Quase 10 % da população transgénero será assassinada, em comparação com 0.0055 % da população em geral.
60 % da população transgénero será vítima de crimes de ódio.
Estas estatísticas vindas como não podia deixar de ser dos EUA, providenciadas pela Gender Evolve, são a base de uma petição online às Nações Unidas demandando direitos iguais para a população transgénero aos da restante população.
Enquanto lá por fora vão aparecendo estatísticas, até mesmo da Austrália, no outro lado do planeta (46.9 % de trans femininas e 29.4 % de trans masculinos foram ameaçados com violência), em Portugal não se conhecem estatísticas relativas à população Transgénero.
Por esse mundo fora, Transgéneros e amigos/apoiantes reúnem-se em Novembro para o Transgender Day of Remembrance, para relembrar e honrar aqueles que foram assassinados devido a Transfobia.
Este evento teve o seu início para comemorar a vida de Rita Hester, cujo assassinato em 1998 despoletou uma vigília em San Francisco, e o Remembering Our Dead website, que tenta enumerar os nomes daquel@s que foram assassinados devido a Transfobia.
Desde essa altura, o evento espalhou-se, tendo presentemente lugar em numerosas cidades pelo mundo fora.
Sendo um evento com uma importância cada vez maior, traz ênfase aos perigos e diferenças de se ser Transgénero, enquanto une a população Transgénero com um verdadeiro sentimento de comunidade ao honrar os seus mortos. É também uma representação do activismo Transgénero, que luta pelos direitos humanos que se deve ter, nomeadamente o direito a não se ser assassinado por se ser Transgénero. Igualmente revela ao mundo o nível de violência a que a população Transgénero está sujeita, relembrando que a transfobia existe e é uma realidade, até aqui no nosso pequenino Portugal, alargando a discussão para além da homofobia.
Em Portugal, a totalidade dos movimentos ditos LGBTTI, continuam sistematicamente a ignorar esta data marcante da comunidade Transgénero.
Muito graças a vários blogues que foram aparecendo por aí (Transfofa em blog, Lara’s dreaming, Fishspeakers entre outros) feitos por Transgéneros (Transexuais nestes casos) que decidiram que já chegava de não termos uma voz nossa, os grupos e associações LGBTTI lá começaram a prestar atenção (a contra-gosto ou não) a esta comunidade que tem sido sistematicamente ignorada e discriminada desde que se iniciou o chamado movimento LGBTTI em Portugal, com o início das várias associações/grupos existentes.
Mesmo quando se comemora anualmente o Pride, o dia do orgulho gay, que comemora os Stonewall Riots, teimam em esquecer que quase três anos antes aconteceu o Compton’s Cafeteria Riot.
Em Agosto de 1966, no Gene Compton’s Cafeteria localizado no Tenderloin em San Francisco, uma área operária e pobre da cidade onde a população Transgénero vivia ( e ainda vive), aconteceu o primeiro levantamento LGBTTI.
Tudo começou quando uma provocadora Queen se recusou a abandonar o café, fazendo com que a gerência chamasse a polícia. Quando esta chegou, não obteve a reacção que esperava. A maioria das pessoas presentes eram Transgéneros, e "começaram a partir todas as janelas do lugar, e enquanto tentavam sair para escaparem aos estilhaços de vidros, a polícia tentou apanhar e meter nas carrinhas todos que pudessem apanhar, mas foram atacados a murro e pontapé, tendo uma carrinha policial ficado com os vidros todos partidos e uma banca de jornais foi totalmente queimada."
Embora algumas mudanças positivas se tivessem sucedido a este levantamento, como um melhor relacionamento com a polícia local, e o estabelecimento de serviços sociais para benefício da população Transgénero, este acontecimento, por ter sido protagonizado por Transgéneros, não deu início a um movimento nacional massivo como sucedeu com o levantamento similar na Greenwich Village em New York depois de um raide policial ao bar Stonewall.
Aconteceu demasiado cedo, quase 3 anos antes de Stonewall? Ou foi novamente a Transfobia ainda existente dentro dos próprios movimentos LGBTTI a fazer esquecer que a população Transgénero existe e tem voz, direitos e vontade de lutar por eles?
O facto é que, em Portugal, comemora-se todos os anos o Pride, com uma marcha e uma festa, agora (finalmente) não só em Lisboa mas também no Porto, com o apoio da quase totalidade das associações/grupos LBGTTI além de outras referentes a direitos humanos, e o Transgender Day of Remembrance continua a ser completamente ignorado.
Até quando?
Eduarda Santos
http://transfofa.blogspot.com/