Zé Maria, Nadia e o Big Brother (PortugalGay.pt)
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Zé Maria, Nadia e o Big Brother



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Jornal Público (Espaço Público)
25 Agosto 2004

Maria Filomena Mónica
Historiadora

O Zé Maria e a Nadia têm características semelhantes. Não foram escolhidos por serem bonitos, espertos ou engraçados. Ao contrário, ganharam por serem um pobre diabo e uma aberração da natureza

Irrita-me ter de o admitir mas transformei-me num daqueles snobes que odeiam a televisão. Durante os três meses que Passei em Inglaterra, não consegui ver um único programa que me enchesse as medidas, algo impensável há apenas uns anos, quando tal era a profusão de. séries que eu desejava acompanhar que jamais vivi sem um vídeo ao meu lado. A degradação da BBC e a prostituição do Canal 4 (para todos os efeitos a ITV deixou de existir) é de tal modo notória que até deixei de pagar a taxa ao canal público o que, perante a lei, me transforma numa criminosa.

Há muitas coisas - a arte dentária, a pílula, o Amazon, os antibióticos, os CD - que revelam o progresso ocorrido ao longo das décadas. Os programas de televisão não se encontram entre elas. Pouca gente se dá ao trabalho de denunciar o facto, até porque é mais fácil desligar o aparelho do que protestar. Pelo meu lado, quero afirmar bem alto que desprezo a televisão do século XXI, vulgar, cínica, banal, vácua, imbecil e indigente. Todas as noites, em todos os canais, em todos os países, a receita é a mesma: pseudocelebridades frequentam pseudofestas, pseudopolíticos surgem em pseudodebates, pseudodramas enchem pseudo-serões culturais. Os noticiários, que duram mais de uma hora enchem se de pseudo-reportagens sobre pseudobairros periféricos, de pseudo-análises sobre pseudocrimes, de pseudodebates sobre pseudoguerras. A seguir, vem a programação da noite: pseudoconcursos para pseudopessoas, pseudopeças teatrais para pseudointelectuais, pseudo-realidade para pseudotelespectadores.

De entre o lixo é possível que o programa mais repelente, quer em Portugal, quer em Inglaterra, seja o Big Brother. Em ambos os países são estações privadas, a TVI e o Canal 4, que o exibem. Os responsáveis afirmam estar a dar as massas o que estas querem. O mundo, dizem-nos, evoluiu. A democracia chegou ao ecrã. O Povo gosta de se observar ali, ao vivo. A hora dos intelectuais, que julgavam distribuir as migalhas do património cultural pela plebe, terminou. Mas eu sei que, se pudessem assistir ao que, usando as respectivas criações, se está a passar, George Orwell e Lord Reith morreriam com um ataque de coração.

No último dia 7, realizou-se a final de 5º concurso inglês do Big Brother. Oito Milhões de ingleses - um em cada seis - assistiram ao espectáculo. Ganhou uma portuguesa, ou como aqui lhe chamam, uma "portugeezer", de seu nome Nadia Almada. Vi o episódio porque, através dos tablóides embandeiravam em arco, atribuindo a vitória, que também era sua. A genuinidade, sinceridade e prazer de viver da madeirense. Só então é que apercebi que se tratava de uma transexual, coisa que os telespectadores sabiam desde o início, mas que os habitantes da "casa" desconheciam.

O rapaz, de seu nome Jorge, que, aos 19 anos, deixara a ilha da Madeira, transformara-se na Nadia, empregada de escritório. Nove meses antes do concurso este havia sido sujeito a uma operação paga Serviço Nacional de Saúde, que a convertera numa mulher. Segundu declarou, a motivação para se candidatar fora a de ganhar o apoio do público para o caso dos transexuais. Mas não foi por isso que foi escolhida para entrar na "casa". Tal ficou a dever-se ao facto de o Big Brother inglês estar a perder telespectadores no último ano. O programa já tinha tido um homossexual, uma ex-freira lésbica e uma adolescente a que chamavam a "Porca". Faltava-lhes uma transexual. Contudo, as audiências não subiram tanto quanto previsto, pelo que, a certa altura, o Canal 4 planeou algo de ainda mais picante: dois dos "expulsos" foram metidos num quarto onde puderam ouvir tudo o que os companheiros haviam dito sobre eles, tendo depois tipo a oportunidade de regressar à "casa", o que originou um motim. O espectáculo teve mesmo de ser interrompido e a polícia - neste caso a real - de intervir. Pouco depois, o "psicólogo" que acompanha estas coisas, demitia-se.

No dia seguinte à vitória, Nadia aparecia na primeira página do "Sunday Mirror" (8/8/04), ao lado da frase: "Sou virgem, mas não quero esperar, quero ter já relações sexuais como mulher." Nas páginas interiores a transexual surgia abraçada à mãe, enquanto, noutro canto da página, um emigrante na África do Sul, o pai, beiba um copo de champanhe, após o jornal lhe ter comunicado que o seu filho era agora uma filha, coisa que ele desconhecia, por há anos não manter contacto com ele/a. A 22, um jornal de referência, "The Observer", dedicava duas páginas inteiras ao assunto, louvando a sinceridade da "nova celebridade".

Os chamados "reality shows" estão a produzir celebridades, a partir de gente anónima que nada fez para merecer o estaturo, a não ser permanecer encerrada, sem ocupação, durante várias semanas (uma situação claramente irreal). Os concorrentes são gente humilde, adolescentes que querem obter rapidamente a glória, a fama e o dinheiro. O facto de lhes chamarmos "estrelas" é significativo. Uma estrela brilha na noite. Ao longo da história, porque nos mostravam aquilo de que a humanidade era capaz, porque definiam os nossos valores, porque conseguiam comover-nos, porque apelavam ao que de mais nobre existiam nosso espírito, olhámos algumas figuras como modelos a seguir. Eram guerreiros, aristocratas, eremitas, cientistas, artistas, escritores, enfim, heróis. Hoje, a situação é diferente. É-se célebre porque se é célebre, porque as pessoas que passam, nas ruas, nos centros comerciais, nas lojas, nos reconhecem.

Não se pense que o Big Brother é o fim de uma linha. O que aí vem será pior. Nos EUA, existe um programa, The Swan, em que os concorrentes são sujeitos a operações plásticas, e outro, The Littest Groom, em que um anão tem de escolher entre parceiros sexuais de altura reduzida. Por seu lado, em Inglaterra, está previsto, para o Canal 4, um programa, intitulado Private Stars, no qual cinco homens, fechados numa casa, tentarão de resistir, durante 10 episódios, a ir para a cama com cinco estrelas de cinema pornográfico (as cenas sexuais serão exibidas ao íntegra).

Não foi apenas a vitória da Nadia que me levou a escrever este artigo, mas o destino do Zé Maria, o vencedor do primeiro Big Brother português. Os jornais nacionais noticiavam que. a 15 deste mês, ele tentara suicidar-se, atirando-se da Ponte 25 de Abril. Dois dias depois, seria preso, por andar a correr, nu, junto à zona ribeirinha de Lisboa. Festejado durante 15 minutos, o alentejano não aguentou a sombra que, desligadas os holofotes da TVI, sobre ele se abatera. O Zé Maria e a Nadia têm características semelhantes. Não foram escolhidos por serem bonitos, espertos ou engraçados. Ao contrário, ganharam por serem um pobre diabo e uma aberração da natureza. Há quem diga, para usar o jargão sociológico, que existe um "fenómeno identificativo" entre o público do programa e os concorrentes, do tipo aquela é igual a minha filha, o malandro é parecido com o meu filho, a outra, a parva, é semelhante à minha vizinha. Penso que, mais do que a tal fenómeno, o êxito do Big Brother deriva da piedade, no que este sentimento pode ter de negativo. Por muito mal que viva, por muitas desgraças que lhe tenham acontecido, por muito que o destino lhe teima pregado partidas, o público fica a saber que há, no mundo, seres com vidas piores do que a sua. Deus maltratara-os, mas, pelo menos os telespectadores não são o Zé Maria nem a Nadia.

Deixei para o fira a questão mais difícil, a do título do livro de N.G. Tchernitchevsky "O Que Fazer" (não, o título, não é originariamente de Lenine). A resposta não é simples. É horrível saber que a televisão dá a esta gente a ilusão de que pode ser alguém na vida. Mas quem sou eu para a impedir de concorrer? Claro que foi a miséria que a levou à "casa". Mas qual o remédio para que isto não volte a acontecer? A solução mais óbvia seria a de se fazer uma lei. Mas uma lei a dizer o quê? Que o Estado deve intervir? Aonde, até onde, como? Eticamente censurável, o Big Brother tem de existir, porque a alternativa é a censura. O programa faz parte dos custos que eu tenho de pagar por viver numa sociedade democrática e livre, o que não me impede de denunciar a imoralidade, indigência mental e exploração dos pobres. Mais não posso fazer. Nem o Estado.

Nota: este artigo é uma transcrição pelo PortugalGay.PT do artigo publicado na versão papel do Jornal Público e pode, por erro de dactilografia, não corresponder exactamente ao texto publicado.

Veja também:
Resposta de Jó Bernardo.
Resposta de António Serzedelo, em nome da Opus Gay.

 
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