Concurso Cartaz da Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa

por portugalgay quarta-feira, 14 Dezembro 2011 09:03

http://marchaorgulholgbtlx2012.blogspot.com/2011/11/concurso-para-cartaz-para-mol-2012.html


No dia 23 de Junho de 2012 irá realizar-se a 13ª Marcha do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero de Lisboa (MOL), com partida às 17h do Jardim do Principe Real.

A Comissão Executiva da MOL gostaria de lançar um desafio a todxs aqueles que, como nós, querem ver este evento crescer e ganhar dimensão e força, pelo que aqui anunciamos a abertura do Concurso para o cartaz e restantes materiais de divulgação da MOL 2012 (flyers, banners).

Concurso de Cartaz para a MOL 2012

Nesta 13ª edição da Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa, mais uma vez lançamos o desafio à comunidade criativa nacional e internacional para a elaboração dos materiais de divulgação da MOL 2012, com especial enfoque sobre o cartaz. Assim, pedimos a colaboração de todxs xs criativxs profissionais ou amadores na resposta a este concurso.

Quem se pode candidatar
- criativxs profissionais, amadores ou indivíduos que trabalhem nesta área e que tenham experiência em trabalhos equiparados.

Requisitos do Produto
- cartaz tamanho: 700 x 500 mm
- resolução pretendida: 300 a 450 dpi [mín. e máx.]
- formatos digitais aceites: JPG, TIF, EPS ou PDF
- composição gráfica: livre, sob a condição de respeitarem o objectivo do cartaz, ou seja, a divulgação da marcha.

A composição deve incluir os seguintes elementos
- "13ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa"
- Data e hora de início: 23 de Junho de 2012 às 17h
- Local de partida/início:"Jardim do Principe Real"
- espaço para os logótipos das associações que constituem a Comissão Executiva (cerca de 20 ao todo; ver por exemplo, o cartaz da MOL de 2011 aqui)
- O logotipo da MOL (encontra-se no cabeçalho do blog, de onde pode ser copiado, mas pode também ser enviado em maior resolução gráfica a pedido por email)

Data do Encerramento do Concurso
- 31 de Dezembro de 2011

Outros Detalhes
- as propostas deverão ser enviadas até à data de fecho do concurso para o email marchalgbt@gmail.com
- qualquer candidatx poderá enviar um número ilimitado de propostas, desde sejam trabalhos originais e inéditos
- cada candidatx deve enviar a/s sua/s proposta/s, juntamente com o seu nome e contactos (email e telefone).

Cada proposta será avaliada após a data de fecho do concurso pela Comissão Executiva. Informamos ainda que, essencial para a submissão é a proposta de cartaz, mas que após a selecção da proposta vencedora, iremos solicitar o apoio dx designer para a realização de elementos de divulgação acessórios mais simples - um banner e um folheto A5, que deverão ter a mesma linha gráfica do cartaz. De qualquer forma, estes elementos podem, se x designer assim o desejar, ser já incluídos na sua submissão inicial. 

A Comissão Executiva reserva-se o direito de propor alterações ao cartaz em conformidade com questões estéticas ou conceptuais que considere pertinentes.

Uma vez que a Comissão Executiva é formada por um conjunto de organizações sem fins lucrativos, e que a marcha em si também não tem um carácter lucrativo, informamos que não haverá qualquer prémio monetário neste concurso. No entanto a Comissão Executiva compromete-se a escrever uma carta de recomendação, se solicitada, para aqueles que desejem incluir este trabalho no seu currículo ou portfólio.

Caso haja alguma dúvida ou questão basta contactar-nos para marchalgbt@gmail.com.

 


Transmissão VIH sem ejaculação

por portugalgay terça-feira, 15 Novembro 2011 11:11

Pergunta recebida em http://portugalgay.pt/dst/sida_faq.asp

Poderei ser infetado com o virus VIH tendo interrompido uma penetração sem que haja ejaculação?

Resposta:

Sim. A infeção do VIH durante a penetração sem preservativo pode acontecer nos dois sentidos (quer de quem penetra para quem é penetrado como ao contrário) mesmo que não haja ejaculação.

No entanto, o risco de contaminação é maior no sentido de quem penetra para quem é penetrado, especialmente no caso de ejaculação.

Além do VIH existem outras infeções que podem ser transmitidas durante o sexo desprotegido e que podem ser graves caso não sejam devidamente tratadas.

 


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Mudar de hospital: a luta: Parte III: Confronto

por transfofa terça-feira, 04 Outubro 2011 19:15
Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe...

Estávamos a 16 de Setembro, e finalmente o processo tinha aparecido.

Depois de tanto tempo perdido com este vai e vem a somar ao tempo perdido por causa da tromboflebite, penso que será compreensível para toda a gente que estava um bocado ansiosa para que as coisas começassem a andar.

A juntar ao facto de se estar a aproximar cada vez mais o fim de ano e ainda não ter o relatório para mudar nome e género, nem saber quem mo iria passar. Também a Lara, com o processo completo desde 2007, se encontrava a aguardar pelo relatório desde Julho. E como o relatório dela deveria ser, em princípio, emitido pelo Prof Dr Rui Xavier Vieira, decidimos pedir para falar com ele. Preenchemos uns impressos que servem para esse pedido, e fomos aguardar para a entrada da secção de psiquiatria do Santa Maria.

Enquanto aguardávamos, comentámos uma conversa que tive com o Prof Dr pouco tempo depois da lei de alteração de nome e género ter saído. Nessa conversa eu interroguei-o sobre os referidos relatórios, e fiquei a saber que o Prof Dr, pelo menos nessa altura, não passava relatórios a ninguém sem saber ao certo o que exigiam as conservatórias. Depois de eu argumentar com o facto (digo eu) de as conservatórias não poderem exigir nada que não estivesse contemplado na lei, o Prof. Dr mostrou-se irredutível na sua posição.

Pouco tempo depois vim a saber por intermédio de terceiras pessoas (portanto não confirmado) que o Prof Dr afirmara “que era um homem muito ocupado e que tinha mais que fazer que estar a passar relatórios”. Pode não ter sido exactamente por estas palavras, mas o sentido era este. Pelo que conheci da pessoa em questão não tenho dificuldade nenhuma em acreditar que tenha efectivamente dito isto. Se foi somente como desabafo ou sentido, não faço a menor ideia. Portanto foi na posse destes dados que estava preparada para ir falar com o Prof Dr.

Era minha intenção informá-lo que o processo (finalmente) se encontrava lá e que a minha intenção era ver se ainda faltava alguma coisa e caso não faltasse, enviá-lo para a OM, e requerer o relatório para alterar a documentação.

Estávamos nós a conversar, vimos o Prof Dr a sair da ala dos gabinetes pelos vidros da porta. Quase a seguir, veio uma das funcionárias da secretaria informar-nos que o Prof Dr tinha uma reunião e não nos podia receber.

Uma coisa curiosa (ou não) sobre o Prof é que, seja porque motivo for, mesmo que seja só para fazer uma pergunta ou obter uma informação, insiste sempre em que se marque consulta. E as consultas são marcadas unicamente por ele e, regra geral, são-no para um espaço de tempo que media entre um mês e meio e três meses.

Portanto na prática isto implica, por exemplo, que vai-se lá hoje pedir para informarem o Prof para marcar consulta, vamos embora sem a consulta marcada e quando o Prof a marca recebe-se em casa a marcação. Ou seja, íamos em Setembro para pedir os relatórios e só o podíamos fazer lá para Novembro/Dezembro. Some-se a isto o tempo necessário para a sua emissão (o meu relatório de segunda opinião demorou uns oito meses e era só metade de uma folha.

Para que se compreenda bem de que tipo de relatório se fala, fica aqui um exemplo, retirado do site do Dr Décio:

“RELATÓRIO CLÍNICO
Ao abrigo da alínea b) do nº 1 do artigo 3º da Lei n.º 7/2011, de 15 de Março, atestamos que XXXXXXXXXXXXXX, portador/a do BI nº XXXXX, tem o diagnóstico de Perturbação de Identidade de Género (Transexualidade), não sofre de anomalia psíquica e tem sido regularmente seguido/a em Consulta por Equipe Multidisciplinar de Sexologia Clínica.
Por ser verdade, aplica-se o disposto no artigo 2º da supracitada Lei para efeitos de mudança de sexo e de nome próprio no Registo Civil.
Lisboa, XX de XXXXX de 2011”

Portanto, como se pode comprovar, não é extenso nem complicado nem demora séculos a ser feito. Uma pessoa que escreva/tecle devagarinho penso que poderá fazer uns dois documentos destes a cada cinco minutos.

Como curiosidade, no mencionado site do Dr João Décio Ferreira, encontra-se a seguinte frase, que me parece bem elucidativa do estado das coisas: “Sabemos que todas as Equipas estão a passar às pessoas a quem já fizeram o diagnostico, relatórios semelhantes . A única excepção é a equipa do CHLN/Hospital Santa Maria, do Prof Rui Xavier Vieira, que ainda não passou nenhum relatório mesmo aos já diagnosticados há vários anos e já operados com autorização da Ordem dos Médicos.” Penso que isto dispensa comentários.

Era sexta-feira, eu tinha um quisto sebáceo a infectar no meu ombro esquerdo, fomos para casa. A caminho decidi-me a ir aos relatórios clínicos da central de consultas e fiz o meu pedido de relatório. Sempre se poupa tempo.

É minha opinião que quem me devia passar o relatório devia ser o Dr Pedro Freitas e a psicóloga Íris Monteiro. Eles é que me acompanharam na maior parte do processo.

Nesse fim de semana fui ao SAP onde me espremeram o quisto a sangue frio no Sábado e no Domingo fui fazer um penso (e espremer mais um bocado).

Na Segunda, 19 de Setembro, fui ao centro de saúde novamente mudar o penso (e espremer mais) e depois seguimos para Santa Maria para tentar contactar o Prof.

O Prof não se encontrava lá, encontrava-se a fazer exames e nos mesmos impressos que sevem para requerer contacto, escrevi o que pretendia. Sabendo de antemão que o Prof nem devia ler o que lá estava.

Durante o resto da semana tive de ir todos os dias mudar o penso (e espremer) e estava sem dinheiro para poder deslocar-me a Lisboa para o tentar contactar.

Na sexta feira depois do penso (e das espremidelas) lá arranjei dinheiro para gasolina (5 euros chega) e lá fomos novamente para Santa Maria.

Novamente preenchemos os impressos e aguardámos na entrada. E desta vez o Prof veio. Mas em vez de nos chamar ao gabinete, veio ter connosco à entrada, já preparado para se ir embora.

Perguntou então o que queria. Eu disse-lhe do processo e tal,e ainda nem tinha falado nos relatórios já o Prof, com a voz um bocado alterada (quase a berrar) me interrompia. Foi mais ou menos isto que me disse: “OM? Qual OM? Você vem para aqui para fazer o processo do princípio. Mas afinal porque pediu transferência?”

Em voz alta disse-lhe que tinha ficado sem quem me fizesse o processo no Júlio, ao que ele retorquiu que “Havia equipe no Júlio”. E virando costas ainda disparou “Falamos depois disto na consulta”. E saíu porta fora.

Ainda fui atrás dele para indagar sobre os relatórios mas o Prof nem se virou, fazendo somente um trejeito com a cabeça.

A Lara nem teve tempo de falar. Bem, ela nem teve direito a um “olá” do Prof.

Não posso deixar de mencionar a completa falta de respeito demonstrada pelo Prof pelos seus pacientes. Não lhe fica nada bem como profissional. Quanto à sua educação, realmente títulos académicos nada têm a ver com educação. O modo como fala com as pessoas é bem prova disso.

Como já vou conhecendo o Prof, dirigi-me à secretaria para que me informassem para quando estava marcada a minha consulta. É que se fosse para daí a meses, tinha de continuar a lá ir, pois não estou para esperar quase um ano pelo relatório.

Basta pensar que durante as minhas idas ao SAP e ao centro de saúde, toda a gente me tratava no feminino até saberem do meu nome. A partir daí era no masculino ou neutro e com risinhos abafados e sorrisos óbvios.

E sinceramente já estou farta deste tipo de situações que acontecem em todo o lado. Deixei de ir ao centro de emprego para evitar que o mar de gente que sempre lá se encontra fique de olhos esbugalhados a olharem para mim sempre que o meu nome é mencionado. Porque até essa altura ninguém me dedica um segundo olhar, e a partir daí não tiram os olhos de cima de mim. Com as mais variadas expressões faciais. Já para não falar de empregos, em que só falta dizerem-me textualmente “Não nos contacte, nós contactá-lo-emos”. O que evidentemente nunca acontece.

Enfim, na secretaria informaram-me do que já estava à espera. Nenhuma consulta estava marcada. Fiz o pedido para marcação, mas garantidamente se encontrar outra pessoa que me possa fazer o pouco que falta do processo, nem penso duas vezes.

Quer dizer, depois de três anos de processo (os outros dois não contam devido a estes problemas em mudar de hospital e devido à tromboflebite de que fui vítima), de já ter a segunda opinião feita, O Prof Dr quer que inicie o processo do início? Então este tempo todo estive a fazer o quê? Das duas uma, ou eu sou mesmo doente mental e não vejo algo que devia ver, ou o Prof Dr nem pensou no que disse.

Psiquiatras e psicólogos devem servir para ajudar a melhorar a saúde mental dos pacientes, sejam eles quem forem, e não tornarem-se na origem de mais stress e depressão, para isso já basta o estado do país, e facilitarem a vida às pessoas, não para a complicarem ainda mais.

Cabe na cabeça de alguém isto? Se couber, óptimo, mas na minha não cabe.

Não posso deixar de mencionar aqui a culpa que cabe às pessoas transexuais. Muitas delas, por medo de represálias sobre os respectivos processos, baixam a cabeça e aceitam caladas e subservientes todas as indignações e mais algumas que alguns profissionais de saúde teimam em protagonizar. Se bem que por um lado seja compreensível, por outro lado temos de ter consciência de que temos direitos e como mulheres e homens não temos de nos sujeitar a indignações e tratamentos abusivos caladas. Por mais que não seja, sempre podemos e devemos denunciar publicamente estas atitudes. É o nosso dever como seres humanos.

Fica aqui a denúncia pública sobre o tratamento dado por determinados profissionais do SNS e sobre o, por vezes, funcionamento deficiente do mesmo. Estes casos, em vez de serem denunciados publicamente, são escamoteados por todos, profissionais de saúde, media e pelas próprias pessoas transexuais, atitude que leva a que os casos se perpetuem, sem resolução e sem virem a público.

Porque razão, cada vez que há um artigo nos jornais ou uma peça na televisão, estes problemas nunca são focados? Seria bom ver por uma vez um artigo ou uma peça televisiva que focasse estes ou outros problemas em vez da costumeira lenga lenga dos coitadinhos dos infelizes que sofrem tanto até fazerem as cirurgias. Era capaz de ajudar mais.

Por exemplo, porque razão, numa recente peça sobre transexualidade, não foi questionada a razão porque nos Hospitais da Universidade de Coimbra se anda a sonegar informação pertinente às pessoas transexuais? Saber-se que técnicas vão utilizar e em que medida essas técnicas representam (ou não) um avanço em relação às que se utilizavam não é um pormenor menor. Bem como o saber-se onde foram fazer o estágio, com quem e por quanto tempo.

Fim (até ver)

Mudar de hospital: a luta: Parte II: bater contra as paredes

por transfofa sexta-feira, 30 Setembro 2011 16:34

Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe... 

Depois de ter ido ao Júlio de Matos pedir a transferência do processo, resolvi aguardar para dar algum tempo para o processo seguir viagem e para que no Santa Maria, ao receberem o processo, me marcassem consulta.

Neste compasso de espera, aqui ficam mais alguns dados sobre o passado.

No seguimento da saída do Dr Pedro Freitas do Hospital Júlio de Matos, e ainda com Íris Monteiro em plenas funções, marcou-me uma consulta com um psiquiatra, do qual não me recordo o nome, ainda jovem. E lá fui eu falar com o Sr Dr. A meio da consulta, da qual não tenho a data, pergunta-me ele: “Mas afinal porque é que lhe marcaram consulta comigo?”

Fiquei sem saber que resposta dar. Estava plenamente convencida que deveria ser o psiquiatra que trataria dos casos de transexualidade no hospital devido à saída do Dr Freitas. E o que lhe disse foi que tinha sido a Íris a marcar. Ele, coitado, lá me explicou que não tinha experiência nenhuma com pessoas transexuais e que ia contactar a Íris para saber os porquês. E a consulta acabou aí, e nunca mais o vi. Nem nunca mais tive contacto com qualquer psiquiatra lá.

Agora há datas que me faltam, mas a sequência dos acontecimentos está correcta. depois de algum tempo de espera, resolvi dirigir-me ao Júlio para pedir uma cópia do ofício em que tinha sido enviado o meu processo. Depois de me encontrar na posse da cópia, telefonei para o santa Maria para marcar consulta com o Prof Dr Rui Xavier Vieira, convencida que na altura da consulta o processo já lá estaria, visto as consultas serem quase sempre marcadas para um mês ou mais depois. Lá ma marcaram para daí a um mês e tal, e lá veio outro compasso de espera.

Nos entrementes, mais uma recordação. Quando ainda andava a fazer a segunda opinião com o Prof Dr Rui Xavier Vieira, e por sua ordem, estive duas manhãs e um dia inteiro a fazer testes psicológicos num piso lá para cima do Hospital. Nunca na minha vida tinha feito tantos testes de enfiada. Bem, mas fiquei a saber que possuo uma mente sã.

Veio a consulta e a minha confiança era tanta que assim que entrei no consultório retirei da minha mala a cópia do ofício e entreguei-lhe para ele ver. Com tanta sorte que, em vez de retirar o ofício (estava sem óculos) retirei um outro documento que nada tinha a ver. O Dr viu, e perguntou-me o que tinha ele a ver com o documento, e só aí é que vi o meu erro. Bem lá lhe entreguei o documento certo e nessa altura fiquei a saber que o processo não se encontrava lá.

Bem, fiquei desiludida, furiosa, zangada, uma mistura de emoções. Saí de lá e dirigi-me logo ao Júlio de Matos. Expliquei o caso e fui informada que a cópia do processo tinha sido enviada e que para enviarem outra vez tinha de ser o Prof Dr a requerer. Como já era tarde, regressei à base e uns dias depois, não me recordo bem de quantos, fui novamente ter com o Prof Dr para ver se ele requeria o processo. Durante esse tempo, ia telefonando para o Santa maria para ver se já lá tinha chegado. Cheguei a ligar para os arquivos, a ver se se encontrava lá arquivado por alguma razão, mas baldadamente. O processo não se encontrava lá. O Prof Dr recusou-se logo a pedi-lo, coisa de que já estava à espera. E fui para casa remoer. 

Nos entrementes, mais uma recordação. Quando tive alta do internamento da tromboflebite, começei a pensar como iria resolver o problema do tratamento hormonal. Qualquer pessoa que conheça um bocadinho sobre as pessoas transexuais sabe que a hipótese de parar com o tratamento está completamente fora de questão. Mesmo com risco de vida. Voltar atrás é que não. Nunca. Portanto depois de muito labutarem, as minhas pequeninas células cinzentas deram-me uma ideia. Para parar com a ciproterona e poder diminuir as hormonas só havia um caminho a seguir: os tintins (testículos) fora o mais rápido possível para evitar mais danos provocados pela testosterona que produzem.

Vai daí, num dia em que a Lara foi falar com o Dr Décio Ferreira, mandei recado por ela para a possibilidade de os retirar as soon as possible. O Dr Décio atenciosamente prontificou-se logo a fazê-lo assim que a Ordem dos Médicos o autorizasse. Ou seja a OM sobrepõe-se a tudo, mesmo ao bem estar de pessoas que ao serem forçadas a continuar o tratamento hormonal possam pôr a sua vda em risco. E com o andar da carruagem bem podia dar-me um piripac e ir desta para melhor de vez que os nossos grandes cirurgiões ficavam com a consciência bem tranquila protegidos pela autorização (ou falta dela) da OM. Gostei de ver o nível de preocupação demonstrado porquem tão ciosamente afirma a pés juntos ser um defensor das pessoas trans e do seu bem-estar.

Mais dias se passaram e decidi-me a ir ao Júlio de Matos falar com a psicóloga Catarina Soares pois sabia que também tratava destes casos, a ver se, ou ficava com o meu processo, ou arranjava maneira de o reenviar. Isto, entretanto, já em Junho deste ano, pois o tempo foi passando (não pára).

A Catarina Soares declinou logo o ficar com o processo (já tinha pedido o seu envio, não havia volta a dar) e foi procurá-lo para o mandar enviar registado e com aviso de recepção. Quando regressou com o processo, fiquei a saber que o mesmo tinha sido reenviado uma segunda vez, depois da minha ida ao hospital a indagar. 

Depois disto tudo, mais precisamente a 29 de Julho deste ano, fui com a Lara (que ia ter uma consulta com o Rui Xavier Vieira) ao Santa Maria, e aproveitei para perguntar por ela se o processo já lá estava. O professor novamente disse que não e perguntou porque razão não me davam o processo em mãos para eu o levar. Aproveitei o facto da Lara se dirigir à secção dos relatórios clínicos para pedir o seu para poder alterar finalmente o nome e género na sua documentação (já tem o processo concluído desde Novembro de 2007, data em que recebeu a autorização da Ordem dos Médicos para as cirurgias) e dirigi-me à secção onde o Santa Maria recebe o correio para ver se tinham registo da chegada dele. mas não, só se tivesse ido registado.

Com tudo isto veio o verão, mais um compasso de espera, pois no verão pára tudo (ou quase tudo). Em Setembro lá fui novamente tentar falar com a Catarina Soares, pois o processo insistia em não aparecer no Santa Maria. E foi quando fiquei a saber uma coisa interessante: das duas primeiras vezes o processo tinha sido enviado e devolvido pelo Santa Maria. As razões ignoro-as mas o não conhecimento de que o Prof Dr Rui Xavier Vieira dava consultas lá não me convence. Falei com a chefe da secretaria que muito simpaticamente me garantiu que o ia enviar uma terceira vez (a da Catarina que era para ter ido registado e com aviso de recepção nunca seguiu) registado e com aviso de recepção, e para eu lá ir na semana seguinte que me fornecia uma cópia do ofício.

Bem, lá fui na semana seguinte, recebi a cópia e dirigi-me ao Santa Maria para ver se já se encontrava lá. E, finalmente, lá estava ele.

Tinha demorado desde 29 de Junho de 2010 a 16 de Setembro de 2011 a ir do Hospital Júlio de Matos ao Hospital de Santa Maria. E a minha vida parada e a ficar cada vez mais velha.

Fim da segunda parte


Mudar de hospital: a luta: Parte I: a saga inicia-se

por transfofa quarta-feira, 28 Setembro 2011 00:40

Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe...

Num pequeno planeta num pequeno sistema solar perdido nos braços de uma galáxia em espiral, existiam pedaços de terra que emergiam da vastidão de um oceano. No extremo ocidental de uma dessas massas de terra vivia um povo em decadência, já muito longe dos seus tempos áureos. A capital desse povo chamava-se Lisboa. Eu vivia na periferia dessa capital.

Existiam dois hospitais na zona de Lisboa que tinham equipas para os processos de transexualidade: o Hospital Júlio de Matos e o Hospital de Santa Maria. No Hospital Júlio de Matos encontravam-se o Dr. Pedro Freitas e as psicólogas Íris Monteiro e Catarina Soares.Em Santa Maria, por exemplo, exerciam esta função o Prof. Dr. Rui Xavier Vieira e o Dr. Daniel Sampaio.

Iniciei o meu processo no hospital Júlio de Matos em Fevereiro de 2006,com a psicóloga Íris Monteiro e posteriormente com o Dr. Pedro Freitas. Em Dezembro do mesmo ano, inciei a 2ª opinião no Hospital de Santa Maria, a meu pedido, pois usualmente a 2ª opinião era feita nos Hospitais da Universidade de Coimbra, o que me levantava problemas económicos relativos à ignorada quantidade de vezes que me teria de deslocar a Coimbra, com o Prof. Dr. Rui Xavier Vieira.

Em Fevereiro de 2008 acabei as consultas da 2ª opinião. O relatório, esse, só o vi em Novembro de 2008 (tem a data de 7/11/08). Só para obter este relatório demorei mais de dois anos e meio. Curioso como por várias vezes o próprio Prof. Dr. Rui Xavier tem afirmado que o processo completo (com a 2ª opinião incluída) demora dois anos, quando só um relatório emitido por ele demora mais do que esse tempo. O normal, pelas informações que recebi, é serem entre uma a cinco consultas para a 2ª opinião, pelo menos nos Hospitais da Universidade de Coimbra. As minhas foram 13, salvo alguma que me tenha esquecido de apontar.

O processo própriamente dito roda todo à volta das cirurgias. A grande preocupação é que a pessoa tenha vontade em se submeter a elas. A identidade de género da pessoa não passa de um pormenor, um acidente de percurso. O foco são as cirurgias. São feitos testes para despistar posíveis doenças mentais que possam existir, sendo que no caso de existirem o processo é imediatamente terminado. Poder-se-à presumir então que a transexualidade fornece uma qualquer espécie de imunidade a qualquer doença psíquica? Sinceramente não me parece. A realidade é que não sabem diferenciar a transexualidade de uma doença psiquiátrica..Portanto mesmo que apesar de se ter uma qualquer doença psíquica poder-se ser transexual, essa realidade é automaticamente negada,

Curiosa também é a percepção que o psicólogo que me acompanhou na 2ª opinião teve do meu tratamento hormonal, Pedro Pechorro de seu nome. Eu iniciei o meu tratamento hormonal algum tempo antes de iniciar o processo (um ou dois anos, mais ou menos). A hormona que tomava chamava-se Premarin e mandava vir pela internet através de uma pessoa conhecida. Um belo dia decidi procurar na net informação sobre este composto hormonal, que efectivamente foi o que me desenvolveu o peito, e descobri um facto que achei deveras curioso: era sintetizado da urina de éguas grávidas. Nunca mais me esqueci disto e mencionei-o numa qualquer consulta como facto curioso. O resultado disto foi esta frase que consta do meu relatório de 2ª opinião: “(...) Diz que tem as mamas desenvolvidas porque bebia urina de éguas grávidas,”

Não preciso dizer que moro em Almada que nesta altura já se encontrava bastante urbanizada. Portanto estão a ver os problemas que teria: descobrir picadeiros ou outros sítios que tivessem éguas, saber se estavam grávidas e se alguma encontrasse nestas condições passar os dias atrás dela à espera que urinasse e guardar a urina bem acondicionada.

Levei o relatório para a psicóloga Íris, que notou logo que o mesmo não se encontrava assinado, entre outros problemas. Para encurtar uma história longa, depois de andar várias vezes entre os dois hospitais, que ainda demorou alguns meses, pois não podia fazê-lo todos os dias, e tinha de esperar amiúdas vezes por consultas, que podem espaçar um ou mais meses entre elas, lá consegui resolver o imbróglio.

Entretanto algumas coisas se tinham alterado no Hospital Júlio de Matos. O Dr Pedro Freitas, nos finais de 2007, tinha abandonado o Hospital Júlio de Matos para, soube-o posteriormente, ir para o ILAS (Instituto Luso Americano de Sexologia), entidade privada, onde, penso eu de que, continuou a trabalhar na mesma área. De notar que no Hospital Júlio de Matos tratava da parte de endocrinologia.

Como resultado, ficou o Dr Carlos Fernandes a tratar da parte endocrinológica.

A 24 de Março de 2009 fui internada na Cirurgia Vascular do Hospital Garcia de Horta com uma trombose venosa profunda illofemoral-popliteia total oclusiva na minha perna direita. Saí a 27 de Março e tive de parar o tratamento hormonal durante um ano. O nome vulgar é tromboflebite, e embora não haja causa-efeito. soube depois que a idade, o tabaco e o tratamento hormonal encontram-se entre as coisas que as potenciam.

No ano anterior, sensivelmente em Outubro, numa consulta com o Dr Carlos Fernandes, já com a minha intuição a querer dizer alguma coisa, perguntei se não seria boa ideia reduzir o tratamento hormonal para metade. Estava a tomar dois comprimidos de Zumenon e dois de Ciproterona 50mg por dia. Como resposta foi-me dito que se diminuísse as doses por metade só fariam metade do efeito.

Quer dizer, ninguém precisa de ir a um médico, qualquer que seja a sua especialidade, para ouvir que metade de uma dose qualquer de um qualquer medicamento produz metade do efeito. Penso que isso é obvio para toda a gente. O que eu quereria ouvir era, por exemplo “dada a sua idade e o facto de fumar, a minha opinião é que deve reduzir as doses para evitar possíveis problemas futuros”. Ou seja, dizer-me o que eu não sabia e não o que é evidente..

Depois de perder a confiança neste médico, porque a perdi, estive à volta de um ano com o processo parado devido à tromboflebite. Quando decidi que já tinha parado por tempo suficiente, regressei ao Hospital Júlio de Matos para retomar o tão abruptamente parado processo.

Mais novidades: a psicóloga Íris já tinha saído do Hospital para o ILAS, embora ainda lá fosse para não abandonar os seus pacientes. E os problemas começaram aqui, com as marcações para as consultas. Seria ela a marcar, mas não atendia telefonemas, ou seja, não havia maneira de a contactar. Enviei emails, pois entretanto arranjei um endereço de email dela, e nada, nem uma resposta, nem um contacto, o tempo a passar e o processo parado.

A última vez que a vi pessoalmente foi em Março de 2010, no Anfiteatro III da Faculdade de Medicina da Universidade Nova, no Campo dos Mártires da Pátria em Lisboa onde se deu uma conferência intitulada “MUDANÇA DE SEXO na clínica, no bloco, na pessoa” onde ela era uma das oradoras. Nessa altura contactei-a pessoalmente e ficou acordado que responderia aos meus mails e foi quando me deu o seu email . No Dia 22 de Março enviei o seguinte email :

“Bom dia Drª Iris

Como acordado aqui lhe envio este email com o pedido para que o meu processo seja transferido para o Hospital de Santa Maria. Assim, agradeço-lhe que o faça seguir com a maior brevidade possível, visto já ter estado mais de um ano sem qualquer avanço significativo. Penso que isto significa também que necessitarei que junto com ele siga o relatório da avaliação da equipa que me acompanhou no Hospital Júlio de Matos, que passará a ser a segunda opinião.

Assim, agradeço-lhe que me informe se necessitarei de tomar alguma acção, ou se a Drª pode tratar de tudo sem necessitar de mim.

Um beijo

Eduarda Santos”

Dia 24 de Março enviei um segundo email com o número do meu telemóvel que, embora soubesse de antemão que já o tinha dado, alguma coisa podia ter acontecido, mudar de telemóvel e o número perder-se, por exemplo. No dia 31 de Março enviei um terceiro email. Até hoje espero resposta.

O tempo foi passando, a Íris deixou de ir ao Júlio e eu e outras pessoas a ver o tempo a passar. O Hospital também se deixou ficar. Visto que houve a saída de um elemento, seria de esperar que os seus pacientes passassem para outro, Catarina Soares, por exemplo. Mas não. Saíu, saíu, e os processos lá ficaram a ganhar pó.

Não faço ideia porque motivo Íris Monteiro abandonou completamente os seus pacientes no Hospital Júlio de Matos, sem ter tido o cuidado de passar os processos para outra pessoa. Para mim não me parece uma decisão ética, no mínimo. Também o próprio hospital poderia ter tido esse cuidado, visto os processos estarem a ser feitos lá. Como impressão parece-me que o hospital não estará muito interessado em continuar com estes casos, apesar de continuarem. Mas o tratamento dado ao meu processo e a outros que sei estarem na mesma situação não me parece ser o indicado.

Também penso não ser necessário referir a implicação desses abandonos (Pedro Freitas e Íris Monteiro) para a obtenção do relatório para poder alterar nome e género. Já tenho 53 anos, estou desempregada há mais de um ano, já não recebo subsídios e agora que o governo tem um programa específico para desempregados de longa duração, estou encravada sem ter a quem requerer o dito relatório. Claro está que inscrever-me sem essas alterações está definitivamente fora de questão. Mas isto é para ser abordado mais para a frente.

Até que um belo dia me fartei de tanta falta de respeito por pessoas que têm a sua vida parada demonstrado pelo Hospital, e fui eu própria pedir a transferência para Santa Maria, pois nunca fugi de um desafio. Também não conheço na zona outro hospital que tenha estas consultas pelo SNS. O ILAS é privado, portanto só serve a quem tem dinheiro. Desempregadas ou vão para Santa Maria ou para o Júlio de Matos.

Fica aqui a denúncia de situações que acontecem e que raramente ou nunca são mencionadas, e exemplos da forma como muitos psiquiatras e psicólogos tratam as pessoas transexuais, um belo exemplo vindo de pessoas que afirmam sempre que estão lá para ajudar. Não considero estes exemplos como éticos nem como exemplos a seguir. Espero que ajude a alterar qualquer coisa no atendimento às pessoas transexuais.

Infelizmente este tipo de casos não são excepção. Acontecem muito. E continuam a acontecer porque quem se encontra a fazer processo tem sempre receio de que, se falam ou se reclamam, antagonizam os psiquiatras e psicólogos com as evidentes consequências para os processos, que ou ficam em banho maria ou é-lhes mesmo negada a sua transexualidade como retaliação.

No dia 29 de junho de 2010, com o número de saída 4479, o processo seguiu. Ou assim pensava eu.

Fim da primeira parte.

 


Queer Lisboa 15 - Participa e vai de borla ver cinema

por portugalgay quarta-feira, 14 Setembro 2011 15:43

PortugalGay.pt tem entradas duplas para o QueerLisboa 15.

Para concorreres tens de ser fã do PortugalGay.pt e do QueerLisboa no Facebook. Vai ao mural do PortugalGay.pt e diz qual das duas sessões gostavas de assistir, e porquê!

Dia 20 (terça-feira) - Mann Mit Bart (curta) + Romeos, Sala 1, 19h30
(participa até às 24:00 domingo)
http://www.queerlisboa.org/lxfilmfest/2011/queer_prog2x.asp?a=dia&t=20#D20_5F19_3A30

Dia 22 (quinta-feira) - Programa de curtas 2, Sala 1, 19h30
(participa até às 24:00 de terça-feira)
http://www.queerlisboa.org/lxfilmfest/2011/queer_prog2x.asp?a=dia&t=22#D22_5F19_3A30


Queer Lisboa 15 - Bilhetes já à venda

por portugalgay terça-feira, 13 Setembro 2011 23:55

Já estão disponíveis no São Jorge os bilhetes para o Queer Lisboa 15 (site oficial: www.queerlisboa.pt).

Cinema São Jorge
Avenida da Liberdade, 175
1250-141 Lisboa, Portugal

Metro Linha Azul - Estação Avenida

Para tornar a escolha mais simples visite o calendário gráfico exclusivo preparado pelo PortugalGay.pt:

Sala 1

Sala 2

Sala 3

Bilhete Normal - 3.50 EUR.

Bilhete com Desconto - 3.00 EUR (membros de associações LGBT devidamente identificados ou funcionários CML ou menores 25 anos ou maiores 65 anos).

Desconto de 20% na compra simultânea de 5 bilhetes para sessões diferentes.

Espectáculo de Teatro - 5.00 EUR (Preço único)


Queer Lisboa 15

por portugalgay terça-feira, 06 Setembro 2011 11:54

A partir de hoje está disponível o programa do Queer Lisboa 15 na versão PortugalGay.pt com pesquisa por dia, sala, categoria, etc, etc...

Tudo em www.queerlisboa.org.

De 16 a 24 de Setembro no São Jorge em Lisboa.


Grupo Transexual Portugal - Comunicado

por transfofa quarta-feira, 31 Agosto 2011 10:40

COMUNICADO

No dia 29 deste mês, o jornal Público, na sua edição em papel, publicou um artigo de opinião, transcrito de seguida a fim de informar quem não o leu.


“Igualdade de género ou falsa identidade
por Gonçalo Portocarrero de Almada
Se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?

Quem viveu conscientemente o 25 de Abril, talvez ainda conserve, entre outras recordações, a lembrança de uma canção revolucionária em que, a páginas tantas, se badalava:“ Uma gaivota, voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar”.

Como nunca mais ouvi aquela melodiosa voz, temi que, embalada por um tão sugestivo texto, a dita cançonetista tivesse mesmo voado para parte incerta. Ou que,tendo desafiado as leis da gravidade, a experiência lhe tivesse sido fatal. Felizmente nenhuma destas aziagas hipóteses se confirmou, pelo que é de supor que ainda esteja disponível para ser de novo a voz do PREC, ou seja, do processo revolucionário em curso. A sua histórica balada é, com efeito, um magnífico hino à nova e subversiva política da identidade de género em que o anterior Governo, à falta de mais urgente e necessária reforma social, tão entusiasticamente se empenhou, depois de ter empenhado, com indiscutível êxito, o país.

Entende-se modernamente que a identidade pessoal não deve ser aferida por circunstâncias objectivas, como eram antigamente o sexo, a idade, a altura e o peso, mas sim por um acto libérrimo da vontade de cada qual. Assim, se um macho quer ser ofi ialmente fêmea, o Estado obedece ao capricho do cidadão e falsifica, a seu bel-prazer, o respectivo registo de identidade. Portanto, pela mesma razão, se uma septuagenária, de um metro de estatura e pesando cinco arrobas, quiser ser oficialmente uma menina de vinte anos, de um metro e setenta e quarenta quilos, também deveria poder sê-lo, se de facto se sente tão jovem, alta e leve quanto o dito
sujeito se acha feminino. Ou será que o faz-de-conta é válido para o sexo, mas já não para a idade, a altura e o peso?

Mas, se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?! Se o sexo já não é algo objectivo e predeterminado geneticamente, por que o há-de ser a natureza? Se a mulher pode “virar” homem e vice-versa, por uma simples declaração de vontade, por que não pode ser alguém, como Fernão Capelo, gaivota?!

Quem não gostaria de obter, oficialmente, o estatuto jurídico de ave protegida?! Não passarinho, que releva alguma inferioridade, nem passarão, que sugere algum governante ou administrador de empresa pública, mas pássaro, como a gaivota da canção, para ser livre, livre de voar! Para além da isenção de impostos e a inimputabilidade penal, a condição aviária tem grandes vantagens também ao nível da viação que, neste caso, passa a ser, muito propriamente, aviação.

A estas e outras razões gerais tenho a acrescentar umagratificante experiência pessoal quase-aviária. No ano passado, ao sofrer um acidente, tive que esperar pela ambulância, no lugar do sinistro, cerca de uma hora. Porém, quando na urgência do hospital me colocaram uma pulseira colorida, fui logo objecto dos mais extremosos e diligentes cuidados médicos. Enquanto ser humano, mereci pouca atenção, mas assim que, graças à bendita anilha, me confundiram com uma ave, beneficiei de imediato da principesca protecção dispensada às espécies em vias de extinção. Uma pessoa pode ser negligenciada e até impunemente morta antes de nascer, mas um animal protegido não pode ser maltratado. Moral da história: humano nunca mais! Ser ave é que está a dar!

Um slogan revolucionário exigia: 25 de Abril sempre! Não chegámos a tanto, mas, de certo modo, pode-se dizer que agora, graças à famigerada igualdade de género, todos os dias são dias de 1 de Abril, porque são dias de mentiras. Talvez não fosse despropositado criar um dia
anual da verdade, em que cada qual, mais por via de excepção do que por regra, seja, muito originalmente, o que de facto é. 

Licenciado em Filosofia e vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família”


O grupo Transexual Portugal vem por este meio demonstrar o seu mais profundo repúdio pelas diatribes e falsas presunções escritas pelo autor Gonçalo Portocarrero de Almada no referido artigo de opinião.

Com efeito este senhor demonstra uma total ignorância sobre o assunto que foca. Parece ignorar que, para se aceder à alteração de nome e género na documentação oficial, a pessoa transexual tem de passar por uma infinidade de exames exaustivos durante muito mais tempo do que se pensa ou se quer fazer acreditar. Portanto, ao alterar o seu nome e género encontra--se apoiada num diagnóstico exaustivo e não num qualquer acto subversivo de um qualquer governo.

E já que foca o assunto, esse senhor ainda não reparou que o estado em que o país chegou se deve não tanto aos sucessivos governos que tivémos (PSD e PS) mas mais a um ataque concertado ao Euro? Espanta que um licenciado em filosofia não tenha reparado numa tal evidência.

Mais demonstra de seguida uma total ignorância e compreensão do que é a identidade de género e do seu papel como parte determinante no género de cada ser humano. Troca os valores, pois efectivamente é antes da mudança que a identidade é uma "falsificação".

Também confunde a identidade de género com masoquismo, pois uma pessoa que "por capricho" deseje tal mudança para passar o resto da vida a "levar" com "brindes" deste tipo e outras discriminações e mesmo ofensas psicológicas e à sua integridade física só pode ser masoquista mesmo. Portanto a afirmação do "capricho" é bem demonstrativa desta confusão e da ignorância que tem sobre o assunto. É que a identidade de género não é escolha nenhuma, logo não pode ser capricho.

Percebe-se bem a razão deste tipo de discurso, nomeadamente o saudosismo expresso embora de forma encoberta, pelos idos tempos de antes do 25 de Abril, quando se sabe que a pessoa em causa é padre, pormenor que se esqueceu de mencionar. E como se sabe, a Igreja tinha um papel relevante de apoio ao regime, com fábulas que indicavam que quase mais valia ser pobre do que ser-se rico. E como se sabe, com os constantes e ininterruptos casos de pedofilia no seio da dita, qualquer representante dessa instituição tem pouca moral para criticar ou ajuizar.

Isto a juntar aos factos da instituição ter ajudado criminosos nazis, no final da 2ª Guerra Mundial, a escaparem ao julgamento dos seus crimes, fornecendo documentação falsa a muitos que fugiram para a América do Sul, nomeadamente Argentina. Isto põe em dúvida a moral de qualificarem algo como "falsidades". Como se costuma dizer "quem tem telhados de vidro não atira pedras ao céu".

Tal como o autor, lamenta-se que não se possa mudar de espécie. Não que este senhor tivesse alguma espécie que o desejasse acolher, mas por ter de dividir a humanidade com pessoas deste calibre. Mas diga-se em abono da verdade que, pelo menos na imputabilidade e nos impostos quem assim fala encontra-se em muito melhor posição que a restante população portuguesa, não precisa ser pássaro para isso. Porque pássaro engloba inúmeras espécies e ainda podia acontecer que, em vez de se ser um Fernão Capelo gaivota podia ser-se um abutre.

Curiosamente mesmo as espécies de aves protegidas são mortas antes de nascerem, portanto ainda no ovo, entenda-se. Por outros predadores e mesmo por outras aves. Aconselhava este senhor a ver mais documentários sobre a natureza, não são difíceis de encontrar, ao fim de semana na SIC e nos canais por cabo da National Geographic e Odisseia.

Remata com uma alusão à igualdade de género que compara a uma mentira. Logo, como bom representante da instituição a que pertence, nega às mulheres os mesmos direitos que detêm os homens. Com efeito, e sem nenhuma razão plausível, é negado às mulheres, por exemplo, o direito do sacerdócio. Portanto obviamente que este senhor não pode aceitar a igualdade de géneros. Nem devia desejar um dia da verdade. Podia ser descoberto como um preconceituoso, cheio de ódio, mentalmente incapaz de acompanhar o evoluir dos tempos e das descobertas científicas, um verdadeiro saudosista do antigamente.

O grupo Transexual Portugal lamenta também que este tipo de pessoas tenha voz num jornal com a qualidade a que nos habituou o jornal Público. Considera que este tipo de discurso não contribui em nada para a manutenção dos níveis de qualidade a que esta publicação nos habituou. Muito pelo contrário, discursos deste tipo, que nada mais fazem do que expôr as limitações mentais, desconhecimento e preconceitos de quem os escreve não são dignos deste jornal, sendo mais indicados para pasquins ou boletins de grupos de extrema direita, nunca para um jornal que tem primado por uma isenção exemplar.

Pelo grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo

 


Despatologização da Transexualidade: Sim ou Não? O comentário

por transfofa terça-feira, 19 Julho 2011 05:37

Volta e meia soa o rugido de uma rajada de vento demasiadamente fresco para esta época do ano. Estamos a 17 de Julho e o tempo devia estar substancialmente mais quente. Se calhar a classificação portuguesa das agências de rating tem mais implicações do que poderia parecer à primeira vista.

Estamos a 17 de Julho. Ontem, 16, um debate sobre a despatologização da transexualidade aconteceu no Centro LGBT  em Lisboa, organizado pela rede ex aequo - associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes, em colaboração com o GRIT - Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transexualidade da Associação ILGA Portugal.

Como oradores estiveram na mesa Sérgio Vitorino, das Panteras Rosa, Paulo Côrte-Real em representação do GRIT, a psiquiatra Ana Matos Pires e a psicóloga Gabriela Moita.

Como representantes da comunidade transexual (afinal era de transexualidade que se tratava) esteve... ninguém. Nem uma pessoa na mesa era transexual. Num debate que até é importante para a comunidade, a organização optou por silenciar as vozes transexuais e dar relevo à psiquiatrização. Nota negativa.

Nem a desculpa que me foi dada por um membro da organização, que “há uma componente científica neste debate” serve como desculpa, quando toda a gente sabe que os cientistas não fazem a menor ideia das causas da transexualidade, e a esmagadora maioria nem compreende o que é ser-se transexual.

Delirante mesmo foi a desculpa de não se encontrar nenhuma pessoa transexual na mesa: que “não existem pessoas trans suficientemente familiarizadas com o tema ou que possuam discurso coerente sobre o mesmo”. Obviamente que, com a quantidade de questões postas pelas oradoras Ana Pires e Gabriela Moita, que levantaram inúmeras questões sobre  os mais variados aspectos interligados à despatologização, a intenção de exclusão por estes motivos como que “deu para o torto”.

Antes de comentar sobre o evento propriamente dito, sinto necessidade de expôr aqui a minha posição sobre o assunto, visto ter sido acusada por um elemento da organização de não ter “um discurso coerente sobre este tema” e de “nem sequer sei (o elemento) qual é realmente a tua (minha) posição sobre este assunto”.

É evidente que esta pessoa não acompanhou os debates via email que tive durante estes anos com inúmeras pessoas na mailing list das Panteras, nomeadamente com o Sérgio, mas também com muito mais gente que integra essa mailing list. Também não tem demonstrado interesse em debater comigo o assunto, portanto é natural que ignore a minha posição sobre o mesmo.

Esta conversa da despatologização da transexualidade iniciou-se há uns cinco, seis anos atrás com o início de uma campanha internacional denominada “STOP trans pathologization 2012”, destinada a excluir do rol das doenças mentais o transgenderismo e a transexualidade (como elemento integrante da comunidade transgénero). Este movimento cresceu ao longo do tempo, com várias associações e grupos transexuais, transgéneros, e LGBTs a aderirem ao mesmo. De um modo simples, consideram os integrantes da comunidade transgénero como tendo identidades próprias (identidades trans) podendo ou não estarem incluídas no binarismo de género (Masculino e feminino) defendendo a existência de mais géneros, e defendendo a exclusão destas identidades da classificação de patologias, específicamente da classificação de doenças psiquiátricas ou doenças mentais. Quem desejar saber mais sobre o assunto, contacte as Panteras Rosa.

Portanto é a partir deste movimento que se começou a falar sobre despatologização.

Na teoria, tal como Gabriela Moita explicou no debate, qualquer pessoa deve ter o direito à sua auto-determinação e a auto-afirmar-se como pertencente a um qualquer género, desde que comprove encontrar-se na plena posse das suas faculdades mentais. Quer isto dizer desde que não sofra de qualquer doença mental inibidora da sua capacidade de tomar decisões. Isto é evidente. E por consequência faz todo o sentido a retirada da transexualidade do rol das doenças mentais.

Basta pensar-se que, presentemente, para se obter um diagnóstico de transexualidade, tem de se fazer precisamente os testes necessários que atestem que não se sofre de nenhuma doença mental. Isto para depois se ser diagnosticado como sofrendo de disforia de género ou transtorno de identidade de género, que se encontra classificada como doença mental.

Os pontos discordantes que tenho em relação a este assunto começa logo por não considerar a comundade transexual como pertencente à comunidade transgénero. Não concordo nem aceito essa aglutinação que a maioria quer. Considero a transexualidade como específica demais para se encontrar misturada com especificidades que nada têm a ver com transexualidade. Isto não quer dizer per se que não apoio as reivindicações da comunidade transgénero. Longe disso. Só considero que a transexualidade deve estar à parte.

Este ponto é per si só relevante o suficiente para o não apoio da campanha? Não.

O segundo, e mais importante, é o facto de, despatologizando a transexualidade, correr-se o risco real de deixar de ser comparticipada pelos serviços de saúde de cada país. Basta pensar-se que a maioria dos países não comparticipa mesmo sendo considerada como doença, quanto mais deixando de ser considerada como tal. Em Portugal, por exemplo, com o presente governo de direita  e com a crise que atravessamos, esse risco é bem real mesmo com a presente classificação como doença mental.

Este ponto é per si só relevante o suficiente para o não apoio da campanha? Sim.

Mas, por exemplo, alterando a classificação de doença mental para condição médica, resolve alguns problemas: deixa de haver o estigma da doença mental que, e apesar de um participante afirmar que o problema não está na doença mental mas na maneira como ela é estigmatizada pela população em geral e que se deve é educar a população, o facto é que o estigma existe e vai continuar a existir a médio e mesmo a longo prazo. Basta pensar-se na homossexualidade e como ainda é tão estigmatizada hoje em dia, apesar dos avanços conseguidos, para se ver que, embora a intenção seja boa, na prática não o é. Portanto seria uma solução a (muito) longo prazo, não o que se deseja que é uma solução a curto ou médio prazo.

Libertamo-nos da ditadura dos psiquiatras e psicólogos, que farão o seu papel de comprovar unicamente que uma pessoa se encontra com capacidade de tomar as suas próprias decisões, saindo debaixo da alçada de Zucker’s e Cª Lª e dos seus congéneres nacionais.

E continua-se e ter o direito inalienável à comparticipação do SNS.

Para mim esta é a melhor solução e é isto que defendo como despatologização da transexualidade. Mais, Sérgio Vitorino, numa das suas declarações, reforçou a ideia de que a campanha, apesar de mencionar despatologização, defende é a retirada da transexualidade do rol das doenças mentais.

Quando for claramente declarada esta solução como proposta da campanha, apoiá-la-ei imediatamente. Até lá, não apoio a campanha, embora apoie o seu espírito.

Outro ponto em que discordo da campanha é o discurso que implica a existência de outras identidades outsiders do binómio masculino/feminino (ou homem/mulher). Não aceito a existência destas supostas identidades.

Este ponto é per si só relevante o suficiente para o não apoio da campanha? Não.

Eu vejo este assunto da seguinte maneira: imagine-se dois pólos opostos, um o masculino/homem, outro o feminino/mulher. Entre eles existe, por exemplo, uma graduação que, imaginemos, vai de 0 a 100, sendo 0 um extremo e 100 o seu oposto. Entre eles existe uma infindável graduação onde cada pessoa cabe. Pessoas mais masculinas ou mais femininas colocar-se-ão entre os dois extremos. Não vejo necessidade de se estar a complicar mais com invenções de géneros alternativos porque as pessoas sentem-se mais posicionadas num lado do que o outro. Deixemos as coisas como estão, com dois géneros, que como se pode bem comprovar, já dão “água pela barba”.

Curiosamente uma pessoa que segundo entendi era mãe de uma pessoa transexual, defendeu a existência de mais géneros. E numa declaração bombástica, afirmou que as pessoas transexuais desejam as transformações corporais não por elas mesmas mas para os olhos da sociedade. Bem, a minha vontade foi levantar-me e dizer-lhe que se ela julgava que eu fazia tratamento hormonal para os seus lindos olhos bem podia tirar o cavalinho da chuva.

Esta declaração só me provou como é difícil a compreensão da transexualidade por parte de pessoas não transexuais, mesmo sendo progenitores de uma pessoa transexual e mesmo dando apoio a essa pessoa. Esta mãe não entende que as transformações corporais somos nós que as desejamos para nós, não para terceiros verem. Isto não obsta, evidentemente, que com as transformações venha o desejo de sermos reconhecidos do género a que sabemos pertencer. Eu digo até que este desejo existe mesmo sem transformações corporais.

O debate propriamente dito teve a seguinte fórmula: iniciou-se com algumas questões formuladas pela moderação aos oradores, uma pergunta a cada um, à vez. Este modo de se iniciar o debate teve, aliás, um problema -  em cada questão formulada só se fica a saber a posição/opinião de um dos oradores.

É minha opinião que o debate devia ter sido feito noutros moldes: um início pela moderação explicando o que é a despatologização, uma breve história de como apareceu, e depois as perguntas deviam ter sido feitas aos oradores, mas a todos as mesmas perguntas, não uma pergunta diferente para cada orador.

Talvez por recearem falta de tempo, ou por qualquer outra razão, a opção foi de uma pergunta a cada orador. Bem, foi uma opção, não a que eu teria escolhido, mas foi a escolhida.

Sérgio Vitorino, pelas Panteras Rosa e assumindo o discurso pelos activistas, defendeu a despatologização. É uma posição já sobejamente conhecida das Panteras Rosa.

Paulo Côrte-Real, em representação do GRIT, defendeu a continuidade da psiquiatrização da transexualidade, por as pessoas transexuais terem problemas psicológicos pela transexualidade.

Perguntei-lhe se defendia o mesmo para as pessoas homossexuais que tenham problemas derivados da Homossexualidade, disse que sim. Ora a homossexualidade já deixou de ser considerada como doença. Isto não impede de modo nenhum que homossexuais com possíveis problemas de auto-aceitação, de auto-estima, ou outro problema qualquer derivado da homossexualidade tenham consultas.

Portanto, do mesmo modo, uma pessoa transexual na mesma situação, portanto com problemas derivados da transexualidade, também pode perfeitamente ter o mesmo tipo de acompanhamento sem necessidade nenhuma da transexualidade se encontrar classificada como doença mental.

E isto porquê? Porque nem a homossexualidade nem a transexualidade são doenças. Basta pensar-se que não há nenhum tratamento para a transexualidade, tal como para a homossexualidade. O que se trata são possíveis problemas advindos do facto de se ser transexual/homossexual (depressões, falta de auto-estima, etc.). Do mesmo modo não há nenhum teste clínico ou psiquiátrico que defina a pessoa como transexual/homossexual.

Qualquer pessoa pode verificar isto: o que se faz é ver se a pessoa tem algum problema psíquico. Quando não se tem e a pessoa continua a insistir que é, então deve ser. Isto é o que os psiquiatras fazem. Não tratam a transexualidade pois nada há a tratar. O diagnóstico é feito na base de não se ter nenhuma doença mental. Não se tem então ok, é transexual.

Esta abordagem sempre me pôs uma questão: porque razão não pode haver uma pessoa transexual com alguma doença psiquiátrica, tal como existem pessoas cissexuais com essas doenças? A transexualidade á alguma imunidade a outra qualquer doença psíquica?

O facto é que, e isto é prova de que os nossos psiquiatras e psicólogos não fazem ideia do que é a transexualidade, se alguma pessoa transexual tiver o azar de sofrer de alguma doença psíquica, vê os seus direitos imediatamente eliminados, bem como o seu reconhecimento e a sua identidade como pessoa transexual. Isto é grave, mas nunca se fala, é tabú.

Portanto a posição do GRIT é psiquiatrizante e estigmatizante. Não foi apresentado um argumento que não possa ser rebatido.

Gabriela Moita teve um discurso coerente com as suas ideias, embora, e de certeza com desagrado da moderação, tenha levantado mais questões do que muita gente esperava. Tal como eu disse a um elemento da moderação no Facebook, “tenho por costume questionar sempre tudo e todos, sejam a favor seja contra alguma coisa, mesmo questionando o que apoio. Não acho que existam verdades absolutas e inquestionáveis. E é graças a estas questões e às respostas dadas que vou formando a minha opinião.”, quando me acusaram de não ter um discurso coerente por, e cito, “Tanto te demonstras contra com toda a veemência, como te demonstras a favor. Tanto entras em conflito com quem está a favor, como com quem está contra... “

Bem, com a quantidade de questões formuladas por Gabriela Moita, a moderação deve ter ficado com algum amargo de boca, pois parece que não sou só eu a questionar.

Ana Matos Pires teve um discurso talvez um pouco ambíguo. Fiquei sem saber qual a sua posição em relação à despatologização. Tanto parecia que apoiava como que era contra. Ou então fui eu que não percebi. Se calhar aconteceu o mesmo que aconteceu comigo, não se percebe qual a minha posição.

Por falar nisso, em relação à psiquiatrização forçada (felizmente) não tenho uma posição ambígua: sou frontalmente contra. Quem sentir necessidade de ter consultas psiquiátricas deve ter. Mas forçarem quem não tem problemas com a sua transexualidade a anos e anos de consultas é um abuso e vai contra os direitos humanos das pessoas, seja pela transexualidade, seja por outra razão qualquer. Despsiquiatrização da transexualidade é, quiçá, mais importante do que a despatologização.

O Dr. Décio, na sua intervenção, veio novamente com o fantasma da comparticipação dos serviços de saúde (e seguradoras, embora que eu saiba as seguradoras em Portugal não cobrem este tema, mas sem certeza), no que concordo com ele, não concordando no entanto com a manutenção das coisas como estão, que me parece ser a posição dele. Atrás já defini qual a minha posição em relação a este assunto.

Houve também uma intervenção de uma pessoa transexual, que pelo que percebi defendia a manutenção da patologização e da psiquiatrização, mas que às tantas começou a confundir-se até que se calou. Foi esta a impressão com que fiquei da sua intervenção, não faço ideia se efectivamente defende estas posições ou se se explicou mal .

Este é um problema deste tipo de debates, fica muita coisa por questionar, as respostas a algumas perguntas ou intervenções levantam mais questões que ficam por responder e/ou esclarecer. Prefiro muito mais um debate em mailing lists, onde existe tempo para se questionar o que se quiser, tempo para se esgrimirem argumentos, não há limitações de deslocamentos, de espaços e pode-se responder ou questionar em qualquer altura.

Tive boas experiências desta maneira, em algumas mailing lists (bem, pelo menos numa, antes de se acabarem os debates na dita, que hoje em dia se encontra reduzida a anúncios de eventos e notícias (poucas). Mas isto são opiniões.

E penso ser tudo o que há a dizer sobre este debate. Os meus parabéns aos organizadores por (finalmente) trazerem este assunto para a ordem do dia.

Um lamento pela fraca assistência transexual num debate que penso ser importante para toda a comunidade (que eu tivesse contado estivémos meia-dúzia, mas não conheço toda a gente, obviamente) e que se desejava ter tido uma afluência transexual mais alargada.

Como se pode ver, a minha posição incoerente é a de não apoiar a despatologização da transexualidade por um único ponto (existem mais mas não são importantes o suficiente para não apoiar).

Quando considerar esse ponto resolvido (internacionalmente) vou ser incoerente mais uma vez a apoiar a despatologização da transexualidade.

Saudações incoerentes de uma transexual incoerente a quem leia este conjunto de incoerências.

Eduarda Santos, 17/18 de Julho de 2011
Nota: segundo informação da organização, Paulo Côrte-Real não representou o GRIT mas somente a sua pessoa, e Sérgio Vitorino também não representou as Panteras Rosa.


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