por portugalgay
sexta-feira, 16 Setembro 2005 12:04
Artigo de Opinião de Nuno Pacheco publicado no Jornal Público de 16 de Setembro de 2005.
Liberdade poluída
Nuno Pacheco
Se os automóveis poluem a Liberdade na avenida, os auto-intitulados nacionalistas vão poluí-la um pouco mais acima, no Parque Eduardo VII
A notícia não é nova, mas ressurgiu ontem: a lisboeta Avenida da Liberdade é a zona mais poluída da Europa. Automóveis em excesso e um trânsito infernal contribuíram para tal "triunfo", que agora lhe valerá umas lavagens diárias e mais uns estudos técnicos, a ver se acertamos com as normas comunitárias relativas à emissão de partículas poluentes. Mas a poluição desta Liberdade viária tem, amanhã, um forte concorrente uns largos metros acima. Trata-se da manifestação "Defendamos as nossas crianças contra o lobby gay e a pedofilia", convocada pelo Partido Nacional Renovador (PNR), com todos os seus fiéis atrelados, onde se inclui a Frente Nacional (FN). Só que, aqui, a Liberdade a poluir é outra: é a de todos os portugueses que, mesmo nos piores momentos, ainda se orgulham de o ser, sem precisarem de "mestres" iluminados ou ditadores de pacotilha.
A conversa é antiga, germina na lama, e começa sempre do mesmo modo. Primeiro, os alvos são escolhidos entre os que eles consideram "anormais", "imorais" ou ameaças à pátria: homossexuais, imigrantes, minorias étnicas, artistas "decadentes" e outros chavões do género. Depois, quando lhes crescer a força, virão todos os que, por defenderem a democracia e o livre-pensamento, são considerados anarquistas e defensores do "caos social". Por fim, serão todos os cidadãos cuja alma não caiba no cangaço dos ditadores. Eles negam, é claro. Mas nas entrelinhas das suas mensagens públicas, e mesmo até nas linhas mais explícitas, lá estão os pequenos ovos da mesma velha serpente: o facho azul e vermelho sobre umas quinas de estética fascista no cartaz-símbolo do PNR; o desejo de um "governo verdadeiramente patriótico que promova valores em vez de proveitos, trabalho em vez de passeatas" (discurso populista de efeito fácil, já usado com êxito por vários candidatos a ditadores); a "unidade da pátria e das suas gentes", bandeira falaciosa para encobrir o desejo de um Portugal soturno e de novo fechado ao mundo.
No site da Frente Nacional, que se apresenta a si própria como uma legião de activistas de cérebro voluntariamente desligado (a FN, escrevem, "não faz doutrina política, apenas promove o activismo nacionalista. Deixamos a política para quem de direito"), diz-se a dado passo o seguinte: "Desde o final da Segunda Guerra Mundial que o nacionalismo é extremamente perseguido e marginalizado na nossa sociedade, devido à campanha permanente de propaganda. Os nossos inimigos têm conseguido separar-nos do nosso povo." Conseguem adivinhar porquê? Recuem 60 anos e revejam os horrores do nazismo, das perseguições e deportações em massa, do Holocausto. Demagogia, dirão os "nossos" nacionalistas. Porque, eles próprios o dizem, a ideia é pôr "os portugueses primeiro!" E, como diz o tal partido-cérebro, de onde sairia naturalmente o déspota a impor à pátria, desejam "um novo rumo para Portugal". Perfeito. A começar por esta frase, escrita pela FN no seu site: "Sem dúvida que "o trabalho liberta" e este trabalho ajuda a libertar todo um povo, o nosso povo!" Por curiosa coincidência, "O Trabalho Liberta" ("Arbeit Macht Frei") era a consigna que encimava a entrada do infame campo de Auschwitz, sinistro símbolo de um dos períodos mais terríveis e sanguinários de toda a nossa história. O discurso destes "libertadores" pode, por isso, poluir mais que o fuel que respiramos.