
Dezoito e meio por cento da população feminina do Porto já interrompeu voluntariamente a gravidez pelo menos uma vez na vida, e este número sobe para 22,6 por cento se atendermos apenas às mulheres que já estiveram grávidas. Números redondos, uma em cada cinco mulheres optou por fazer um aborto. Os dados são do Serviço de Higiene e Epistemologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que caracteriza a história abstétrica de mais de 1200 mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 92 anos. A estatística, ontem revelada pelo Diário de Notícias, não concerne a um estudo sobre o aborto, antes faz parte de uma megainvestigação sobre os estilos de vida dos portuenses. Um trabalho inédito no país, que segue a mesma amostra há cinco anos. [...] Henrique de Barros entende que não se pode extrapolar os resultados obtidos no Porto para o resto do país. A amostra - constituída de forma aleatória, através de números de telefone - é apenas representativa da cidade. [...] Da amostra do Serviço de Higiene e Epistemologia extraiu-se também o número de abortos por mulher: a maioria fez um; cinco por cento enfrentou dois; uma em cada 20 submeteu-se a três, quatro ou cinco. O grosso das mulheres que passa por este processo é oriunda de estratos sociais baixos, referiu o coordenador. Haverá muitos factores a explicar o opção, mas o facto de apenas dez por cento ter formação superior ajuda a colocar a tónica na falta de condições económicas. Recorde-se que, segundo a Direcção-Geral de Saúde, em 2002, realizaram-se 675 abortos legais e 4761 espontâneos em Portugal. Fora desta estatística ficaram as mulheres que protagonizaram os 5653 internamentos hospitalares por complicações resultados do recurso à interrupção candestina.