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Set 2003

Eu Acuso, Logo, Acuso-me...

Face ao nojo e ao espanto que (sem ainda acreditar que estou acordado e não a viver num pesadelo infame e sem propósito) a notícia que transcrevo abaixo me causou, eu acuso claramente a opusgay, suposta associação glbt (suposta associação porque não lhe conhecemos os membros, para além do seu - eleito ou auto imposto??? - presidente e da sua vice presidente ), de actuar de forma senil e criminosa para com a população glbt deste país, destruindo (com gestos simples, mas eficazes) tudo o que se tem conquistado ao longo destes anos.

Há uns anos atrás um amigo meu dizia acreditar (e sem o meu crédito, o que lamento agora profundamente) que a opus gay tinha sido criada pelos movimentos reaccionários e ultra-conservadores para um único propósito: descredibilizar por "dentro" o movimento glbt com as armas que os terroristas políticos melhor utilizam, a saber, a difamação, a mentira, o bloqueio, a política baixa, a passagem para a opinião pública de uma imagem degradante e falsa de uma comunidade/instituição/personalidade.

Lembrava o meu amigo, querendo convencer-me, que nada disso era novo e que inclusivamente o Sr Le Pen teria feito algo similar, financiando anonimamente uma revista "gay" onde, em todos os números, se associava insistentemente a homossexualidade à pedofilia e se promovia esta prática, com propósitos que, face aos efeitos negativos que pudemos constatar ultimamente em Portugal, não necessitam de explicação (esta afirmação foi feita, note-se, há muitos anos atrás, longe das notícias que assolaram o país nos últimos tempos e que agora poderão passar por retórica fácil da minha parte, mas que corresponde a uma comparação que existiu num contexto que não é o actual mas que, ainda assim, é muito elucidativa do que pode acontecer).

Lamento meu querido amigo não te ter dado ouvidos mesmo depois de ter sido durante anos massacrado por uma contra-corrente a que só lhe interessava o "contra" e que de corrente só tinha a que nos enforca a todos lentamente (e que nesta notícia que agora vem a lume tão evidentemente se manifesta). É obvio que muita razão não te devia faltar e que - dado o agora exposto - só um estúpido, um cego ou um hipócrita não vê o que agora salta à vista.

Já não bastava ao Sr António Serzedelo ter envenenado o interior do movimento glbt com difamações sobre a Ilga-Portugal, o GTH, o Gonçalo Diniz, a Abraço, o Fórum glbt, os arraiais, os trabalhos da conferência da Ilga-Europa, etc., etc., etc, etc., etc., etc., etc.

Ainda lhe faltava bloquear aquilo que outros países supostamente mais avançados procuram e que no nosso país, pelos vistos, estava "à mão de semear", a saber, que o movimento glbt português (e, consequentemente, o movimento glbt em geral e a população que procura servir) tivesse uma cara e um nome e que não fosse remetida para a caixa das "diversidades" (ah, Celso Júnior como, se já te compreendia, agora me apetece dar-te um Óscar!!!) , para o campo do "é importante, mas há coisas com carácter mais prioritário, fica para a próxima" ou mesmo para o campo da inutilidade.

A vergonha (para muitos já suficiente por ser motivo de anedota em várias frentes) de termos uma associação tonta e senil a falar em nome de uma comunidade glbt que nela nunca se reconheceu e que só pode servir aos que procuram lançar para o descrédito essa mesma comunidade, esta vergonha, dizia eu, não chegava à opus gay e aos seus líderes. Não, senhor! Ainda era necessário mostrar aos parceiros que nos têm tratado como iguais que, afinal, somos tão inferiores e de importância secundária que temos que esperar para a próxima para sermos visíveis num âmbito onde, pelos vistos, a visibilidade ainda - e também - é difícil (o mundo do "politicamente correcto" também continua a ter "prioridades" e os glbt nem sempre são uma ou são apenas usados para conquistar simpatias, como sabemos).

Poderemos apenas pensar que a opusgay pensou "como não somos nós (leia-se, eu, antónio serzedelo) não é ninguém" e lá vetou a presença de uma pessoa, capaz e acima de toda a suspeita, dentro do movimento glbt (minha querida Fabiola, o que te estava reservado...).

Francamente, e lamentando tão profundamente como não posso expressar nestas linhas, não posso ser tão simplista e acho mesmo que a fase em que estamos é já outra. É a fase da clareza, sustentada por um mundo onde a xenofobia, a homofobia e as fobias idiotas cada vez mais têm tempo de antena, e onde a associação opusgay opta por uma posição de igoísmo senil (insisto no senil e leiam estas linhas em "alto e bom som") e de proximidade evidente a um movimento que é de bloqueio e não de liberdade.

Como tal, eu acuso a opusgay (que aqui escrevo sempre com minusculas por nada de maiusculo haver no se seio) de não ser merecedora da denominação "associação glbt" pois é contra a comunidade glbt e o movimento que os procura representar, levando essa associação e os seus líderes a cabo as suas campanhas nojentas e mesquinhas (deixo de perceber doravante a presença desta associação nos links dos vários sites glbt, a menos que criem uma secção de links de sites a evitar ou a ter em conta como se têm em conta os buracos da rua enquanto passeamos...).

Mas a minha acusação não fica por aqui.

Infelizmente também tenho que acusar todos aqueles que, por "brandos costumes" ou por hipocrisia (como vi gente a mudar de atitude perante a opusgay durante a conferência da Ilga-Europa...) deixam "andar" estas situações e nada fazem que demonstre, não só à opusgay, mas sobretudo à população em geral e ao restante movimento que a semelhança entre o que a opusgay faz e o que o movimento glbt e a população glbt querem é pura coincidência. Acuso todos aqueles que, mesmo avisados, continuaram a adiar, a deixar "andar" e a esperar (inutilmente) que algo mude por milagre e que o opusgay abandone a sua missão determinada de "chatear" e matar (o terrorismos mata!) tudo aquilo que de positivo se fez e se alterou nas condições de vida neste país nestes últimos anos. Acuso todos aqueles que deram dois passos em frente depois de um esforço por vezes desumano e que deixam a opusgay dar cinco passos atrás e que só ficam "chateados" (silenciosamente muitas das vezes, como se pode ver pelo facto do actual "fórumgate" não estar senão no site do portugalgay).

Enfim - e quem achar que é retórica que se lixe!!! - acuso-me a mim próprio (mas não estando sozinho e estando acompanhado pela maior parte dos itervenientes no movimento glbt português) por não ter tomado a posição que muitos queriam que se tomasse no passado, deixando que o rasca, o reaccionário, o covarde e o terrorista se instalassem e ganhassem raízes neste movimento que tanto prezo e que continuo a ver empobrecer com atitudes inqualificáveis destas.

Enfim, eu acuso e acusando, acuso-me e é a vergonha e a revolta que me impele a escrever estas linhas, acompanhada de uma vontade de que tudo mude e da dúvida de se algo ainda irá verdadeiramente mudar.

Bem haja a todos e todas que possam entender o que agora escrevo e porquê. Aos restantes, nada mais tenho a dizer.

José Manuel Fernandes

(ex-presidente da Associação Ilga-Portugal mas escrevendo em nome próprio, exclusivamente próprio!)

José Manuel Fernandes

Comentário no site da ILGA Portugal (http://ilga-portugal.oninet.pt/):

José Manuel Fernandes acusa Opus Gay

O torpedear constante da Opus Gay, entre falsos testemunhos e oposição velada e permanente aos novos passos, tem desacreditado o movimento LGBT. Tal como tod@s @s que levam o movimento LGBT a sério, a actual Direcção da Associação ILGA Portugal muito tem penado com esta situação, pelo que acedeu de bom grado a publicar o desabafo do ex-Presidente da Direcção. Considera a Associação ILGA Portugal que aquilo que José Manuel Fernandes sentiu ao escrever o texto que se segue reflecte a frustação de quem vê constantemente ruir o trabalho a muito custo erguido.

23 Setembro 2003


Ver notícia PortugalGay.PT referida no texto

Comunicado de imprensa em que PortugalGay.PT refere os bloqueios da Opus Gay no processo do FSP

 
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