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Sábado, 2 Janeiro 2010 01:25

PORTUGAL
Actor num teatro oprimido pela precariedade



José Borges de Araújo de Moura Soeiro. Há pouco mais de dois anos, eram estas as palavras que todos os meses escrevia num recibo verde. Trabalhava em oficinas de teatro, mas não demorou a mudar para o principal palco da política portuguesa. Aos 23 anos, José Moura Soeiro substituiu Alda Macedo na bancada do Bloco de Esquerda, tornando-se o mais novo deputado na Assembleia da República (AR). Desde então, um dos seus grandes objectivos é lutar contra aquilo a que a sua geração (que intitula de "500 euros" ou low cost) está condenada: "A precariedade."


A barba não esconde os traços de um rosto jovem, tal como a roupa que veste, que lhe dá a idade que tem: 25 anos. No Parlamento já não o olham com tanto espanto como o faziam no final de 2007, quando os funcionários duvidavam da sua condição de deputado devido ao seu aspecto jovial.

Hoje assume tranquilamente: "Não correspondo ao perfil-tipo de um deputado." Na altura foi mais assertivo e chegou mesmo a dizer ao Expresso que o Parlamento estava "dominado por cinquentões enfatiotados que não representam a sociedade" ao mesmo tempo que prometeu não abandonar os jeans nem as sweatshirts.

"Ambição política" é uma conjugação de palavras de que José Soeiro não gosta e, ao jeito do Bloco de Esquerda, prefere utilizar sempre a primeira pessoa do plural ("nós") em detrimento de uma pessoalização do discurso.

Apesar de não ser um dinossauro na AR, os anos de vida política do bloquista são muito anteriores à sua era parlamentar. "As primeiras memórias que tenho de participar na política são da escola secundária. Quando tinha 15 anos eu e os meus colegas lutávamos pela educação sexual e por uma melhoria das condições materiais das escolas", explica o deputado.

O gosto pela política nasceu numa altura em que o Bloco de Esquerda se fundou, acompanhando o partido, praticamente, desde a sua fundação. "Os direitos do trabalho, a ecologia e a luta contra a Guerra do Iraque" foram bandeiras que marcaram os seus primeiros anos de intervenção.

Viajou pelo mundo para pregar contra a "má globalização" e as desigualdades sociais. Umas vezes chegou ao destino, outras nem por isso. Disso é exemplo uma tentativa de participar numa contracimeira em Sevilha, "em que apesar de não termos fronteiras no espaço Schengen, fomos travados pela polícia espanhola que não nos deixou passar ", conta.

Também viveu momentos difíceis quando em 2005 foi a uma contracimeira do G8 em Edimburgo, na Escócia, porque "durante um protesto frente a um centro de detenção de imigrantes, a repressão policial foi muito forte". Situação que, aliás, também viveu em Londres ou em Atenas, onde a polícia grega "foi igual a si própria". Ou seja, "altamente repressiva".

Antes de embarcar nestas viagens internacionais, já José Soei- ro tinha definido as suas referências políticas e o caminho a seguir. Sociólogo de profissão, Soeiro não tem problemas em indicar Karl Marx e Pierre Bourdieu como "essenciais para o pensamento crítico". No início, entusiasmou-se pela "ideia de construir uma esquerda nova" e nunca ficou indiferente àqueles que considerava os "porta--vozes" do partido: Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas e Miguel Portas.

No entanto, "uma das maiores referências políticas e éticas" de José Soeiro é José Afonso. Daí que defenda que "uma parte da nossa poli- tização faz-se pelos livros que le-mos e pela música que ouvimos". Na música, também gosta de Rage Against the Machine, Georges Moustaki e Manu Chao. No cinema, aprecia filmes como Os Respigadores e as Respigadoras, de Agnès Varda, ou Fala com Ela, de Pedro Almodóvar.

Porém, uma das suas grandes paixões é o teatro. O Teatro do Oprimido, diga-se. José Soeiro segue os ensinamentos de Augusto Boal e, através de um "teatro-fórum", transforma os espectadores em actores, em peças onde estes apresentam "os problemas do dia-a-dia". Nas últimas sessões do Teatro do Oprimido que tem organizado, as "falas" recaem "na precariedade como única alternativa, no desemprego, no recibo verde, no estágio não remunerado...". Por outro lado, apesar de amante da dramaturgia, José Soeiro lamenta o facto de "a Assembleia da República se aproximar daquilo que o teatro tem de encenação."

Na mesma linha do Bloco de Esquerda, é a favor da legalização das drogas leves e do casamento de pessoas do mesmo sexo, questões que não considera "fracturantes", indignando-se com a utilização do termo para definir estas questões. "O Código do Trabalho é que é fracturante", defende. A propósito destas temáticas que "mexem" mais com os costumes, Soeiro critica o facto de "alguns partidos não abordarem certos temas e depois colocarem as 'jotas' a discuti-los". Sobre o casamento gay , garante que "a luta não acaba aqui" e indigna-se quando recorda que "hoje, em pleno século XXI, os homossexuais estão impedidos de dar sangue".

Na AR, José Moura Soeiro pertence à Comissão de Educação. A sua luta contra as propinas e as praxes no ensino superior que anexa a bandeiras anteriores como a da Educação Sexual no ensino secundário fazem dele um dos deputados do Bloco de Esquerda com a "tutela" da Educação.

Aliás, um dos momentos mais marcantes do hemiciclo foi precisamente quando apresentou um projecto de lei sobre educação sexual nas escolas. "Nesse dia uma deputada do PS disse que a educação sexual estava a decorrer optimamente nas escolas e como há sempre gente das escolas nas galerias houve uma risada geral. E quando respondi, olhei para as galerias e vi os estudantes a fazerem este gesto [de aprovação com a mão fechada e o polegar para cima - que significa 'fixe'] com a mão."

Por outro lado, a sua luta contra os recibos verdes também já o levou a debates mais acesos no plenário. De um deputado do PS chegou a ouvir que não podia falar sobre os recibos, pois ainda estava "muito verde" para o fazer. "Ainda não tem idade sequer para falar no Código do Trabalho", foi uma das observações que ouviu. Algo que considera "absurdo e preconceituoso", pois entende que "não deve haver rótulos etários". Se houvesse, talvez não fosse deputado. Talvez ainda estivesse... a recibos verdes.

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