Irritação Nacional - Direito de Resposta

por portugalgay domingo, 16 Março 2008 13:15
Bom dia,

Foi com surpresa e, alguma irritação, que li no seu artigo de opinião publicado no DN de hoje, 16 de Março de 2008, o parágrafo:

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Ao longo da legislatura [...] aparentemente pelo gozo de continuar a irritar
meia Espanha, aprovou o casamento de homossexuais [...]
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Compreendo que possa usar figuras de estilo de forma mais ou menos feliz, mas não compreendo como é que um sociólogo pode afirmar que Zapatero teve o gozo de irritar meia Espanha quando os factos sociólogos mostram o contrário.

Como deve estar esquecido, recordo-lhe que o Eurobarómetro 66 (disponível on-line em http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/eb/eb66/eb66_en.htm), uma publicação da Comissão Europeia dedicado à Opinião Pública na União Europeia e com dados de finais de 2006 questionou os espanhois sobre se:

"O Casamento Homossexual deve ser legalizado em toda a Europa"

E as conclusões foram:

56% concordam com esta afirmação
31% estão contra esta afirmação
13% não responderam

Daqui se percebe que não é "meia espanha" nem nada que se pareça que ficou irritada com esta política de Zapatero. Ou se ficou irritada, então está cheia de vontade de irritar o resto da europa o que, depreendo da sua perspectiva sociológica, é bem provável.

Grato pela atenção,

João Paulo (alguém que gostaria de ter o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo reconhecido em Portugal)
jpaulo@portugalgay.pt



Dias Contados

Alberto Gonçalves
sociólogo
albertog@netcabo.pt

VIVA ZAPATERO?

Em 2004, as eleições espanholas foram precedidas pelos atentados de Madrid. O governo do PP, que alertara para o perigo islâmico, que o combatera no Iraque e que à última hora se atrapalhou a fingir que a culpa era da ETA, foi derrotado. Em 2008, as eleições foram precedidas do atentado em Mondragón. O governo do PSOE, que negociara com uma ETA em frangalhos, que permitira a reorganização dos criminosos bascos e que, em cima das urnas, se atrapalhou a fingir que o combate ao terrorismo era uma prioridade socialista, foi reeleito. A história deve ter uma moral que me escapa.

Os factos não escapam. E os factos são os seguintes: apesar dos esforços de uns optimistas para se convencerem do contrário, Rajoy perdeu; apesar dos esforços dele próprio para conseguir o contrário, Zapatero ganhou. Sempre que os foguetes rebentam antes, Zapatero faz a festa depois. Da primeira vez, talvez a merecesse. Da segunda, nem por isso.

Ao longo da legislatura, e além de ressuscitar a ETA, o homem que fundamentou parte da campanha no formato das suas sobrancelhas abriu as portas à autonomia da Catalunha (e do que calhar), desenterrou os fantasmas da guerra civil e, aparentemente pelo gozo de continuar a irritar meia Espanha, aprovou o casamento de homossexuais e um programa de educação "cívica" que raia o cómico. Na política internacional, aproximou-se dos rústicos tiranos da América Latina e, à margem da Europa actual, afastou-se dos EUA. E até a economia, radiosa durante anos, decidiu nos últimos meses afundar-se. Eis um legado, a renovar por quatro anos graças aos votos bascos e catalães.

Para os entusiastas, Zapatero é um paradigma da modernidade, uma bolsa de resistência ao "imperialismo" e um luz apontada às trevas da Igreja. Para os críticos, trata-se de um radical que, com relativa contrariedade, cede às regras do mercado e, com vasta irresponsabilidade, consola a irreverência juvenil no resto. Mesmo uma perspectiva moderada concederá que a Espanha que conhecemos já teve melhores dias e mais promissor futuro. É com eles? Não é.

A reeleição de Zapatero, que garante a permanência e, suspeita-se, o aprofundamento da implosão espanhola, parece uma péssima notícia para o cantinho dependente que é Portugal. Em compensação, parece uma óptima notícia para o eng. Sócrates, feliz pelo sucesso de um dos seus "melhores amigos pessoais". Quanto ao nosso dilacerado coração, balança entre o que é bom para a pátria e o que é bom para o eng. Sócrates. Isto partindo do cínico princípio de que há uma diferença.

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