PORTUGAL: 20 anos depois - José Manuel Fernandes (PortugalGay.pt)
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Quinta-feira, 24 Novembro 2016 14:41

PORTUGAL
20 anos depois - José Manuel Fernandes



Ele é José Manuel Fernandes, professor e em tempos presidente da ILGA Portugal. Para muitos que preencheram estes 20 anos ele é uma figura incontornável do movimento LGBT, animador dos eventos, amigo dos amigos, cordial, um homem de procurar consensos. Convida-mo-lo a escrever sobre estes 20 anos.


Vinte anos que passaram por nós

No dia em que a alteração legislativa que veio a permitir o casamento para todas as pessoas, sem distinção de género ou orientação sexual, foi aprovada pela Assembleia da República (ou quando foi promulgada pelo então Presidente da República, aí a memória falha-me…), peguei no telefone e liguei ao João Paulo a perguntar (meio a brincar, muito a sério) se ele e o Filipe já tinham marcado a data do casamento. E, claro, a “exigir” um convite para a cerimónia. Não liguei a mais ninguém a perguntar e a “exigir” o mesmo, e decerto não foi por falta de escolha.

A data foi marcada, o convite veio e, obviamente, eu estive presente para ver a minha primeira união civil, reconhecida pelo Estado português, entre dois rapazes que, sorridentes e aparentemente serenos, rodeados de amigos felizes e lacrimejantes (eu por mim falo), trocaram publicamente, de “papel passado”, os votos que já tinham trocado entre as paredes da sua vida em comum, todos os dias, de há já muitos anos a essa data.

Não tenho, e acho que não terei nunca, especial apreço pela instituição do casamento (isso é uma outra história que para aqui não é chamada), mas tenho e terei sempre todo o apreço pelo desejo que duas pessoas têm em querer casar-se em nome do amor e amizade que as une. Ora, nesse momento, à minha frente e de tanta gente, o casamento daqueles dois era o evento mais necessário e inevitável do mundo. E eu fui um privilegiado por poder assistir.

Para quem, como eu, tinha sido “informado” por um telejornal de então, perto dos meus quinze anos, que os homossexuais estavam destinados a morrer com um “cancro” especialmente a eles dirigido (eram as primeiras notícias sobre a S.I.D.A), olhar para trás, já com quarenta e alguns anos, e ver que tínhamos chegado até aqui, àquele casamento concreto (e não apenas a uma lei abstrata num papel), era um sinal claro de que algo no mundo tinha mudado irremediavelmente e que a estupidez e a mentira do preconceito estavam militantemente a ser desmentidas.

Não uso a expressão “militantemente” por acaso. É minha convicção que, para lá do lado intensa e profundamente pessoal daquela cerimónia que unia (ainda mais) as suas vidas, aquele casamento foi mais um ato da militância a que o João Paulo e o Filipe nos habituaram. E isso leva-me a outra recordação. Essa mais extensa no tempo e que, recordam-me agora, percorre já 20 anos, número tão grande e ao mesmo tempo tão leve.

Estes vinte anos «que passaram por nós» (citando o Sérgio Vitorino numa conversa que tivemos muito recentemente) são os mesmos vinte anos em que o João Paulo e o Filipe passaram por nós e nós não esquecemos. Dezenas de vezes, talvez mesmo centenas de vezes, de máquina fotográfica e sorrisos em riste. Nas memórias das associações, das marchas, dos prides, das demonstrações públicas, dos festivais de cinema, dos abaixo-assinados, enfim, nas memórias da vida da comunidade lgbt/queer portuguesa destas duas últimas décadas lá estão eles presentes. A testemunhar, a registar, a publicar e a publicitar o que ia acontecendo. A fazer acontecer!

Para quem ainda acha que o PortugalGay é um site, só vos posso dizer que estão enganados. O PortugalGay é o João Paulo, é o Filipe, é a vida destes dois rapazes juntos, é sua a militância pelas causas justas perante um mundo que ainda teima em ser injusto (No, it doesn’t always get better!). E o PortugalGay somos nós, no que eles permitiram que partilhássemos com eles, no que construímos com eles, no que mudámos com eles, no que passámos com eles. Na esperança de termos mudado definitivamente alguma coisa para melhor. De ainda virmos a mudar alguma coisa para melhor.

Parabéns, meus queridos!

José Manuel Fernandes, Novembro 2016

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