Sete divagações (PortugalGay.pt)
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Poesia

Sete divagações

Drago Manus* (Brasil)
dragomanus@bol.com.br

 

 

 

 

 


Reflexo da Natureza: uma Declaração a um Especto I


Aquele a quem amo é o mais puro reflexo da Natureza.
Suas mãos são fortes como a tempestade e tão suaves como a brisa do mar.
Seus olhos assemelham-se a grandes pedras preciosas,
Dois raros diamantes negros,
Se fosse usurpador, tê-los-ia já roubado,
guardados em meus tesouros, admirá-los a todo tempo.

Se fosse usurpador, ter-te-ia roubado inteiro,
Tu, por inteiro, és preciosidade.

Tua boca, amado meu, causa de inveja ao mais vermelho entardecer,
Quero tê-la sobre a minha, fusão a ti de minha efusão por teu amor.
Teu tronco, armação do mais nobre mármore, é como um jardim,
Plantação de flores, aromas sutis,
Repouso em que o cansaço de minha cabeça deseja descansar.
Tuas pernas, as plantas dos teus pés, fincados ao chão,
Suspensos sobre a terra, não andam, flutuam,
Pois que tu és ser angelical,
A mais fiel descrição da beleza.

A tua voz navega no éter como as aves, que se calam,
Ao te ouvirem dizer o que elas nem sequer sonham cantar;
É assim, tu não falas, cantas,
Cantas os mais belos cantares,
Calas os mais altos sons;
Os instrumentos musicais se curvam ante a ti.
Fala comigo, meu amor, meu amigo!

Os deuses, estátuas e heróis gregos não se comparam a ti,
Antes, oferecem nos teus altares os seus incensos.
Eros não conseguiu fazer que tu me olhasses,
Afrodite também tentou te amar,
E até ela tu fizeste naufragar no oceano turvo das paixões;
Pois tu és mais que Adônis, és mais que Apolo,
És os reflexo da Natureza,
És o amor em essência e pureza.


Em ti correm rios; por ti correm lágrimas.
Em ti voam pássaros; por amor a ti voam pensamentos.
Exalam-se de ti risos;... "eflui" de mim o chorar.



Nasceste feito árvore, de semente pequena, te tornaste grande;
Imenso, ocupas os espaços de minha mente.
Nasceste com o nascer da década, nasci ao teu encalço depois;
Pouco tempo é tanto tempo;
Tanto tempo custou te encontrar,
Muito tempo, sei, vai demorar:
Esquecer-te... Transformar-te em memória.
Tratando do tempo, um segundo ao teu lado,
Foi para mim eternidade de glória!

Reflexo da Natureza, extrema harmonia,
Ah, como eu gostaria...
De sentir o teu perfume noturno,
Teu mau cheiro normal de tua humanidade,
tu também és humano,
O mais belo e bom entre todos.
És amor, mas sei que, como todos, és também furor.
(Estes versos te enfurecem?)

Cheguei tarde ao teu encontro,
Alma mais veloz cruzou teu caminho, (cruzou?)...
Estás encaminhado em teu destino, (estás?)...
Já encontraste tua direção, (já?)...
Cheguei tarde. Cheguei tarde! Cheguei tarde?

Reflexo da Natureza, água cristalina que mataria,
Mataria a sede do morto que a ti se declara.
Teu nome não deve ser pronunciado,
As divindades não devem ter nome perante os mortais;
Morte e vida... não escolho nenhuma;
Escolhi a ti, mas, quem escolhe,
Sangra por não ser escolhido.

Encontro-me perdido em tua floresta,
Há três caminhos a seguir:
Viver sem ti, morrer sem ti, morrer por ti...
É isto, sou também da Natureza,
Mudei minha idéia,
Morrerei, tornar-me-ei pó,
Poeira ao vento que vai em tua direção,
E me encontrarei contigo em teu corpo,
Enfim estarei sobre ti, sobre:
A maravilha criada; o filho, o reflexo da Natureza,
A mais pura, doce e suave beleza,
Aquele a quem amo!

 

 

 

 

 


Miragem (Especto II)


Perdido na aridez de algum lugar deste mundo, encontro:

- Ó imagem do Paraíso, por que permitiu Deus que te ausentasses da Sua corte, vindo deliciar a visão de tão pobre mortal?
- Caro senhor, vossas palavras confundem-me; sou criatura de Deus, porém ainda não vi o céu... O que fazeis por estas paragens?
- ...Perdido...; me perdi para poder encontrar-te... Tenho sede...
- Nobre senhor, não possuo água comigo...
- Não, nem necessitarias possuir... Deixa que eu te beije e tua saliva será para mim néctar!
- Senhor!! O que me pedis é contra a natureza!
- Visão de helênica divindade, amar é contra a natureza?
- ...??
- Amar é a única beleza do mundo; amar sem se perder nos mares turvos da dependência mútua; amar a liberdade, e poder amar a tudo e a todos, para amar-se a si mesmo e a um só.
- Vós me deixais a mente confusa, nobre senhor... Penso que vos quero, mas... o mundo... e o mundo, o que dirá...?
- "O que importa, senão felicidade?"
- Bem sabeis, nobre senhor, a felicidade é o tema mais complexo do enredo da vida humana!...
- Sim, é! Mas... a tentativa de encontrá-la é a solução que desenreda o laço...
- Laço; a vida é realmente um laço, nobre senhor; enrosca-se em nosso pescoço como tentadora serpente do Éden!
- Não me chames mais de nobre senhor, ó minha visão do paraíso, pois se assim te chamo: visão do paraíso, é para fazer jus à tua beleza! O amor implica igualdade. Não me chames por vós, não me chames de nobre senhor.
- Como hei de nomear-vos então?
- Aquilo que se ama não se nomeia, somente se ama. Podes nomear-me vento, calor, luz, sol... amor... de que importam nomes?
- Hei de chamar-vos então por expectativa, tremor, medo e desejo.
- Tremes, esperas, tens medo e desejo por mim?
- Sim, meu ser quase amado; conseguistes penetrar minh'alma vazia à procura de certeza, de tentativa...
- Não é alma vazia a alma que pode amar. Ama! Deixa que teu espírito se encha de luz e ama!... Espero de ti, meu amor, resposta. Somos duas interrogações que tentaremos nos conhecer, perguntas a se perguntarem... Vem, saiamos deste ermo; o que nos espera: um Paraíso a ser construído dia a dia em que estivermos juntos. Depois... o depois cabe ao depois... o amanhã sabe dele mesmo. Dá-me tuas mãos, teu corpo, tua alma. Vamos!!!...



 

 

 

 

 


Ser Ausente


Não sei o que é beleza, então, não és belo
Sei o que é tristeza, tu és somente alegria
Imagino-te como algo inimaginável
Por minha inatividade, espero-te
como alguém que deseja ser salvo de si
Espero que não venhas, pois não saberei como agir
Vem quando durmo e lê meu sonho
Verás tua imagem, minha imagem
Não me acordes, pois não saberei como agir
É fraqueza mesmo essa covardia em te encarar
Face a face, gostaria de que a minha fosse um espelho
nele verias que tu és quem és, indefinível
capaz de mover o corpo e a alma
que pede licença do corpo quando te vejo, e morro
pedindo a ti, minha causa mortis, socorro...
Causas vida e tiras de mim o fôlego
Asfixia do teu respirar
Deixo ao teu dispor todo o ar, tudo o que quiseres
todo o meu existir
toda a minha desistência de ti
que insiste em não surgir
Tu que não surges, nem para me roubar, me insultar
Poder, como tens poder sobre mim
Faze o que quiseres, ama e me odeia
Que te rodeio de flores vivas, como esta mísera vida
sugada de mim por tua ausência
Ser ausente, ser distante, ser que procuro ter...

 

 

 

 

 


Brasa Viva Adormecida


Se o nosso calor já não é mais fogo,
sob o escuro carvão,
adormece como brasa viva!

Sei que não virás hoje,
aliás, nunca vieste.
Eu espero-te sem tristeza.
Sei que existes,
e que posso ver-te todos os dias,
sem que tu sequer te importes com minha presença.
...
Adejo ao teu redor como um fantasma de borboleta,
tentando sugar a essência da tua força,
e fortalecer-me às tuas custas;
Às custas de tu que és rosa,
e que me enfraqueces
com a aguilhoada em meu coração de teus espinhos,
mas eu prefiro os espinhos deste amor sádico
àquela monotonia de minha vida sem dor!

(...)

Linhas mal traçadas estas linhas,
escrevo-as para que saibas
que eu sei que te quero mais que o desejar.
...
cansei-me de ser Lua e de tu seres o Sol,
esse desencontro natural que nos ocorre:
quando chego, tu já estás de saída.
Quero ser o ator do teu cine, ser a tua estrela,
e havemos de ser um brilho único:
só haverá somente os dias,
as noites, escuras, terão sido passado,
e passaremos o dia inteiro à beira amar... água...

Mágoa!

Se o nosso Amor nunca for fogo,
sob o escuro coração,
adormecerá como brasa viva!

 

 

 

 

 


Methammorphozis


A larva alimentou-se:
Encasulou-se:
Metamorfoseou-se:
Em algo que espantou,
A larva,
Transformara-se:
Em Diferença!

O dia pôs-se:
A noite achegou-se
O dia reveio:
Tão feio, tão meio noite.
E foi,
Pela coragem de diferir,
Causa de espanto!

Evaporou-se a água:
Chover, não choveu:
A chuva decidida,
Trocara de vida,
Fora ser,
Nos olhos dos que choram,
Lágrimas multicor'.
Espantou por diferir,
Aqueles que só fazem ferir!

/O menino nasceu:
//A menina nasceu:
/Chorar, chorou
//Não submeter-se, não submeteu-se
Metamorfosearam-se:
Em Diferença:
Em aquilo que eram em si.
Espantaram...
Mas são felizes!!!


 

 

 

 

 


Um Brinde a Lilith



Não tenho medo de descobrir o que já sei
Não vou ficar falando à toa, pois nem tudo é resumível
Homem e mulher são só as duas faces duma mesma moeda:
O ser humano
De que importa se a moeda tem a terceira face
Lilith foi expulsa da História; eu de mim
Adão era homem para saber que não era nada, eu já sabia
Eva era submissa e rebelde o bastante para se rebelar contra a imposição;
Eu também
A terça esconde os segredos da segunda e da prima,
e revela-se bizarra aos olhos de uns e dois.
Numa dinastia, onde quiser, querer o quê?
Querer saber que o mundo não é só o que se mostra aos olhos
Que está tudo além daqui, não é somente dormir e acordar,
está tudo além.
A mente é pequena, a inspiração é pouca,
respirar envelhece, não respirar mata
Sei muito e sei também o que eu nunca disse a ninguém,
pois isso sempre me perguntará
e tenho de responder
Não resumo mais,
pois já não quero deixar o mundo incompleto
não me amedronto por ser Lilith,
pois vivendo com os diabos,
aprendeu que eles são às vezes mais confiáveis que anjos
e deuses proibitivos
Um brinde a Lilith! Saúdem-na todos os mortais.

 

 

 

 

 


Espinhos/Dornoj/Thorns/Spinos/Espinas


Ao mundo, aos que venham a inquirir,
Livre em minha liberdade interna,
Eu direi:
As mulheres são flores,
As mulheres são rosas;
Mas eu, eu prefiro os espinhos!

    En Esperanto
    Al la mondo, al tiuj, kiuj venos por demandi
    Libera en mia ena libero,
    Mi diros:
    La virinoj estas floroj,
    La virinoj estas rozoj;
    Sed mi, mi preferas la dornoj!


In English
To the world, to those which will come and ask,
Freely inside my internal freedom,
I shall say:
The women are flowers,
The women are roses;
But I, I prefer the thorns!

    In Interlingua
    Al mundo, a illes que venira inquirer me,
    Libremente in mi libertate interne,
    Io va dicer:
    Le feminas son flores,
    Le feminas son rosas,
    Ma io, io prefere le spinos.


En Español
Al mundo, a los que vengan a preguntar,
Libre en mi libertad interna;
Yo diré:
Las mujeres son flores,
Las mujeres son rosas,
Pero a mí, a mí me gustan las espinas!


*Pseudónimo.


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