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Sexta-feira, 30 Dezembro 2016 13:41

PORTUGAL: 20 anos depois - Eduarda Santos




Eduarda Santos ou Transfofa como é conhecida nas redes, é uma ativista de longa data pelos direitos Trans. Todos os dias relata novas vítimas da transfobia um pouco por todo o mundo mas o seu trabalho foca-se em Portugal. Este é o seu testemunho.

Vinte anos atrás...

Há 20 anos atrás, imagine-se, a net ainda não estava disseminada como hoje. Eu ainda não tinha net, e como na Europa, contrariamente ao que sucede nos Estados Unidos, berço da net, a net, incompreensivelmente, paga-se, aliado aos preços a que o hardware é vendido por cá, durante bastante tempo não tive acesso à net. Primeiro era o preço dos PCs, depois era o preço da net, que começou a ser distribuída via rede telefónica. Isto levou a que tivesse primeiro um PC, e só muito depois o acesso à net.

Nesses tempos não havia informação sobre temáticas lgbt. E como sempre acontece, a temática t foi a última a aparecer, muito timidamente. Nessa altura eu juntava todas as notícias que conseguia chegar: recortes de jornais, que muito raramente falavam sobre a temática trans, sendo que quando o faziam era tudo englobado no termo gay ou homossexualidade, e sempre numa perspectiva negativa. As pessoas trans (que não o eram, eram travestis gays) eram assim uma espécie de freaks, uns anormais que se vestiam de mulheres, o que para os psicólogos e psiquiatras da época era um sintoma de uma homossexualidade não auto-aceite. Isto apesar de lá por fora já se falar de transexualidade autónoma, ou seja, separada da homossexualidade. Mas por cá as coisas demoram sempre muito a serem assimiladas.

Activismo

Iniciei-me no activismo a pouco e pouco. Dois factores empurraram-me: o primeiro foi o assassinato de Gwen Araújo, em Outubro de 2002 nos Estados Unidos. Nessa altura já tinha net, já andava a vasculhar tudo à procura de informação, e já tinha interiorizado quem era. A partir daí comecei a postar notícias no meu blog da altura sobre a temática trans e a denunciar estes crimes, o que continuo a fazer até hoje no FB, onde tenho vários albuns com os crimes dos vários anos. Foi assim que comecei, muito timidamente mas ganhando confiança com o passar dos tempos.

A nível de activismo trans, nessa época, havia somente uma voz em Portugal; a Jó Bernardo. A falta de representatividade era tal que, cada vez que um jornal queria entrevistar alguma pessoa trans, era à Jó que iam pedir que arranjasse alguém para o efeito. Na época, grupos e associações trans eram inexistentes, salvo a at, fundada pela Jó, e onde militavam algumas (poucas) pessoas trans. O Grit ainda não existia e basicamente quem lutava pela causa trans eram a at e as Panteras Rosa.

O segundo acontecimento que me lançou de vez no activismo foi o bárbaro assassinato de Gisberta, no Porto em Fevereiro de 2006. Já assumida, fiz a minha primeira aparição pública como activista (fora das marchas anuais) numa manifestação na Assembleia da República pela Gisberta, onde tive a minha primeira experiência da comunidade trans. Num caso tão horrível como foi o da Gisberta, aparecemos três pessoas trans, eu, a Lara Crespo e a Jó Bernardo. Com presenças das poucas associações/grupos existentes na altura, seríamos à volta de vinta a trinta pessoas.

A falta de mobilização da dita “comunidade” trans não me desmoralizou. Pelo contrário, foi a melhor demonstração que podia ter tido em como era necessário um maior activismo trans. A maior parte do activismo tem sido pela escrita. Foi numa mailing list partilhada por quem se dedicava à luta e nos meus blogues que tenho feito a maior parte. Agora é mais no FB.

Algumas polémicas

Muita coisa aconteceu, muitas amizades, e também muitas inimizades aconteceram durante estes anos. Recordo-me especialmente de um episódio. Um líder de uma organização lgbt deu uma entrevista a um determinado jornal em que dizia que as pessoas trans eram “gays mal assumidos com plumas no traseiro”. Estava-se ele a referir à presença de transformistas nas marchas, salvo erro. Bem, é claro que não me calei e vai de lhe responder à letra. Emails trocados e retrocados, a falta de argumentação levou aos ataques pessoais: ameaçaram-me de me boicotarem o meu processo, acusaram-me de ter enviado mensagens ofensivas através de uma rede de telm, que nem era a minha. Enfim, claro que depois ficou tudo em águas de bacalhau, ou seja, nada aconteceu.

É o tipo de pessoa que diz que não se deve defender os direitos de minorias (como os poliamorosos) porque vai-se perder apoios externos. Um argumento já usado contra a população trans anteriormente, e que deu origem a uma punhalada nas costas quando da inclusão da orientação sexual no Artº 13º da Constituição Portuguesa. Como se sabe originalmente era para ter entrado a orientação sexual e a identidade de género, afinal dizemo-nos lgbt. E como também se sabe, a associação que andou em negociações governamentais resolveu que se podia eliminar a população trans, afinal tão pouca gente, para a orientação sexual entrar. O que se mantém até hoje, a identidade de género continua a não estar presente no Artº 13º. Essa mesma associação nunca até hoje pediu publicamente desculpas pela punhalada nas costas e, no entanto, anda hoje em dia a desbobinar identidade de género em cada entrevista que os seus elementos dão, como se assim apagassem a traição que cometeram.

Avanços

Muitos outros episódios aconteceram nestes anos de luta. O casamento igualitário tornou-se uma realidade, bem como a adopção por casais do mesmo sexo. Deixou de ser necessário ir-se a tribunal para alterar nome e sexo na documentação oficial. E aqui temos de dar o seu a seu dono. Isto tudo muito graças ao activismo, aos activistas, ao Bloco de Esquerda e ao PS liderado por José Sócrates.

Muito continua por fazer nas questões trans

Muito foi feito, mas muito continua por fazer. A transexualidade e as restantes identidades trans continuam patologizadas, continuam os processos para se poder alterar nome e género e para se aceder a cirurgias e tratamentos hormonais, continuam os problemas nas cirurgias para quem lá consegue chegar, desde a saída para o privado do Dr. Décio, entre outros.

Outro episódio aconteceu quando da saída do dito Dr. para o privado. Nessa altura já se imaginavam problemas com as cirurgias. Mais no referente à qualidade das mesmas, diga-se. Antevendo uma mais que provável perda de qualidade nas cirurgias, pensei em organizar uma reunião inter associativa para se emitir um comunicado conjunto realçando para a necessidade de uma manutenção dos níveis de qualidade apresentados pelo inovador trabalho do Dr Décio. Várias organizações foram contactadas e convocadas para uma reunião extraordinária no antigo centro lgbt. levei um rascunho daquilo que me parecia ser o mais importante, o foco na qualidade das cirurgias, e apresentei-o aos presentes para que contibuíssem com as propostas que considerassem pertinentes.

Enquanto se debatia, estive à conversa também com um amigo. O tempo foi passando e as pessoas foram saindo depois de terem dado o seu contributo. Por fim também saí. Ficaram de enviar a proposta final via email às diferentes organizações o representante da rede ex aequo, e a representante do Grit, da ILGA Portugal, na altura.

Qual o meu espanto quando recebo via email a redacção da proposta, sem nada a ver com o que tinha ficado acordado, com o foco na diferença de ordenado que o Dr Décio desejava para ficar no SNS e o que o estado lhe queria pagar. Nada do que se tinha falado na reunião. Seguidamente recebi alguns emails de pessoas que tinham estado presentes na reunião a questionarem a proposta e a pedirem desculpa mas assim não assinavam em nome das respectivas organizações. Bem, nem eu assinei. Vim a descobrir depois que o texto apresentado tinha sido escrito pelo Dr. Décio. Uma oportunidade de colaboração inter associações perdeu-se desta maneira. Pior, como tinha sido eu a contactar as associações, foi a mim que puseram em cheque, a minha palavra. Não culpo o representante da rede, afinal era só um gay, mas a representante do Grit era trans. E embora hoje em dia ande com a bandeira da despatologização, este episódio de cedência ao lobby médico não ficou esquecido na minha memória. Espero que as cirurgias tenham valido a pena.

Continua a primazia da questão médica

Um dos problemas do activismo é que, apesar dele, tem-se que fazer na mesma um processo. Médico. Patologizado. E quando se luta ao mesmo tempo contra o lobby médico, existe sempre a possibilidade de retaliações. Estava encravada num determinado momento, e pessoas amigas falaram-me de uma pessoa que era compreensiva e que ajudava, e essas pessoas ajudaram-me a entrar em contacto com ela. Essa pessoa ajudou-me e a coisa avançou. Ficámos em contacto via FB, sendo visita regular ao meu canal de notícias trans (de que falarei à frente). Um dia deparei-me com um escrito dessa pessoa em que mencionava o mal amado Dr Zucker, tristemente famoso por defender uma espécie de cura trans, que era simplesmente a negação às crianças trans da sua identidade, forçando-as a vestirem-se e a agirem como do seu género de nascimento, fosse de que maneira fosse.

Como seria de esperar, não achei bem essa menção. O Dr Zucker é considerado internacionalmente como anti-trans, tanto que recentemente a sua “clínica” foi encerrada pelas autoridades de saúde canadianas. Foi ele o inventor dessa aberração que é a classificação do “travestismo fetichista”. Vai daí escrevi um textozinho em que criticava essa menção, sem sequer atacar quem o escreveu. Pouco tempo depois, vindo de uma segunda pessoa, um comentário em que dizia que eu era mal agradecida com quem me tinha ajudado. Respondi e a coisa ficou por aí, salvo que as visitas de quem regularmente visitava e comentava notícias pararam. Julgavam porventura que eu me tinha vendido, ou que o facto de me terem ajudado as escudava. Bem, ficaram a saber que não estou à venda, nem pelo processo. O que acho que está mal, critico, venha de onde vier. Estou agradecida, e muito, pela ajuda, mas se era uma ajuda com “ses” ou “mas” deviam ter avisado logo, pois como já disse, não estou à venda.

PortugalGay e Notícias

Quando andava à procura de informação, depois de ter net, reparei que cá no nosso burgo só existia um site de notícias de temática LGBT, o Portugalgay. Mas estava muito virado para as temáticas LG. Posteriormente decidi fazer um canal no FB dedicado a notícias trans, de cá e do resto do mundo. O que se passa lá fora acaba sempre por nos influenciar, positiva ou negativamente. Não vivemos num mundo em que basta erguer muros para nos isolarmos em segurança do resto do mundo, como Trump mais cedo ou mais tarde irá compreender. E senti a necessidade da existência de um sítio onde se pudesse ir encontrando o que de mais relevante vai acontecendo neste planeta a nível trans. Assim fiz o Notícias trans/transgender news, onde posto sempre que posso notícias actualizadas na sua língua original. Isso põe problemas obviamente. Notícias em alemão, chinês, etc, ou seja, línguas que não domino, não posto porque não as compreendo. E os tradutores online são, enfim…

E o futuro?

Hoje em dia já muita coisa mudou. existem mais activistas trans, portanto temos mais visibilidade, há mais sites de notícias de temática LGBT, há mais pessoas a escrever, associações que até há bem pouco tempo (o ano passado, por exemplo) eram pela patologização andam hoje a levantar a bandeira da despatologização. Ao mesmo tempo há coisas que teimam em não mudar, como as entrevistas e artigos nos jornais sobre transexualidade, sempre com o foco nas cirurgias e no discurso médico (não se vê um artigo que foque os problemas existentes ou as razões do activismo), o discurso na primeira pessoa é sempre o dos desgraçadinhos que sofrem muito, mas com as cirurgias deixam de sofrer. obliterando assim muito convenientemente a existência de pessoas transexuais que não desejam a totalidade ou parte das cirurgias, a dificuldade de articulação inter activistas, com cada organização a ter iniciativas solitárias quando as mesmas teriam muito mais força se fossem partilhadas.

Muito há ainda que fazer, 20 anos depois...

Eduarda Santos (Transfofa), Dezembro 2016

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