Na passada quarta-feira, dia 9 de Dezembro, fez 14 anos após ter conhecido aquele que comigo, e eu com ele, partilho uma vida a dois, 14 anos, não são catorze dias, ou meses!
Foi um mês de cada vez, foi um namoro falado, discutido, mas muito amado! Assim e porque não temos filhos, comprei uma árvore, nomeadamente um pinheiro, o qual vamos plantar num vaso grande na nossa varanda, no terraço contrario ao dos cães se não o Júnior chamava-lhe um figo, com ele só mesmo cactos sobrevivem dentro dos vasos.
Mas estas coisas dos aniversários não tem o dom de fazer parar o tempo, e por isso a vida continua, e o país precisa de quem quer de facto trabalhar e não de quem tire licenças, ou apresente baixas, para ir ás compras ou ter um dia diferente, e por isso o maridão foi para o trabalho dele e eu fiquei no meu, vantagens de trabalhar a partir de casa.
E foi ele que me disse: "já tinhas visto isto da Fernanda Cancio?" … até li, e até escrevi sobre o assunto, mas como muito bem sabe algumas pessoas que comigo já se cruzaram, eu gosto sempre de ouvir os dois lados (não é Tété?), e não estava descansado sem ler o que Dona Isilda havia de facto redigido. Mas era dia para descontrair um pouco. Por isso fiquei a "ruminar" na coisa e fui ás compras, a vida de "dona" de casa também tem compras.
Foi aí que decidi que precisávamos de uma árvore de Natal, artificial claro está, e foi aí que comprei o pinheiro para plantar.
Depois chegado a casa e após arrumar as compras, fui montar a árvore nova, ficou linda... o tempo voa, e estava na hora de ir ao ginásio, encontramo-nos lá, depois disso o jantar algo apressado porque o marido ainda tinha trabalho até ás 23:30, enquanto
isso fui para casa, ver as noticias do mundo. Até fiquei a saber umas coisas. Por exemplo que em New Jersey a lei do casamento estava a ser debatida por um comité jurídico e até tinha passado nesse comité, e que perante esta avaliação o Governador disse que assinava se a lei chegasse à mesa dele em tempo útil, e tudo isto sem referendo (lol, esta malta está tonta, então não sabem que tem de levar isto a referendo?) ai a nossa vida, estes (norte) americanos querem agora obrigar as pessoas a casar sem falar com elas!
Mas depois vi que os senhores até tem sapiência, pois dizia um dos senadores proponentes da alteração da lei de casamento civil, que não é todos os dias que temos oportunidade de melhorar a sociedade e a forma como tratamos os outros. E que estas oportunidades acontecem poucas vezes na nossa vida, se é que chegam a acontecer.
Mais á frente diz ainda que "as pessoas que se opõem ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, não são pessoas más ou cruéis, mas as leis que não permitem esses casamentos, oferecem abrigo seguro para aqueles que o são [cruéis e ruins]. A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo eliminará esse abrigo e, consequentemente, tornará a nossa sociedade mais compreensiva e inclusiva", penso que nem Zapatero teria dito melhor, ou disse?
Como era o nosso aniversário decidimos ir beber um copo num bar aqui da cidade do Porto, onde por acaso ia acontecer o espectáculo de um amigo de quem sou fã.
Natasha Semmynova, na segunda edição dos seus dez anos de palcos. Sou suspeito para falar deste jovem, afinal por gostar dele, do seu trabalho, costurei para ele algumas peças de vestuário, para ele apresentar nos seus números. Mas aquilo que dele ouvi nessa noite, fica para os presentes na sala, e cada um espalhe como bem entender.
Confesso algumas movimentações nas últimas semanas de exploradores de causas ao invés de activistas que servem causas, me tem deixado em baixo. Assim as palavras do Vítor/Natasha foram recebidas como água cristalina e fresca dada a um moribundo perdido no deserto (música dramática de fundo).
Vítor/Natasha, não tens ideia do bem que fizeste! Pelas palavras de conforto pela minha dedicação, pelas palavras de aplauso ao meu trabalho enquanto PortugalGay.pt e Porto Pride, bem haja meu lindo. Uma das coisas que disseste foi "hoje em dia qualquer um dá a cara, o difícil é manter-se lá de cara descoberta". Vou dizer-te porque é assim tão difícil, principalmente numa causa destas: porque se perde muito, principalmente quando se debate a causa com o coração e a cabeça.
Mas passemos à festa: foi uma noite fantástica, diria mesmo melhor que a primeira edição dos dez anos da Natasha Semminova, especialmente devido ao momento mágico em que Natasha - a pedido do público - cantou à capela "Llorando", na versão de Rabekah Del Rio, uma música que faz parte do filme de David Lynch, "Mulholland Drive".
E assim foi um dia fantástico, o dia em que á catorze anos atrás conheci a melhor pessoa do mundo, o meu amigo, companheiro, o meu maridão.
Mas no dia seguinte de manhã lá fui à net buscar o texto da Senhora Jurista Isilda Pegado. Li o dito, acompanhado do belo de um café, num espaço público mas tranquilo ás primeiras horas de funcionamento, e fiquei a precisar de uma água, e assim fui buscar a dita, com gás como é óbvio, pois logo no primeiro parágrafo a senhora supreendeu-me: não esperava um apelo tão forte ao tradicional casamento entre menores (entenda-se menores de 16 anos). Não sabia que era essa a proposta da alteração da lei, porque se for não participo.
Mas também fiquei a saber que os Direitos Humanos são um "fantasma", e não uma coisa séria. Como já disse Fernanda Câncio não se referenda esta como não foram referendadas outras alterações ao casamento. Como, por exemplo, as mulheres deixarem de ser propriedade do marido. Não se perguntou ao povo (aos homens em geral? aos homens casados? aos homens casados com filhos?) se concordavam com a medida. Fez-se e pronto: as mulheres ganharam mais um degrau na liberdade individual e na igualdade.
A senhora vai buscar até a comunidade muçulmana quando esta não se manifestou interessada em que o Estado Português altere a lei do casamento, de forma a reconhecer o casamento poligâmico, pelo que a senhora está confusa, propondo mais que aquilo que está em discussão. Curiosamente não falou dos cristãos Mormons aos quais o casamento poligâmico é tão querido...
Também não me parece que saiba o que é ser-se católico, porque um católico que preze a sua fé religiosa, casa sempre pela Igreja (e pela lei, simultaneamente pelo civil se não tiver sido celebrado antes). Logo esse "casamento" é indissolúvel, a menos que outros valores se levantem e aquilo que era deixa de o ser.
Senhora jurista as coisas estão mesmo mal para esses lados, na discussão que decorre em New Jersey, uma sua colega disse o seguinte: "O direito de saber que quando o seu parceiro estiver doente, ou quando o seu filho estiver doente, não terá de lutar com burocratas sem nome através de um advogado. O direito de comparecer à reunião de pais na escola sem ter que apresentar desculpas ou explicações. O direito de usar uma aliança de casamento e gozar da dignidade plena e reconhecimento que vem com aquela palavra mágica, casamento, justamente como eu e o meu marido o fazemos. Neste país, não concordamos com o direito civil de alguns e metade do direito civil de outros."
Vá lá doutora, faça um "update" (ou "actualização", se preferir), já reparou que é uma mulher livre e formada, e essa liberdade não foi a referendo?
Mais á frente a Drª diz que "Ou há um grupo que impõe a sua visão à sociedade?", e a resposta é simples e óbvia: a visão da sociedade do casamento civil afastou-se há muito da visão do casamento religioso. A sociedade recusou os casamentos arranjados para perpetuar património e passou a valorizar o casamento por amor. E no meio disto temos um pequeno grupo de pessoas que acham que não... que isto do casamento por amor e os afectos está tudo mal... o que interessa é o casamento para procriar.
Portugal está de facto numa "situação impar": ainda tem muitas facções da sua sociedade que estão à espera desse tal de 25 de Abril. Mas no que tem a ver com a lei em questão estaremos tudo menos numa "situação impar" pois já são muitos os países que consideram os seus cidadãos como cidadãos de pleno direito, o que faz que não estejamos "Orgulhosamente sós".
Agora que penso no assunto... quantos países fizeram um referendo sobre a questão do casamento civil? Os únicos referendos que tive conhecimento aconteceram nos diversos estados dos Estados Unidos da América e alguns desses, no seu fervor religioso, chegaram ao cúmulo de potencialmente acabar com todos os casamentos(!).
Daqui se vê que nem sempre as coisas dos referendos correm bem... e não é só para os que vão votar... é para todos os casais a que se aplique o resultado do referendo.
Termino de forma pessoal, porque afinal este post é sobre o dia do meu "casamento". espero que de uma vez por todas o Estado Português queira de mim mais que os meus impostos, queira também brindar-me com o respeito e a dignidade que enquanto ser humano me é devido, e possa deixar de dizer que estou "casado" entre aspas, e o diga abertamente e com o orgulho de fazer parte de um país que, aos poucos é verdade, está a dar passos decisivos pelo respeito dos seus concidadãos.
E a bem da verdade já somos muitos os casais quer de homens quer de mulheres à espera da lei para fazermos uma festa, a festa do nosso casamento.