Nota da ABGLT (Brasil) sobre a exclusão de homossexuais do sacerdote católico

por portugalgay sábado, 01 Novembro 2008 01:27

A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), entidade de abrangência nacional que congrega 203 organizações congêneres, e cuja missão é promover a cidadania e defender os direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, contribuindo para a construção de uma democracia sem quaisquer formas de discriminação, afirmando a livre orientação sexual e identidades de gênero, vem a público expressar indignação diante da atitude discriminatória do Vaticano em avaliar candidatos ao sacerdote por meio de exame psicológico, com rejeição daqueles que tal análise considerar serem homossexuais.

 

A ABLGT lamenta que, no ano em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos, o Vaticano possa adotar uma prática flagrante de discriminação desta natureza. Citamos: “Artigo I: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. Artigo II: Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.”

 

Em dezembro de 2007, o Arcebispo italiano Silvano Tomassi, representando o Vaticano em sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, afirmou que os direitos básicos de cada ser humano “não estão sujeitos aos altos e baixos históricos ou interpretações de conveniências” e que a dignidade humana “transcende qualquer diferença religiosa, política ou cultural”, unindo todas as pessoas “numa única família”.

(Fonte: http://www.teologiafeevida.com.br/modules/news/article.php?storyid=83)

 

Ora, há uma nítida contradição no discurso do Vaticano, que por um lado prega o respeito aos direitos humanos e afirma que todas as pessoas fazem parte de “uma única família”, ao mesmo tempo em que exclui os homossexuais de seus quadros. Materializou-se a situação prevista por George Orwell, em sua sátira A Revolução dos Bichos [Triunfo dos Porcos*]: “todos os animais são iguais, mais alguns são mais iguais do que outros”.

 

A competência, ou “rigidez de caráter”, de um sacerdote independe de sua orientação sexual, assim como a prática da pedofilia não é exclusiva aos homossexuais. Estudos demonstram que a pedofilia é praticada contra crianças de ambos os sexos, majoritariamente por homens heterossexuais, muitas vezes o pai ou parente próximo da vítima. É improvável que a medida tomada pelo Vaticano resulte na almejada diminuição dos casos de pedofilia praticados por seus sacerdotes. A ABGLT condena a pedofilia e,  conforme disposições de seu estatuto e as resoluções do seu I Congresso, não aceita a afiliação de organizações que promovem a pedofilia.

Para a ABGLT, a atitude do Vaticano não é atitude cristã, é uma atitude discriminatória, ou seja, anti-cristã. Trata-se de martirizar pessoas que apresentam essa diferença em relação à maioria, demonizando-as. Trata-se de manter a discriminação, aquela que a Igreja diz combater.

A ABGLT já solicitou ao Conselho Federal de Psicologia que se pronuncie sobre esse acinte à cidadania da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais,  tendo em vista que em 1999 o Conselho publicou a Resolução 001/99 que diz que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão” e que “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”. O Conselho deverá se pronunciar dentro de uma semana.

 

Na semana que vem, será realizada a XXIV Conferência Mundial da Associação Internacional de Lésbicas e Gays (ILGA), em Viena, Áustria. O evento reunirá delegados de organizações LGBT do mundo inteiro e a delegação brasileira solicitará a emissão de uma nota de repúdio ao Vaticano em nome da comunidade internacional LGBT.

 

Toni Reis

Presidente da ABGLT


*nota PortugalGay.PT


Ronaldo - Carta Aberta

por portugalgay segunda-feira, 05 Maio 2008 12:14

"Carta Aberta Associação das Travestis RJ sobre caso Ronaldo

Carta Aberta da ASTRA RIO (Associação das Travestis e Transexuais RJ)á apresentadora ANA MARIA BRAGA em respostas a suas declarações Transfóbicas.

Carta Aberta á Apresentadora Ana Maria Braga
Rio de janeiro 1 de Maio de 2008

Excelentíssima Senhora,

"A Associação das Travestis, Transexuais e Transgêneros do Estado do Rio de Janeiro (ASTRA RIO), uma entidade fundada em 29 de Janeiro de 2004 com objetivo de organizar associar e atender as demandas da população de Travestis, Transexuais e Transgêneros deste estado, vem por meio desta manifestar publicamente sua indignação com os comentários feitos pela senhora, quando citava o caso sobre o envolvimento do craque Ronaldo com as Travestis durante o programa exibido em 30 de Abril de 2008. Assistir as declarações e falas da Senhora quando disse que o Ronaldo deveria dormir mais cedo ao invés de se envolver em situações como essa e com esse tipo de gente, onde a senhora ainda sugeria que o caso se trataria de um golpe praticado frequentemente por Travestis e Transexuais profissionais do sexo do RJ, foram como reviver mais uma vez nosso triste fluxo social , como acontece com a maioria de nós Travestis e Transexuais , primeiro nossos pais e familiares nos rejeitam, em seguida o ambiente escolar também nos exclui, amigos não querem mais a minha presença ,nesta manhã do dia 30 vi mais uma pessoa querida a quem recebo toda manhã , me ferir e segregar brutalmente em suas palavras que para min foram flechas.

Diferentemente dos demais dias onde acompanho as mensagens matinais que a muitos telespectadores emocionam com lindas citações de inclusão, respeito, fraternidade, amor e esperança , nesta manhã me vi sendo ridicularizada e classificada como cidadã de segunda ou de nenhuma categoria. Aquela companheira querida exemplo de mulher, tornava-se naquele momento parte do grupo dos meus algozes sociais, responsáveis por grande parte da situação desigual e miserável que ainda hoje obrigam travestis e transexuais a buscarem seu auto sustento nas calçadas. Será que nossa querida companheira esqueceu que dentre os valiosos pontinhos do IBOPE existem muitas travestis e transexuais brasileiras com a televisão ligada a espera da sua companhia, umas acordando para seu dia de trabalho, enquanto outras assistem chegando das ruas e mesmo cansadas ainda ouvem as noticias ou anotam uma receita e não sabiam que este programa não era apropriado par ESTE TIPO DE GENTE , tipo de gente este que acompanham sua carreira e também realizaram orações e pedidos para sua cura, comemoraram sua felicidade amorosa e lhe desejam todo bem . Pena que pelo que parece não somo merecedoras do mesmo respeito por parte de quem admiramos.Independente dos casos vinculados a mídia, Travestis e Transexuais não são nenhum fenômeno esportivo mas com certeza são o segmento populacional mais brutalmente discriminados, verdadeiros fenômenos de sobrevivência , onde quem tem o poder do microfone , tem que usa-lo com sabedoria e justiça pois comentários sem conhecimento do que realmente se dá na relação cliente e Travestis onde é clichê em casos de desentendimento as falas: PENSEI Q FOSSE MULHER ou ELES QUERIAM ME ROUBAR como fulga da constatação do envolvimento com o alvo do seu desejo e da sua culpa.


Portanto ESTE TIPO DE GENTE citado estava trabalhando para atender um mercado que AQUELE TIPO DE GENTE PROCURA.

O movimento social organizado de Travestis e Transexuais é extremamente contrario a utilização e ao tráfico de entorpecentes e esclarece que as Travestis e Transexuais profissionais do sexo não têm como parte de suas atividades como prostituta, roubo, extorsão o tráfico nem a utilização de drogas. Quanto o ocorrido entre a Transexual Anderia Albertini e o Jogador Ronaldo esta instituição deseja que os fatos sejam esclarecidos com imparcialidade no tratamento e averiguação policial e que tudo a verdade possa vir a tona para que nenhuma das partes envolvidas sejam injustiçadas.

Finalizo reafirmando minha tristeza com seu posicionamento mais expressando a senhora e equipe votos da mais elevada estima e distinta consideração, deixando abaixo um texto meu para reflexão que com certeza reflete quem somos.

QUANDO EU ERA PEQUENO, MINHA MÃE TINHA UM MEDO,
MEDO DE QUE EU USASSE SUAS ROUPAS, MEDO QUE UM DIA, EU QUISESSE USAR BATOM,
COMO SE EU JÁ NÃO SOUBESSE O GOSTO,
COMO SE EU JÁ NÃO FOSSE ELA, QUANDO ELA NÃO ESTAVA EM CASA...
O QUE MINHA MÃE NÃO SABIA OU FINGIA NÃO SABER
É QUE POR DENTRO EU ERA TÃO MULHER QUANTO ELA,
EU SÓ NÃO PODIA APARECER,
QUEM PODE ME ENTENDER? QUEM TENTA ME ENTENDER?
TALVEZ EU NÃO PRECISE SER ENTENDIDA, TALVEZ EU NÃO QUEIRA PRECISAR,
MAS ANTES DE VOCÊ ME CHAMAR DE BONECA...
SAIBA QUE AS QUE QUIS TER NÃO TIVE, A VIDA COLOCOU PARTE DELAS EM MIM,
BRAÇOS DE UMA, PEITOS DE OUTRAS, E ME FEZ SENTIR QUEM EU SOU!
QUEM DERA SER UMA BONECA DE FATO,
QUEM SABE ESTARIA MAIS FELIZ NO COLO DE SUA FILHA DO QUE NO SEU,
E SE EU NÃO ACHAR QUE A PROSTITUIÇÃO NÃO É MEU CAMINHO,
VOCÊ ACEITA??????????? VOCÊ ME DARIA EMPREGO??????
OU É MAIS FÁCIL DIZER QUE SOU INFELIZ?
QUE SOU PERIGOSA???? PROVAVELMENTE SEUS MARIDOS NÃO ACHAM,
E EU SEI QUEM SOU, A MINHA LUZ, OS MEUS DESEJOS, AS MINHAS VITÓRIAS E TRISTEZAS.
E EU SEI DE MIM, MAIS QUE VOCÊ DE VOCÊ MESMO
MESMO PORQUE SOU NO MÍNIMO DUAS,
QUEM EU SOU DE VERDADE, SOU QUEM APARENTO SER,
GENTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!(Rafael ?Vice presidente Grupo CaboFREE) "

Sem mais,

Majorie Marchi Presidente ASTRA RIO


O Patriarcado não voltará

por portugalgay domingo, 06 Janeiro 2008 11:48

Entrevista publicada na Revista "Alias" do Jornal Estado de S. Paulo (Brasil), com pequenos ajustes para o Portugal:

'O patriarcado não voltará'

Göran Therborn
Catedrático de sociologia da Universidade de
Cambridge
Nem com exortações do papa à família tradicional, nem com
investidas islâmicas, aposta sociólogo
Pedro Doria

Foram inúmeras as vezes em que Bento XVI, em seus quase três anos de papado, alertou para uma crise de valores familiares que tocaria especialmente a Europa. Fez isso de novo esta semana, durante a oração do Ângelus, na Praça de São Pedro. No Irã, no Afeganistão, em todo o Oriente Médio, islâmicos radicais acusam o Ocidente de viver um processo de degradação moral, que leva à dissolução dos lares. Afinal, o que acontece com a família nessa parte do mundo onde existe a liberdade dos costumes? Tudo “culpa” da revolução sexual dos anos 60?

Para o sueco Göran Therborn, professor de Sociologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a nova ordem familiar no Ocidente foi determinada por um fator para o qual pouco se atina. “Tudo começou no momento em que as mulheres receberam educação superior”, diz o autor de Sexo e Poder (Editora Contexto, 2006) considerado pelo historiador Eric Hobsbawn um dos livros mais importantes publicados nos últimos 30 anos. E é nele que Therborn crava: o patriarcado não voltará jamais, o que certamente contraria apostas de ultraconservadores dos diferentes credos.

Therborn admite que a crise familiar existe, mas não é só de valores. Prefere creditá-la a uma mistura complexa que envolve pobreza, carência educacional e o novo patamar das ambições. No meio urbano, pais com baixa escolaridade estão ausentes de casa - e sua ausência cria filhos mal integrados à sociedade. Na outra ponta, jovens adultos da classe média, no auge da vida reprodutiva, investem o que podem em educação e carreira para só então pensar em filhos - quando já é tarde demais para ter mais que um. A taxa de natalidade cai em muitas partes, também em conseqüência dos papéis ativos que as mulheres assumem na sociedade. Mas esse é um processo irreversível, alerta Therborn. “A emancipação feminina já está chegando ao mundo islâmico”, declarou ao longo desta entrevista para o Aliás, em sua passagem por São Paulo.

O que já ficou sedimentado da revolução sexual dos anos 60?

Houve uma mudança no comportamento sexual, mas a revolução é muito mais ampla e abrangente. Sua principal causadora foi o aumento do número de mulheres recebendo educação superior, o que, por sua vez, resultou em mais mulheres trabalhando como professoras universitárias, mais pesquisadoras, mais estudos feministas. É um processo que tem início na “desindustrialização” de vários países.

Desindustrialização?

Coincidiu com a passagem de uma economia baseada na indústria para uma de serviços. O processo de consolidação da Revolução Industrial cimentou a família patriarcal clássica, de camponeses. A família patriarcal burguesa manteve o homem como ganhador do pão. Esse processo foi fragilizado pela onda de educação superior após a Segunda Guerra Mundial para jovens mulheres. É quando acontece a mudança crucial.

A revolução sexual seguiu o mesmo padrão nos vários lugares em que aconteceu?

Não. Em países como o Japão, ela se deu de forma mais controlada e discreta. O número de crianças nascidas fora do casamento civil e o índice de divórcios são baixos lá. A iniciação sexual também ocorre muito depois do que é padrão na América do Norte e Europa. Isso se repete em todas as grandes cidades asiáticas, como Taipé, Hong Kong ou Xangai. Em boa parte da Ásia e na África, a sociedade patriarcal se mantém e o motivo é que não houve ainda um número maciço de mulheres com educação superior cobrando igualdade de direitos. É uma combinação de história, instituições e educação. Precisamos pensar nesses três elementos. Na classe média urbana da Índia, hoje, a norma ainda é que os pais escolham os maridos das filhas. Lá existe um mercado de casamentos bastante sofisticado. O casamento é uma commodity, coisa que nos EUA ou na Europa seria considerado algo ordinário. É claro que existem casamentos envolvendo interesses financeiros nas Américas ou na Europa, mas de forma diferente.

Como funciona o mercado matrimonial indiano?

Assim como acontece na Europa e nos EUA, é comum na Índia a publicação, nos classificados de jornais, de anúncios buscando parceiros. A primeira diferença é que, lá, os textos não vêm em primeira pessoa. Não vêm na linha “sou assim e assado, meu cabelo é de tal cor, tenho interesses tais”. Na Índia, os anúncios são do tipo “temos uma filha em idade para casar, sua pele é clara”. Os anúncios, então, continuam: “Estamos procurando um rapaz educado preferencialmente no estrangeiro”. A questão fundamental é que, mesmo em comunidades urbanas de classe média, na Ásia, as relações familiares são muito diferentes. Tenho certeza de que os anúncios de busca de parceiros publicados pela imprensa brasileira não são assim. Devem ser mais parecidos com os europeus e americanos.

A instabilidade no casamento, no Ocidente, é sinal de uma sociedade com problemas?

Vamos por partes. Quando o índice de natalidade europeu começou a cair pela primeira vez, isso ocorreu porque os casais assumiram o planejamento das próprias vidas e passaram a determinar quantos filhos queriam ter. Isso começou já no fim do século 19. O que acontece agora é diferente. As pesquisas mostram que muitas mulheres têm menos filhos do que gostariam. Seu ideal em quase todo o continente seriam dois, mas acabam tendo apenas um. O que faz isso acontecer é um novo conjunto de prioridades. Primeiro, você quer uma boa educação formal, e isso toma tempo. Depois, você quer estabelecer uma carreira. Em terceiro lugar, você quer comprar um apartamento. Só aí procura um parceiro. Quando tudo acontece, provavelmente já é tarde demais para ter dois filhos. O índice de fertilidade entre humanos cai drasticamente após os 30 anos.

Isso inclui filhos fora do casamento civil?

Sim, mas não são filhos acidentais. São filhos vindos também de relações informais.

Quando abrimos mão de rituais, sejam civis ou religiosos, isso causa algum impacto?

Certamente. Casamentos formais são mais estáveis que os arranjos de coabitação. É por isso que as pessoas escolhem coabitar, não é? Porque não têm certeza de que dará certo.

De onde vem a instabilidade?

O que acontece é que as pessoas estão exigentes, têm mais expectativas num casamento. Não toleram idiossincrasias do parceiro que a geração de meus pais, por exemplo, tolerava. Isso tem um impacto considerável nas crianças.

Como resolver? Será preciso uma nova revolução sexual?

Jamais retornaremos à estrutura patriarcal. O que acontecerá é que os índices de divórcios vão subir e descer. Nos EUA, eles estão caindo bastante, desde que atingiram um pico no início dos anos 1990. É importante nos lembrarmos que não é apenas a maneira como as pessoas encaram relações íntimas que aumenta o número de divórcios. Também há influências sociais e econômicas.

O papa Bento XVI aponta uma crise familiar que, para ser solucionada, exige um retorno a certos valores. Ele tem razão?

A Igreja católica deveria ser cautelosa antes de se manifestar a respeito de relações familiares porque seus representantes abrem mão de ter família. Não sabem como é. Agora, certamente há problemas. Existe o efeito de toda essa instabilidade sobre as crianças. Houve alguma negligência por parte dos movimentos feministas dos anos 1970 e 1980 nessa área, quando puseram toda a ênfase na liberação da mulher. Na Grã Bretanha, onde se verifica a menor presença dos pais no cotidiano das crianças em toda a Europa, sentem-se os efeitos mais sérios, personificados em jovens violentos, mal ajustados à sociedade. Novamente, eis a influência social e econômica, já que a ausência dos pais é mais evidente entre os mais pobres e menos educados. Esse é um padrão repetido em todo o mundo. Na comunidade negra, nos EUA, encontramos a mesma pobreza, a mesma ausência dos pais, assim como a violência entre jovens. É importante apontar que esse conjunto de fatores nem sempre gera violência, mas leva a um comportamento errático. Uma hora o jovem é afetuoso, no momento seguinte, agressivo. Essa é a verdadeira crise familiar: relações interpessoais inseguras, num clima de privação econômica.

Radicais islâmicos denunciam a “decadência sexual” do Ocidente e a apontam como uma das causas de conflito entre as culturas. Diferença cultural gera conflito?

Não creio. Existem sistemas familiares diferentes no mundo e esses contrastes sempre existiram. A emancipação feminina nos países muçulmanos se dará de forma diferente da que tomou na Europa ou nas Américas. Precisamos nos lembrar, sempre, que essas mudanças são recentes. Hoje, no sul da Alemanha, há uma lei estabelecendo que famílias de imigrantes devem reconhecer a igualdade entre os sexos sob ameaça de extradição. Não vejo nada de errado. Mas os democratas-cristãos alemães, que comandaram o país por muito tempo, só reconheceram tal igualdade na década de 70. Deveriam ser extraditados naquela época?

Acredita numa revolução sexual no mundo islâmico?

Com certeza. No Egito, na Líbia e na Tunísia já há mais mulheres do que homens estudando nas universidades. Vemos os efeitos desse fenômeno no aumento da idade média de casamento. Na Líbia, hoje, é de 28 anos para as mulheres, repetindo o padrão europeu. Ainda há tradições patriarcais nesses países, mas é muito mais difícil dar ordens a uma jovem urbana de 28 anos, formada, esclarecida, do que a uma menina camponesa semi-analfabeta, de 17. No Irão, a idade média de casamento vem subindo desde a Revolução Islâmica. Haverá mudanças nos países muçulmanos.

Educação é uma força maior que democracia como instrumento de mudança?

Não em todos os casos. Quando se leva em consideração as relações entre homem e mulher, sim. Educação afeta oportunidades de trabalho, transferência de propriedade, secularização, instrumentos importantes de mudança social.

Polémicas como casamento gay, direitos reprodutivos, estudos com células-estaminais embrionárias podem dominar a discussão política no século XXI?

Essas discussões estão dominando parte do discurso político atual. Pelo menos, são preocupações evidentes da elite política, freqüentemente levantadas por políticos conservadores. Porquê? Porque eles sabem que essas polêmicas, no fundo, geram pouco conflito e pouca resistência organizada. Ao assumi-las, eles desviam de temas mais prementes e de difícil solução.

O senhor acha que não há resistência quanto a esses temas?

Não há. É mais fácil falar sobre a relação entre os sexos, sobre questões familiares, do que discutir porque o Brasil, no segundo governo Lula, ainda é um dos países com maior desigualdade social no planeta. Para enfrentar esse tipo de problema, aí sim, você encontra resistência organizada. Desigualdade econômica é uma questão muito mais complexa e problemática.

Mas questões sobre família não são discutidas apenas no Brasil.

Elas são discutidas em países nos quais muitas das batalhas cruciais a respeito das relações familiares já foram vencidas. Em países onde ainda existe um patriarcado institucionalizado, nos quais a supremacia masculina não é discutida, não há espaço para outras discussões.

Ainda há um patriarcado dominante no Brasil?

Não. O País mudou e continua mudando rapidamente. Anda num passo parecido com o do restante da Europa latina. Ainda há muita desigualdade entre os sexos, tanto social quanto econômica e política. Pode haver regiões rurais bem mais conservadoras, mas mesmo essas não podem ser chamadas de sociedades patriarcais.

TERÇA, 1º DE JANEIRO
A família é “a principal agência de paz no mundo”, afirmou o papa Bento XVI ao rezar o Ângelus na Pça. São Pedro. Ele voltou a insistir em uma de suas principais cruzadas: a defesa da família nos moldes tradicionais - marido e mulher, casados pela Igreja Católica.
Papa insiste na família à antiga

ARRANJO INFORMAL
“Muitos preferem coabitar a casar. Não toleram as idiossincrasias do parceiro”

PROLE MENOR
“No final, elas têm menos filhos do que gostariam. Seu ideal seriam dois, não um”