Eu não sei se infectei alguém, porque também não se preocuparam em saber se me infectaram

por portugalgay sexta-feira, 04 Dezembro 2009 10:41
Ridículo, é a palavra!

Dias atrás passou num dos canais da televisão Portuguesa uma reportagem sobre um indivíduo que se dizia seropositivo.

Ate aqui estamos todos bem, pois estávamos perto de recordar o dia internacional da luta contra a infecção pelo VIH/Sida, e como é norma tem sempre uma ou outra reportagem que nos dá uma imagem de como está a situação no momento.

Mas depois toda a reportagem surge numa visão do coitadinho, do "pobre de mim que me infectaram".

Sempre ouvi dizer que para dançar o tango são preciso dois, logo em pleno século XXI com toda a informação disponível, as pessoas "não são infectadas" mas, geralmente, "infectam-se", e embora pareça a mesma coisa, não o é!

Se este senhor está infectado é porque ele não tomou as devidas precauções, é porque ele não se soube proteger e como tal não precisa de vir dizer que o infectaram e que ele é um pobre coitado.

Faltou sem dúvida no inicio do discurso sobre o VIH em Portugal, uma atitude mais assertiva, que não tivesse sido um conjunto de políticas e acções baseadas no preconceito, e por isso muitas pessoas nem deram conta do que de facto se estava a falar, e numa postura tipicamente Portuguesa, foi-se facilitando e acreditando que era uma coisa "dos outros", particularmente dos maricas, ou de pessoas promíscuas (ainda hoje alguna pensam ser sinónimos), e que por isso a outra parte não precisava de protege-se, por isto ou aquilo.

Assim este senhor de que vos falo representa um papel ridículo, uma postura que nem no tempo do AZT se viu. Para quem não sabe ou não se recorda o AZT era a única medicação contra o VIH/SIDA no início da guerra contra este vírus e tinha extremos efeitos secundários mas que, mesmo assim, conseguiu prolongar a vida de muitas pessoas nos finais dos anos 80 dando uma esperança de vida e não uma sentença de morte.

O comentário de que dói muito tomar a medicação para o VIH é mais que uma inverdade: é um insulto a todos aqueles que de facto tem tratamentos dolorosos, como por exemplo os pacientes de cancro. O tratamento actual do VIH/SIDA tem, a bem da verdade, alguns efeitos secundários, mas na esmagadora maioria dos pacientes o diálogo com a equipa médica consegue resolver estas situações e os pacientes têm uma vida perfeitamente normal realizando todas as actividades do dia a dia.

E é um insulto ainda maior porque põe em risco a vida do senhor em causa quando se sabe que "deixar a doença andar" não é um bom método para prevenir complicações do VIH/SIDA e que, embora existam pessoas HIV+ que vivem o dia-a-dia sem medicação estas são seguidas regularmente por uma equipa médica que debate caso a caso quais as melhores estratégias terapêuticas.

E é um insulto à inteligência porque é um contra-senso: ao deixar a doença evoluir estão a fechar-se oportunidades de tratamento e as opções terapêuticas começam cada vez a ser mais limitadas, e aí sim: se a única opção disponível tiver efeitos secundários graves os médicos vêem-se com muito limitada capacidade de manobra.

Mas este testemunho é também lamentável, são mais que muitos os testemunhos de pessoas que infectadas, sentem que a vida lhes deu mais uma oportunidade, e aproveitam essa oportunidade para ver a vida de uma forma mais positiva, sendo que a única culpa que apontam é a sua.

Este senhor diz que foi infectado e que agora não quer saber dos outros e por isso não tomou precauções em uma outra situação, afirmou mesmo que já depois de saber que estava seropositivo teve relações desprotegidas, colocando em risco quem com ele se relacionou.

Pessoalmente custa-em a engolir este verdadeiro atentado contra a vida de um ser humano na forma premeditada.

E porque este tipo de tempo de antena trás sempre quem pense que aquilo que ai foi dito seja mesmo assim, aqui fica algumas sugestões.

Os centros CAD existentes no nosso pais fazem testes de forma anónima (inclusivé para estrangeiros), gratuita, e com apoio psicológico!

Não devem ir a correr fazer o teste quando tiverem uma situação de risco, devem aguardar algum tempo que varia de pessoa para pessoa, assim sugere-se que aguardem pelo menos duas a três semanas, e quando forem fazer o teste digam quando foi que
tiveram esse comportamento.

Mas se estiverem mesmo com dúvidas no "dia seguinte" o CAD também está lá para as esclarecer.

Se por ventura o teste der positivo, os CAD normalmente encaminham-vos para o hospital da área, cumpram os concelhos do vosso medico/a e vão ver que além de poderem ter uma vida sem problemas de maior, a medicação é apenas alguns comprimidos, que graças a evolução farmacêutica se pode resumir a uma toma diária.

Para que nada disto se venha a acontecer tenham sempre em mente que todo e qualquer parceiro/a sexual é um potencial portador não só de VIH mas de qualquer outra doença sexualmente transmissível.

Protejam-se e façam o favor de serem felizes.

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