariedade para com as Pessoas Afectadas pelo VIH/SIDA

Uma voz, muitos rostos...unidos para a vida

Pela quarta vez no nosso país, na cidade de Lisboa, é levada a cabo a Marcha em Memória e Solidariedade para com as pessoas afectadas pelo VIH/SIDA.

Esta Marcha, integrada na décima oitava International AIDS Candlelight Memorial, foi trazida para o nosso país pela Associação ILGA Portugal, há quatro anos, não só por entendermos que deveriamos unir este país a uma movimentação mais alargada de luta contra a SIDA, através de um evento simbólico de rua, cuja palavras de ordem são a solidariedade e a memória, mas sobretudo por entendermos que em Portugal uma série de questões continuam a persistir (e outras insistem em surgir), que requerem um alerta bem sonoro e visível e um tratamento urgente adequado.

Sendo assumidamente uma Associação que tem como público alvo do seu trabalho as populações gay, lésbica, bissexual e transgender, a Associação ILGA Portugal desde sempre entendeu que o seu trabalho não podia ficar por aqui e que a criação de situações de solidariedade e de alerta, nomeadamente na área do VIH/SIDA, na área da luta contra a discriminação - seja ela qual fôr - ou na área dos direitos humanos em geral, era algo que poderia e deveria caber nos seus planos e nas suas actividades.

Uma voz, muitos rostos...unidos pela vida

Chegámos recentemente ao século XXI e ao 2º milénio, outrora horizontes de tantas esperanças e de inúmeras imagens de um desenvolvimento integrado para todo o globo. Nessas imagens de um futuro promissor, a humanidade via erradicadas nomeadamente todas as doenças, todas as guerras, todos os atentados à saúde do meio ambiente e todas as formas de exclusão dos seres humanos, numa perspectiva coerente de um progresso aliado a um desenvolvimento humano e justo.

Temos infelizmente que verificar que esse futuro promissor foi ultrapassado, não está a ser cumprido e que essas imagens estão longe da realidade que hoje temos.

No que diz respeito ao VIH/SIDA temos que nos confrontar com o facto de já termos vivido pelo menos duas décadas de uma pandemia que nos levou centenas de milhares de pais, de mães, de filhos, de irmãos, de amigos e de entes queridos, pandemia esta que parece teimar em lutar contra tudo e contra todos, apesar dos esforços que alguns insistem em levar a cabo na luta contra este flagelo.

Esta é a 4ª Marcha que realizamos em Portugal, e, infelizmente, nem tudo o que devia ter mudado mudou neste últimos quatro anos.

Infelizmente, neste discurso, trazemos a repetição de ideias que já trouxemos anteriormente a esta Marcha e que continuam actuais:

    1) Portugal continua na sua cruzada em direcção ao 1º lugar na Europa no que diz respeito à taxa de infecção e parece continuar a querer estar nesses lugares dianteiros, com o consentimento de sucessivos governos tímidos, que resistem em considerar a luta contra a SIDA como uma prioridade nacional

    2) A prevenção da infecção junto dos jovens nas escolas e na sociedade em geral, tal como a educação sexual, absolutamente necessária para uma mudança radical de mentalidades e práticas pouco saudáveis que continuam a vigorar apesar de toda a informação sobre o VIH /SIDA, continua a não ser uma prioridade para governos e classes políticas, salvas as raras excepções pontuais, muitas vezes contra tudo e contra todos.

    3) O apoio a projectos de luta contra o VIH/SIDA, que procuram trabalhar ao lado do Estado e para lá daquilo que o Estado pode alcançar, continua a não ser suficiente e muitas das vezes a desprezar as mais valias já conseguidas por Associações e Grupos que já têm anos de trabalho realizado com sucesso.

    4) Os centros de rastreio anónimo e gratuito para o País inteiro continuam a poder ser contados pelos dedos: apesar do esforço para prestarem um acompanhamento condigno e integrado aos cidadãos, estes serviços continuam a estar centralizados nos grandes centros urbanos e a terem um nº manifestamente insuficiente.

    5) As políticas implementadas pelo Instituto Português do Sangue quanto à selecção dos dadores, embora oficial e publicamente declaradas como não discriminatórias, continuam na prática a sê-lo e a prejudicar a qualidade do sangue recolhido

    6) Continua-se a teimar na noção de grupos de risco em detrimento da noção de comportamentos de risco: assiste-se por conta desta ideia, por exemplo, a um aumento vertiginoso da infecção em mulheres heterossexuais, condenando à nascença muitas das vezes ideias como a da prevenção dentro do próprio casamento ou das supostas "relações estáveis".

    7) As seguradoras, os bancos e as entidades patronais continuam, sem pudor e com o consentimento das autoridades e da lei vigente, a discriminar os seropositivos, considerando-os como inaptos sem futuro, apesar das novas terapias e das possibilidades que as mesmas já atribuiram a esses cidadãos e cidadãs, de forma a terem uma vida com futuro, produtiva e equiparável à dos cidadãos seronegativos.

    8) Os utilizadores de droga, apesar das declarações em contrário, e apesar das recentes e supostamente inovadoras salas de chuto, continuam sem acesso atempado a programas e a meios terapêuticos adequados, muitas vezes graças aos preconceitos activos de uma fatia substancial da nossa classe médica que trata de forma diferente e discriminatória os seus pacientes.

    9) Nos últimos anos temos assistido a uma redução da taxa de mortalidade graças aos novos fármacos que trazem alguma esperança e qualidade de vida aos seropositivos. No entanto, por todo o mundo, e Portugal não será excepção, o lobby das farmacêuticas, e outros por vezes ainda mais obscuros, impedem um desenvolvimento mais rápido de tratamentos mais eficazes e de uma possível cura ou vacina, e dificultam o acesso do tratamento a todos os cidadãos e cidadãs infectadas pelos quatro cantos do mundo.

    11) As Organizações Não-Governamentais que muitas vezes procuram complementar o trabalho que é em primeiro lugar da responsabilidade do Estado, e têm muitas vezes um contacto mais próximo com a realidade e com as pessoas afectadas pelo VIH/SIDA, não têm sido devidamente consultadas nem auscultadas na elaboração e implementação das políticas nacionais respeitantes à evolução da pandemia no nosso País.

    12) As várias comunidades e grupos específicos (como são, por exemplo, os jovens, a mulheres heterossexuais e as mulheres lésbicas, as comunidades estrangeiras residentes em Portugal, os utilizadores de droga, a população homossexual masculina, a população heterossexual masculina, os trabalhadores do sexo, etc.) continuam a não ter uma mensagem que lhes é dirigida frontalmente, e continuam a ter que ler nas entrelinhas de um discurso que supostamente é dirigido a todos, mas que pressupõe uma população estereotipada e com costumes culturais idênticos, tudo isto em nome de uma suposta "mentalidade portuguesa" e da "moral e dos bons costumes"

É, sem dúvida, tempo de mudança!

Uma Voz, muitos rostos... unidos pela vida

Uma voz porque, apesar da diversidade das vozes com que nos expressamos (as vozes dos que já morreram, as vozes dos que estão vivos, as vozes dos que estão doentes, as vozes dos que foram injustamente ignorados, as vozes dos que não querem ser infectados, as vozes dos que não quiseram mas foram afectados, as vozes da famílias, as vozes dos prestadores de serviços na área da saúde, as vozes dos amigos, etc, etc, etc) é com um só grito de basta que estamos aqui unidos contra o VIH/SIDA.

Muitos rostos porque não existe uma face única do VIH/SIDA: esta pandemia está espalhada pelo mundo inteiro e os vírus que a propagam não escolhem idades, classes sociais, estados civis, nacionalidades, orientações sexuais, etnias, comunidades ou outras especificações que espelham a diversidade da raça humana: só a estupidez, a falta de informação e a má vondade podem ignorar esta realidade.

Unidos para a vida porque só a força de um só grito em coro, que afirma a existência de 36 milhões de pessoas infectadas pelo VIH/SIDA e o desaparecimento de 16 milhões de pessoas até a esta data por todo o mundo, assim como o desaparecimento de 4.424 pessoas em Portugal até Janeiro de 2001, pode abrir um caminho de esperança, onde a vida de cada indivíduo é encarada como algo sem preço e insubstituível.

"Uma voz, muitos rostos...unidos pela vida" porque afinal esta 4ª Marcha em Memória e Solidariedade Para Com As Pessoas Afectadas Pelo HIV/SIDA é sobretudo uma marcha de esperança!!!

A Direcção da Associação ILGA Portugal

19 Maio 2001

 
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