Estamos na recta final do festival, hoje já é quinta-feira, e o festival acaba depois de amanhã, mas a programação ainda reserva-nos bons momentos de cinema, e outros menos bons, mas isto é um festival e têm de ter um pouco de tudo para todos os gostos.
Westler
Este sétimo dia iniciei-o só ás 17:30, com um filme representativo da vida na Alemanha oriental, onde os do ocidente podem atravessar o muro para visitar o oriente mas o contrário é impossível. Aquilo que começa por ser apenas uma visita de dois amigos ao outro lado transforma-se não só numa relação de amor para um deles, mas também de tomada de consciência da falta de liberdade dos que vivem do lado de lá do muro. Félix é o visitante e Thomas o residente. Félix passa a visitar Thomas com a maior frequência possível, mas dado que existe o recolher obrigatório tem sempre de voltar a casa cedo. Além disso, as suas visitas frequentes levantam suspeitas na polícia a ponto de isolarem Félix na alfândega e o despirem sem justificação, sem perguntas, e por isso sem respostas. Félix sente na pele a repressão em que Thomas vive. Terminamos com a expectativa de que numa viagem autorizada de Thomas até Praga, o caminho para a liberdade continue, mas ficamos com a certeza que a liberdade dele é o fim da relação de ambos pois Thomas não quer sair do seu país.
Intimidade de Shakespeare y Victor
Hugo
A velha tem pinta, é uma mulher vivida, e que viveu bem, conta-nos a história do hóspede de outros tempos de seu nome Jorge. Um menino sem instrução, mas que pintava e sabia coisas sobre a escrita e a literatura. Coisas que não se esperava ele saber… era até pintor, e das obras que vimos no filme, diz-nos que seria um artista de mão cheia. E tudo corria bem até ao dia em que os arrumos do telhado pegaram fogo, e Jorge ficou queimado, acabando por morrer, porque não resistiu ás queimaduras. É depois deste incidente que a dona da casa fica a saber onde ia Jorge todas as noites, e constata a triste realidade de que Jorge era o assassino que andava a deixar as mulheres do México em sobressalto. Jorge saia de noite para matar, estrangulando-as, e por norma mulheres que eram mães solteiras. Claro que nenhum acto justifica que se tire a vida de alguém, mas pode no mínimo explicar. Jorge foi deixado pela mãe (solteira) num seminário, mais tarde casa e tem dois filhos e nessa altura lembra-se de ir buscar Jorge, contudo não o deixa entrar em casa, ele não fazia parte daquela família, dá-lhe, de comer, trata da sua roupa, mas deixa-o a dormir fora da porta numa tábua. Talvez por isso Jorge, o assassino de mulheres, deixa-se as vítimas debaixo da cama das mesmas. Uma história que embora triste, é contada de uma forma leve e até lamenta que alguém tão fantástico, carinhoso, e talentoso, tenha sido tratado assim, e se tenha tornado alguém tão revoltado a ponto de matar.
Strella – A Woman’s Way
O que é uma família? Pai, mãe e os filhos? Nope! Hoje como antes a família é aquilo que as pessoas envolvidas querem que seja, dizia eu há dias que as famílias podem tantas as cores como as pessoas que as compõem. E foi isso que se viu em “Strella – A Woman’s Way”, um filme rodado na Grécia. Yiorgos foi preso durante 15 anos, deixando um filho que decide procurar quando sai da prisão. No caminho encontra uma mulher transexual, por quem se apaixona e vive um romance, ao mesmo tempo que vai investigando o paradeiro do filho. Descobre alguém com o nome de família que é policia e pensa que esse é o seu filho, crente dessa descoberta ai á terra onde residia antes da sua detenção onde vai descobrir uma verdade perturbadora: o seu filho é agora uma mulher transexual… coincidência? Não… afinal essa mulher é Strella o que origina um drama que se resolve eventualmente… com uma nova família (com novas adições pelo caminho) todos juntos vivem a primeiro passagem de ano, uma passagem para o futuro, animado diga-se, de uma nomenclatura familiar colorida, guerreira, determinada, mas recheada de amor.
Tearoom
Terminamos com “Tearoom” embora a tradução nos possa inspirar um qualquer bar, ou salão e chá onde encontros se poderiam dar para belo prazer de pessoas homossexuais, Tearoom é na verdade um pesadelo, vivido por algumas pessoas homossexuais que viveram num tempo de repressão e perseguição por parte das autoridades policiais de então. A policia de Mansfield, no Ohio, numa campanha contra sexo em público, ou em espaços públicos, aquilo que na verdade era uma perseguição às pessoas homossexuais. O realizador conseguiu obter essas imagens dos arquivos da policia, e quase sem lhes mexer, editando apenas a ligação de cada tempo de filmagem, e mostrar aqueles que visitavam um WC no sentido de terem sexo com outros homens.
Destaco três pontos desta violação de privacidade impensável hoje em dia num país civilizado.
1. O facto de alguém decidir filmar alguém no sentido de prejudicar, humilhar, condenar outros.
2. Depois o quanto humilhante deve ter sido ver estas imagens numa sala de tribunal, com familiares, vizinhos, e pessoas da cidade.
3. Reparei que cerca de 90% das pessoas filmadas tinham aliança, logo casadas. Se pensarmos que nos anos sessenta era imperioso um homem casar depois da tropa, ou mesmo antes, não seria de esperar outra coisa.
E por último o que foi que a sociedade ganhou com esta situação? Famílias que até então iam vivendo confortavelmente, penalizando apenas uma das partes, com este processo de humilhação acabou por penalizar todos, desde as esposas, aos filhos, tivessem a idade que tivessem, podemos facilmente imaginar o estigma social que estes devem ter sentido depois do seu marido e pai ter sido julgado por actos homossexuais em público.
Mas a bem da verdade ainda hoje a vivemos na luta pelos direitos humanos, o direito á felicidade, á vida, ao AMOR.