PORTUGAL: 20 anos depois - Nico (PortugalGay.pt)
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Sexta-feira, 9 Dezembro 2016 16:45

PORTUGAL
20 anos depois - Nico



Estamos demasiado presos nas rotinas e não vemos o que está ao nosso lado. Curiosamente encontramos o Nico no regresso de uma viagem enriquecedora. Fica aqui o testemunho de alguém que representa uma parte significativa do trabalho do PortugalGay.pt nestes 20 anos: abrir os olhos.


A Arte de ver o Mundo

Todos os seres humanos são iguais, mas uns são mais iguais que outros George Orwell

Enquanto o titulo te possa induzir em erro, este texto não é sobre viagens, mas o que aprendi quando comecei a viajar. Também é de salientar que quando falo de viajar, não falo de ir de férias. Falo de nos afastarmos do que conhecemos, ver o que nunca vimos e duvidar do que sempre nos foi contado. Começo também por admitir meu amigo, que não sou um grande escritor, nem tenho grande aptidão para a escrita. Não sou religioso, nunca votei, nunca doei e nunca fui um grande aluno.

Sempre me senti bastante anestesiado com os meus problemas, para querer perceber o que se passava no mundo. Sempre pensei que a luta dos outros não era a minha, e que para quê ter uma opinião se uma opinião vai mudar nada, nem sequer influenciar o meu dia a dia?

Admito que sempre sofri dum autismo seletivo. Penso ser um sentimento comum entre a minha geração e as anteriores. Pobreza em África ? sim, estou ciente. Guerra no Médio Oriente,? Sim, já desde os anos 90. Racismo e segregação social? Sim, o Mundo não é perfeito.

Também cresci numa época em que o desenvolvimento da tecnologia nos deixou mais alerta, mas menos presentes. Mais informados, mas menos humanos. Com mais seguidores, mas menos amigos. Aprendi que vivemos como formigas. Pertencemos a uma sociedade estratificada na qual a nossa contribuição enquanto membro ativo é bastante linear; temos uma visão bastante limitada do que está perto, mas não do que está longe. Temos uma capacidade incrível de desumanizarmos situações que estão longe. Somos capazes de chorar a morte de um ator e encolher os ombros à morte de centenas de milhares de pessoas na Síria ou em África. Ficamos chocados com a morte de 100 pessoas em França mas a morte de centenas de milhares de pessoas em África é meramente um número que partilhamos no Facebook? Dizem que longe da vista, longe do coração.

Toda esta filosofia de vida mudou quando comecei a viajar. Tudo mudou quando mudei as lentes e comecei a ver o Mundo como ele é. Quando comecei a viver e ver como 2/3 do Mundo vive. 2/3. Ver a Sociedade como ela é. Cinzenta, desconectada, agressiva, manipuladora e preconceituosa.

A este processo chamei de consciencialização. Penso que o termo foi usado por Paulo Freire em “Pedagogia dos oprimidos”. Se formos ao dicionário, consciencialização é basicamente o ato de se consciencializar do que está à nossa volta, de humanizar e perceber o que outrora rejeitamos. Para isso, é preciso viajar. O Mundo é como um livro. Se não viajarmos, não passamos da primeira página.

O meu processo de consciencialização aconteceu de forma involuntária e inconsciente.

Primeiro no Brasil. Depois no Nepal, Índia e finalmente no Sudeste Asiático onde vivi quase um ano. Todos nós sabemos que existem crianças a viver na rua um pouco por todo o Mundo. Mas só quando temos mesmo que encarar essas mesmas crianças nos olhos, quando nos pedem 1$ para comerem é que humanizamos o que realmente está à nossa volta, e nos consciencializamos da sociedade que está longe do muro dos nossos condomínios, e da bolha em que vivemos.

Julgo que a consciencialização do individuo relativamente a direitos e deveres enquanto cidadão muda consoante a sua identidade nacional, educação, religião e contacto com o Mundo. Sente-se uma maior voz social ativa em sociedades ocidentais, nomeadamente no Centro e Norte da Europa; contudo a realidade vem mudando para os ditos países de terceiro Mundo. Infelizmente, esse mesmo processo é não rápido o suficiente.

Aprendi que pessoas são pessoas em qualquer parte do Mundo. Enquanto sociedades ditas desenvolvidas temos o dever e responsabilidade ética de os proteger e ajudar.

Aprendi que a maioria de nós não tem um natureza má ou cruel, mas quando confrontados entre liberdade e felicidade, a maioria escolhe a felicidade. E quando confrontados entre felicidade e conforto, surpreendentemente a maioria escolhe conforto, mesmo que muitas vezes inconscientemente.

Aprendi que escolhemos viver no nosso pequeno mundo de problemas superficiais ao invés do Mundo real. Na verdade, como disse, o Mundo está da maneira que está não por causa de pessoas más, mas porque as pessoas boas não se indignam o suficiente para fazer algo.

O papel do Cidadão enquanto individuo ativo da sociedade tem vindo a ganhar importância nos últimos 60 anos, mas recentes conflitos religiosos na Europa, EUA e Médio Oriente poderão mudar o estatuto e liberdade do cidadão em países ocidentais. Em vários estados de direito, já se fazem notar movimentos nacionalistas de direita que poderão ter consequências devastadoras à escala global.

EUA, Reino Unido, Hungria, Turquia, Alemanha, Franca, Suécia já têm movimentos de extrema direita que podem mudar a realidade global de Direitos Humanos.

Em 2011, no leste Europeu, o Governo Ucraniano proibiu qualquer tipo de protesto publico quando o Povo Ucraniano se revoltou contra a decisão do Governo de rejeitar a possibilidade de fazer parte da União Europeia. Mais tarde, o mesmo Governo foi demitido.

Mais recentemente em Espanha, foi criada a chamada “Lei da Mordaça” que retira o direito ao cidadão comum de protestar publicamente, com o perigo da ter que pagar uma multa ou mesmo pena de prisão.

Enquanto alguns Governos tendem por conduzir uma nação através da força (comum em Países menos desenvolvidos a nível de direitos humanos), em algumas superpotências mundiais, Governos já aprenderam que é mais fácil controlar população através da Media. Esse mesmo controlo ajuda na desumanização e alienação da população, quando deveria ter o efeito oposto (de educação e consciencialização.)

Enquanto que nos países nórdicos as desigualdades sociais têm vindo a diminuir, o mesmo não acontece em Países de Terceiro Mundo. Lutas pelo igualdade de direitos humanos ou animais ainda variam consideravelmente entre diferentes países e/ou culturas. Certas culturas ainda dividem a sociedade em diferentes classes, baseadas num Status Quo invisível que um motor alemão ou um descapotável italiano pode oferecer.

Temos o dever de ter um papel ativo no mundo global, seja pela igualdade de direitos da comunidade LGBT, igual de géneros, igualdade racial, aquecimento global, acolhimento de refugiados, fome em África, etc.

A coragem de pensar diferente, de viver diferente, de agir diferente tem que ser aplaudida, e não criticada, julgada e apedrejada. A liberdade do Individuo tem que ser uma condição intrínseca que nasce com o ser. O dever de ajudar os outros, quer vivam, perto ou longe, tem que ser um protocolo social tão natural como comer ou ir ao ginásio.

Temos o dever de proteger e lutar pelas minorias e oprimidos.

Vivemos num mundo de professores de filosofia. Eu quero viver num Mundo de Filósofos. De pessoas que estão aqui realmente para mudar o Mundo.

E por isso eu viajo. Já conheci bastantes “doutores”, “professores” e “engenheiros”. Hoje, quero conhecer revolucionários, pensadores, gurus, filósofos, vegetarianos, estudantes, mágicos e anarquistas.

Espero ter ajudado.

O Mundo vai mudar quando o Homem plantar aquilo que sabe que não poderá plantar. 

Grande abraço,

Do teu amigo

Nico, Dezembro 2016

PORTUGAL: 20 anos depois - Nico

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